O ano de 2025 consolidou a inteligência artificial (IA)
como peça central de estratégias de negócios, mas expôs um grave
desalinhamento: enquanto empresas correm para adotar IA, poucas se preocupam em
governá-la adequadamente. No Brasil, 8 em cada 10 emresas ainda não possuem
políticas formais de governança para IA, de acordo com o relatório Cost of a
Data Breach 2025 da IBM. Esse mesmo estudo revelou que o custo médio de uma
violação de dados no país já alcança R$ 7,19 milhões, evidenciando o tamanho do
risco oculto quando se implementa IA sem controles e compliance claros.
Empresas têm adotado a IA em busca de eficiência e
vantagem competitiva, tratando modelos algorítmicos e dados como ativos
intangíveis valiosos. Porém, sem governança, a IA pode rapidamente se tornar um
passivo oculto. Modelos de IA mal documentados, por exemplo, são caixas-pretas
que ninguém sabe explicar ou auditar.
Isso não apenas dificulta correções e melhorias, como
também impede a empresa de demonstrar conformidade em auditorias regulatórias
ou responder por decisões automatizadas.
Os riscos invisíveis de uma IA sem governança
Muitos problemas gerados pela IA sem supervisão apropriada
não aparecem de imediato – são silenciosos e cumulativos, explodindo quando
menos se espera. Um cenário hipotético, mas plausível, descrito por
especialistas: imagine uma empresa que implementa um agente de IA para
qualificar automaticamente leads de vendas.
Tudo corre bem, até que um cliente pergunta como seus dados
foram usados.
Descobre-se então que o agente cruzava informações de
múltiplas fontes sem consentimento e armazenava dados sem política de retenção
definida. O resultado? Notificação da ANPD (Agência Nacional de Proteção de
Dados), multa, perda de confiança dos clientes e necessidade de rever às
pressas todos os processos internos.
Outros riscos frequentes envolvem a dependência excessiva de
terceiros. Empresas que adotam IA sem um plano de governança acabam criando
dependências tecnológicas sem alternativa: confiam cegamente em um fornecedor
ou numa ferramenta externa, sem portabilidade de dados ou planos de
contingência.
Diante de tudo isso, por que ainda há tanta empresa negligenciando
a governança de IA? Em parte, porque a velocidade da inovação superou a
maturidade organizacional. Vivemos um momento de “hype” da IA, em que múltiplos
sistemas e modelos são adotados simultaneamente, orquestrando processos
críticos em tempo real.
Muitas vezes, equipes diferentes dentro da mesma companhia
implementam ferramentas de IA isoladamente – marketing usa um chatbot público,
TI adota uma solução de automação, RH experimenta um algoritmo de seleção – sem
uma coordenação central. Essa fragmentação leva à chamada Shadow AI: aplicações
de inteligência artificial usadas de forma não autorizada ou sem supervisão
dentro da organização. O fenômeno é perigoso e invisível justamente por ocorrer
nas sombras – analistas e gestores bem-intencionados utilizando IA sem
diretrizes claras.
Conselhos e diretoria ligam o alerta vermelho
Conselhos de Administração e comitês de risco das empresas
começaram a olhar projetos de IA com a mesma atenção dedicada a grandes aquisições
ou contratos estratégicos de tecnologia. Afinal, o potencial de impacto – seja
em ganhos ou em perdas – é comparável.
Pesquisas recentes indicam que a IA já figura entre as
principais preocupações dos conselhos corporativos em 2026, ao lado de temas
clássicos como desempenho financeiro e estratégia. Líderes querem garantias de
que a tecnologia trará retorno e não uma surpresa desagradável.
A gestão de riscos de IA já é vista como parte da boa
governança corporativa. Porém, a realidade mostra que ainda há caminho a
percorrer: somente 22% dos boards de empresas públicas afirmam ter políticas
formais de governança de IA em vigor, embora outros 60% reconheçam o tema e
planejem discuti-lo em breve. A expectativa é que essa conscientização cresça
rápido, impulsionada tanto por casos práticos de fracassos quanto pelo avanço
de regulações.
Empresas mais maduras já iniciaram movimentos preventivos.
Muitas corporações de grande porte, por exemplo, passaram a exigir de seus
fornecedores evidências de governança de IA antes de fechar contratos. Investidores
também estão fazendo perguntas específicas sobre segurança algorítmica e uso
responsável de IA nos processos de due diligence de aportes e aquisições. Todos
querem se certificar de que não há uma bomba-relógio escondida nos sistemas
inteligentes de quem recebe seus recursos.
Transformando a IA de passivo oculto a ativo confiável
A boa notícia é que é possível, sim, aproveitar os
benefícios da inteligência artificial sem cair nas armadilhas dos riscos
invisíveis. Isso exige, primeiramente, encarar a IA como parte integrante da
estratégia de negócio e da matriz de riscos da empresa, e não como um
experimento isolado do departamento de TI.
Envolve criar estrutura de governança: definir quem, dentro
da organização, aprova e supervisiona o uso de IA; mapear todas as ferramentas
e modelos em uso, inclusive aqueles contratados de terceiros; estabelecer
políticas claras sobre quais dados podem (ou não) ser alimentados em algoritmos
e quais critérios mínimos de explicabilidade e segurança cada projeto de IA
deve atender antes de entrar em produção. Também implica implementar mecanismos
de rastreabilidade e auditoria – cada decisão automatizada relevante deve
deixar um rastro: qual sistema tomou, com que dados, em qual momento, e qual
foi o resultado. Assim, quando houver uma dúvida ou incidente, consegue-se
investigar rapidamente a causa e tomar medidas corretivas.
Vale destacar que governança de IA não significa engessar a
inovação, e sim habilitá-la com segurança. Empresas com políticas robustas de
governança reduziram significativamente o impacto financeiro de incidentes: já
as que adotam tecnologias de governança de IA conseguiram economizar, em média,
R$ 629 mil no custo de cada violação de dados em comparação às que não adotam.
Ou seja, controle não freia inovação – ele a torna sustentável. No balanço
final, a IA governada tende a permanecer um ativo valioso que impulsiona a
competitividade
Cuidar da governança da IA hoje é evitar que ela se torne o problema de amanhã. O ativo e o passivo estão nas duas faces da mesma moeda tecnológica; cabe às empresas decidirem, através da boa governança, em qual lado dessa moeda querem ficar.
Sylvio Sobreira Vieira - CEO & Head Consulting da SVX Consultoria
SVX Consultoria
https://svxconsultoria.com.br
Nenhum comentário:
Postar um comentário