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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

A conta que nunca fecha: eu sei que devo poupar, mas eu gasto mesmo assim [Matemática do impulso

 

Veja se conhece essa cena: você abre o aplicativo do banco decidido a começar o mês com disciplina espartana; e fecha a tela satisfeito, respirando virtude financeira. Quinze minutos depois, surge uma promoção reluzente e com ela um pensamento de “só hoje”, um parcelamento sem juros, e aquela convicção desaparece como gelo no asfalto. No fim das contas, você não é irresponsável nem ignorante, apenas humano lidando com a matemática do impulso.

Muitas tentativas de educação financeira costumam fracassar não porque não se sabe o que fazer, mas porque se esbarra no jeito com que nossa mente toma decisões sob pressão, lida com desejo e com identidade. Saber que é preciso poupar é irrefutável. Agir de acordo com isso é o desafio real, porque o coração do problema está menos na planilha e mais no comportamento. A maior parte das pessoas entende, em linhas gerais, que gastar menos do que ganha é sensato; mas, mesmo assim, as compras por impulso atravessam o caminho delas o tempo todo (nem se trata apenas de tentação momentânea, mas de como nossas emoções e traços de personalidade moldam decisões financeiras sem que percebamos).

Há quem seja naturalmente mais aventureiro e busque mais as novidades, o que torna ofertas relâmpago quase irresistíveis. Outros são mais ansiosos e usam compras para aliviar a tensão, transformando o carrinho virtual em calmante rápido (quem nunca comprou empurrado por um “eu mereço” atire o primeiro cartão de
crédito!). Existem ainda os extremamente sociáveis, sensíveis à opinião alheia, que gastam para não ficar para trás quando amigos exibem roupas, restaurantes ou viagens nas redes. Nenhum desses perfis é “errado”, e todos são previsíveis do ponto de vista psicológico. No cotidiano isso aparece em situações muito comuns:

Saímos para comprar pão e voltamos com sacolas cheias porque “estava barato”.

Decidimos cancelar o streaming, mas renovamos para ver a série do momento.

Juramos que não vamos parcelar, mas aceitamos doze vezes sem juros considerando que cabe no orçamento.

As decisões não são apenas econômicas, são emocionais e identitárias. Para além de satisfação de necessidades básicas, nós também compramos para regular sentimentos, afirmar pertencimento e manter uma autoimagem desejada. Por isso, educação financeira que ignora impulsividade e personalidade tende a fracassar, afinal dizer “basta controlar gastos” é o mesmo que pedir para alguém não sentir frio no inverno. O caminho eficaz passa por reconhecer padrões pessoais, criar ambientes que protejam contra decisões apressadas e reduzir a distância entre intenção e ação. Poupar pode ser mais viável quando o contexto ajuda, e não só quando a consciência pesa.

Além do que está dentro de nós, há um ambiente externo projetado para nos fazer consumir. Parcelamento automático, notificações constantes, descontos personalizados e comparações sociais incessantes transformam o simples ato de resistir em batalha diária. Não é coincidência que, mesmo em momentos de aperto no orçamento, o consumo continue em alta nas datas como Natal, Black Friday e início de ano letivo.

Muita gente também cai em atalhos que parecem racionais, mas distorcem a realidade:

“Se é parcelado, não pesa.”

“Se todo mundo está comprando, deve ser necessário.”

“Se trabalhei muito, mereço.”

Esses raciocínios aliviam a culpa no curto prazo e complicam o orçamento no longo prazo. Enquanto isso, empresas vendem narrativas sedutoras de sucesso e felicidade associadas a produtos; e influenciadores exibem vidas impecáveis que tornam difícil sentir satisfação com o básico. A consequência é um paradoxo: nunca houve tanta informação sobre como gerir dinheiro, e ainda assim muita gente vive permanentemente no limite do orçamento.

A equação da educação financeira não resulta apenas em aprender a fazer contas, se observada com a lente da psicologia do consumidor. Ela requer a habilidade de trabalhar outros fatores como aprender a lidar com impulsos, reconhecer quem se é e elaborar rotinas que protejam nossas melhores intenções. No fim das contas, todo mundo sabe poupar - o desafio é conseguir fazer isso num cenário que insiste em convencer do contrário. Podemos começar deixando de ver o ato de poupar como castigo moral para percebê-lo como uma estratégia inteligente de autocuidado.
 

 

Sibele Dias de Aquino, Doutora em Psicologia, pesquisadora em Psicologia Positiva e professora da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Rio


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