![]() |
| Freepik |
Com 92% dos jovens brasileiros conectados, psicóloga e advogada discutem o impacto do uso compulsivo e as falhas de segurança em ambientes virtuais
No início deste
ano, o debate sobre liberdade e segurança online de crianças e adolescentes
ganhou novo capítulo após o caso envolvendo a plataforma Roblox, alvo de
denúncias e investigações no Brasil. O episódio ocorre em um cenário de ampla
conectividade: 24,5 milhões de brasileiros entre 9 e 17 anos utilizam a
internet, o equivalente a 92% dessa população, segundo a pesquisa da TIC Kids
Online Brasil.
Com 144 milhões de
usuários ativos diariamente em todo o mundo, sendo 50 milhões menores de 13 anos
e 57 milhões na faixa de 13 a 17 anos, a plataforma se consolidou como um dos
principais ambientes digitais frequentados por crianças e adolescentes. No
entanto, autoridades brasileiras alertam que, por trás do visual lúdico e da
proposta de entretenimento, existem riscos relevantes, como a circulação de
conteúdos inadequados, desafios de monitoramento e um ambiente que pode
facilitar a atuação de aliciadores.
A advogada e
coordenadora do curso de Direito da Afya Sete Lagoas, Tereza Cristina Sader
Vitar, comenta que no caso do Roblox, dados divulgados por autoridades
brasileiras indicaram que grande parte das vítimas monitoradas teria tido o
primeiro contato com agressores dentro da própria plataforma. Isso revela que
não se trata de situações imprevisíveis, mas de riscos estruturais do ambiente
digital.
“Sob a perspectiva
normativa, o Estatuto da Criança e do Adolescente impõe o dever de proteção
integral, o que inclui ambientes virtuais. O Marco Civil da Internet, por sua
vez, estabelece obrigações relacionadas à disponibilização de canais de
denúncia, remoção de conteúdo e cooperação com autoridades. Com a evolução
legislativa e a consolidação do chamado ‘ECA Digital’, há uma mudança de
paradigma: não basta a plataforma alegar boa-fé. Ela precisa demonstrar,
tecnicamente, mecanismos eficazes de monitoramento de riscos, moderação de
conteúdo e prevenção de interações abusivas. Trata-se de um dever jurídico de
prevenção, e não apenas de reação.”
Ao ingressar na
plataforma, o usuário cria rapidamente um avatar e escolhe um apelido sugerido
pelo sistema. O processo de cadastro é simples e, quando a idade informada é
superior a 18 anos, não há exigência obrigatória de comprovação documental, o
que levanta questionamentos sobre a efetividade dos mecanismos de verificação
etária.
“Quando uma
plataforma permite que o usuário apenas autodeclare a própria idade, sem adotar
mecanismos minimamente eficazes de verificação, cria-se um ambiente vulnerável
à fraude identitária. Sob a ótica jurídica, esse cenário pode configurar
negligência tecnológica. A empresa que explora economicamente um ambiente
digital direcionado, em grande medida, ao público infantojuvenil assume o dever
de implementar medidas compatíveis com os riscos inerentes à sua atividade. Com
o avanço da proteção normativa no ambiente digital, a ausência de verificação
etária efetiva deixa de ser mera falha operacional e passa a poder ser
interpretada como possível descumprimento do dever legal de cuidado”.
Impactos
psicológicos causados na infância
A realidade
brasileira dimensiona o tamanho do desafio. De acordo com a TIC Kids Online
Brasil 2025, o celular é o principal meio de acesso à internet para 96% dos
jovens de 9 a 17 anos e é utilizado várias vezes ao dia por 74% deles. A conectividade
constante amplia oportunidades de aprendizado, entretenimento e interação
social, mas também intensifica vulnerabilidades emocionais.
A psicanalista e
psicóloga da Afya Contagem, Dra Andréa Chicri Matiassi, esclarece que o uso
excessivo pode impactar diretamente processos ainda em desenvolvimento na
infância e na adolescência. “A criança pode apresentar irritabilidade intensa
quando é interrompida, dificuldade em aceitar limites e frustração
desproporcional diante de pequenas negativas. Alterações no sono, cansaço
diurno, queda no rendimento escolar e diminuição do interesse por atividades
presenciais também são sinais frequentes. Quando o jogo passa a ser a principal
forma de lazer e alívio de tensões, pode surgir um padrão de uso compulsivo, no
qual a criança recorre ao ambiente virtual sempre que precisa lidar com emoções
desconfortáveis”.
Compreender a função que o jogo ocupa na economia psíquica da criança é muito importante. O brincar é essencial ao desenvolvimento, pois permite simbolizar conflitos e elaborar experiências. Dra Andréa Chicri ressalta que, no entanto, quando o jogo digital se torna predominante e repetitivo, pode assumir a função de compensação narcísica, oferecendo sensação imediata de poder, controle e reconhecimento, elementos fundamentais para a constituição do eu.
“Se
essa experiência substitui de forma excessiva as vivências reais, a criança
pode empobrecer sua capacidade de tolerar frustrações, elaborar perdas e
construir recursos internos mais duradouros. Assim, o problema não reside no
jogo em si, mas no lugar central e exclusivo que ele pode passar a ocupar,
limitando experiências diversas necessárias à maturação emocional e à
construção da autonomia psíquica”, conclui a psicóloga da Afya Contagem.

Nenhum comentário:
Postar um comentário