Com a atualização das normas do Conselho Federal de Medicina, a cirurgia bariátrica passa a ser permitida para jovens de 14 e 15 anos. Além de tratar a obesidade grave, o procedimento visa interromper a trajetória de doenças crônicas precoces
O Brasil de 2026 enfrenta um cenário epidemiológico
desafiador: a obesidade já atinge mais de 30% da população adulta, um reflexo
de hábitos e condições que se manifestam em idades cada vez mais precoces.
Diante da urgência em tratar a obesidade como um problema de saúde pública
mundial, a Resolução nº 2.429/2025 do Conselho Federal de Medicina atualizou os
critérios para que a cirurgia bariátrica possa ser realizada em pacientes de 14
e 15 anos com obesidade grave.
Anteriormente, a idade mínima permitida para o procedimento era de 16 anos. A
mudança traz consigo a possibilidade de intervir antes que as doenças
associadas à obesidade causem danos permanentes ao organismo em formação.
Contudo, vale ressaltar que a cirurgia em adolescentes de 14 e 15 anos não é
uma indicação indiscriminada, e deve seguir critérios de rigor técnico
definidos pelo CFM. O paciente deve apresentar um Índice de Massa Corpórea
(IMC) superior a 40, acompanhado de comorbidades severas que representem risco
potencial à vida.
Para o Dr. Sérgio Melo, cirurgião gastrointestinal do Hospital Santa Lúcia, que
compõe o programa Bariátrica Integrada, a segurança do processo reside na
indicação correta e no envolvimento familiar. "Deve haver um processo
minucioso envolvendo a compreensão e concordância do adolescente e dos pais e
responsáveis", afirma. Embora a técnica operatória seja semelhante à
realizada em adultos, o contexto de uma pessoa em desenvolvimento exige um
olhar diferenciado.
Saúde metabólica e a corrida contra o tempo
Um dos principais argumentos técnicos para a intervenção precoce é a
interrupção da trajetória de doenças metabólicas. A criança obesa tem chances
significativamente maiores de se tornar um adulto hipertenso e diabético.
"Doenças metabólicas são melhor tratadas no início da sua instalação.
Quanto mais tempo de diabetes a pessoa tem, por exemplo, menor o efeito da
cirurgia bariátrica no seu controle", explica o Dr. Melo. Assim, operar
aos 14 ou 15 anos, quando indicado, pode ser mais eficaz do que aguardar até os
18 anos, fase em que o corpo já pode ter sofrido danos vasculares e orgânicos
mais profundos pela exposição prolongada à obesidade severa.
Para além dos números na balança e das taxas glicêmicas, vale destacar, a
obesidade na adolescência também carrega um impacto invisível: os efeitos na
saúde mental, já que a personalidade e a autoestima ainda estão em
consolidação.
Desmistificando mitos: fertilidade e vida pós-cirurgia
O debate público sobre a bariátrica ainda é cercado de mitos. Um dos receios
mais comuns entre pais e responsáveis, no caso dos pacientes de 14 a 15 anos,
diz respeito ao impacto no crescimento e na vida futura do jovem. O maior mito,
segundo o especialista, é a ideia de que o paciente passará a viver em eterna
privação. "Quem trata e conhece muitos pacientes submetidos à bariátrica
sabe que a imensa maioria das pessoas tem uma mesma impressão: a de que o medo
da cirurgia a fez perder tempo e 'devia ter feito a bariátrica antes'",
afirma.
Em relação à saúde óssea, o Dr. Sérgio Melo esclarece que não há relação direta
entre perda mineral e a cirurgia na adolescência, desde que as vitaminas sejam
ajustadas com suplementação adequada. Já sobre a fertilidade do paciente,
diferente do que se imagina, a cirurgia pode melhorar, devido ao ajuste
hormonal que a perda de peso proporciona.
Inovações e o futuro do tratamento
A cirurgia bariátrica permanece como o tratamento mais eficaz a longo prazo no
tratamento da obesidade para pacientes que preenchem os critérios de indicação.
Para responder à demanda, o programa Bariátrica Integrada, do Hospital Santa
Lúcia, organiza a jornada do paciente de forma personalizada e ágil,
acompanhada de perto em todas as etapas.
Um dos diferenciais do programa é a figura da enfermeira navegadora.
"Quando o paciente passa pela consulta inicial, ele é encaminhado para uma
enfermeira navegadora do hospital, que irá acompanhar todo o processo
pré-operatório, marcando exames, consultas e retornos", detalha o Dr.
Sérgio Melo.
A preparação e o seguimento do paciente envolvem uma rede multidisciplinar de
especialistas:
- Avaliação e
preparo: o paciente passa por uma bateria de avaliações com cirurgião,
cardiologista, pneumologista, endocrinologista, psicólogo e nutricionista.
- Trans-operatório:
durante a internação, o cuidado é contínuo, com uma equipe que inclui
anestesiologia, enfermagem, fisioterapia e nutrição clínica.
- Pós-operatório e
seguimento: ajuste de dieta e acompanhamento psicológico é rigoroso, além
de acompanhamento do cirurgião e de endocrinologista.

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