Especialistas dão dicas sobre o que
ajuda e o que pode atrapalhar no
processo de aprendizagem da leitura e da escrita
A alfabetização na idade certa não depende exclusivamente do trabalho realizado no ambiente escolar. A participação da família é um dos fatores que também influenciam o desenvolvimento da leitura e da escrita. No entanto, o apoio familiar não deve ser baseado em cobrança por desempenho, mas sim contribuir para um ambiente seguro, estimulante e alinhado à proposta pedagógica.
Além de ser um direito da criança, aprender a ler e escrever é um processo que exige intencionalidade, acompanhamento e vínculo. Exemplo disso é que, embora o período entre 5 e 7 anos seja considerado mais favorável para a aprendizagem da alfabetização, a qualidade das experiências oferecidas neste momento tem um efeito mais significativo do que a fase etária. Importante considerar que para além essa aprendizagem se dá em contextos reais de comunicação, interação e criação. Assim, aprender a ler e a escrever se dá em situações em que a leitura e a escrita fazem sentido para a criança.
“Aprender a ler e a escrever amplia a leitura de mundo da criança e contribui para todas as outras aprendizagens. Quando escola e família compartilham a mesma compreensão sobre esse processo, a criança se sente mais segura e confiante para avançar”, afirma Ricardo Chiquito, coordenador corporativo pedagógico da Rede Santa Catarina, que conta com nove escolas distribuídas pelo Brasil.
Diferente do que muitos podem pensar, o apoio dentro de casa não exige métodos complexos, antecipação de conteúdos escolares e muito menos uma busca excessiva por performance. Angélica do Carmo, especialista em orientação educacional da instituição, explica que pequenas atitudes cotidianas têm impacto considerável e podem ser adotadas pelos responsáveis e rede de apoio.
“Ambientes acolhedores favorecem a autonomia, a curiosidade e o
desejo de aprender. Por outro lado, mesmo bem-intencionadas, algumas atitudes
podem impactar negativamente o processo, fazendo com que a criança se retraia.
Quando há excesso de cobrança, o medo de errar tende a bloquear a participação
e a experimentação, elementos essenciais nessa fase”, explica a especialista.
O que fazer na prática
- Ler para a criança e com a criança regularmente;
- Permitir que ela “leia do seu jeito”, mesmo que ainda
não domine o sistema alfabético;
- Oferecer contato com diferentes materiais escritos,
como livros, gibis, listas, receitas, rótulos e bilhetes, placas;
- Valorizar tentativas e avanços, em vez de focar apenas
nos erros;
- Manter diálogo constante com a escola sobre o
desenvolvimento do aluno.
O que pode atrapalhar
- Comparar a criança com colegas ou irmãos;
- Exigir desempenho além do esperado para a faixa etária;
- Transformar a leitura em obrigação ou punição;
- Corrigir excessivamente cada erro, interrompendo a
fluidez da aprendizagem;
- Pressionar por resultados imediatos.
Parceria que fortalece
A comunicação entre família e escola é decisiva. Alinhamento de expectativas, troca de informações sobre avanços e dificuldades e compreensão do percurso individual da criança ajudam a evitar rótulos e inseguranças. Para os especialistas, apoiar a alfabetização na idade certa não significa acelerar a criança, mas oferecer condições para que ela se desenvolva com segurança, autonomia e prazer.
“A alfabetização envolve aspectos cognitivos, emocionais, sociais e linguísticos. A aprendizagem se dá nas relações e interações, inclusive com artefatos literários, culturais, científicos, artísticos, corporais, ou seja, em diferentes linguagens e até mesmo em situações lúdicas e brincantes. Quanto mais positiva e acolhedora for essa construção a partir da contextualização e da cultura infantil, mais significativa será a alfabetização”, reforça Ricardo Chiquito.
O coordenador cita como exemplo o Projeto Alfaletrar, que orienta
o trabalho de alfabetização e letramento da Rede Santa Catarina. A partir de
práticas intencionais, mediadas pelo professor e conectadas ao universo
infantil, a proposta integra letramento a situações reais de leitura e escrita,
respeita o ritmo de cada criança e reforça seu protagonismo, além da
importância da união entre escola e família no processo.
Dificuldade pontual ou persistente?
Nem toda dificuldade indica transtorno de aprendizagem. Em muitos
casos, trata-se de desafios temporários relacionados à imaturidade do
desenvolvimento, a lacunas pedagógicas, fatores emocionais ou interrupções no
processo escolar. Nessas situações, a criança tende a apresentar avanços quando
recebe ensino estruturado, acompanhamento contínuo e estratégias adequadas.
O foco deve ser a compreensão do perfil da criança e a adaptação das estratégias pedagógicas para as suas necessidades. A atenção deve ser redobrada quando as dificuldades persistem sem evolução, mesmo após intervenções. “Quando não há avanço, mesmo com ações planejadas e observação atenta, é preciso entender o que está dificultando a aprendizagem e orientar novas ações”, destaca Angélica do Carmo.
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