O mercado de trabalho passou por uma transformação
estrutural profunda nos últimos anos. Mudaram as expectativas dos
profissionais, a dinâmica de poder entre empresas e candidatos, o acesso à
informação e, principalmente, a forma como executivos avaliam riscos de
carreira. Ainda assim, muitas organizações seguem conduzindo seus processos de
contratação com lógicas que pertencem a um contexto que já não existe.
Pesquisas do LinkedIn Talent
Solutions indicam que mais de 70% dos profissionais globalmente não
estão em busca ativa de novas posições, mas permanecem abertos a oportunidades
que façam sentido do ponto de vista estratégico, de propósito e de
desenvolvimento. Esse dado, por si só, desmonta a premissa de que o talento
está “disponível” e disposto a se adaptar a qualquer processo. O profissional
sênior escolhe, e escolhe com critérios cada vez mais sofisticados.
Ao mesmo tempo, estudos
da McKinsey mostram que organizações enfrentam dificuldades
crescentes para preencher posições críticas, não apenas pela escassez técnica,
mas pela incapacidade de alinhar velocidade, clareza decisória e atratividade
real. Processos longos, com múltiplos decisores e critérios pouco definidos,
tornaram-se um dos principais fatores de abandono por parte de candidatos
qualificados.
Do ponto de vista dos gestores, esse cenário gera
um paradoxo perigoso. De um lado, a pressão por crescimento, inovação e
resultado nunca foi tão intensa. Do outro, as estruturas de decisão seguem
lentas, fragmentadas e excessivamente defensivas. O recrutamento passa a
refletir essa tensão: muitas etapas, pouca convicção e medo constante de errar.
Relatórios do ManpowerGroup apontam que
mais de 75% das empresas relatam dificuldade para contratar talentos
estratégicos, especialmente em áreas como tecnologia, dados, engenharia,
produto e liderança. No entanto, quando se analisa a fundo esses processos,
percebe-se que o problema raramente está apenas na falta de candidatos. Em
muitos casos, está na falta de decisões claras sobre o que realmente se espera
do profissional e qual problema ele deve resolver.
Outro fator relevante é o impacto reputacional dos
processos seletivos. Segundo dados do Glassdoor, experiências negativas
são compartilhadas de forma recorrente entre executivos, impactando diretamente
a marca empregadora. Diferentemente do passado, essas percepções não ficam
restritas a círculos pequenos (elas se espalham rapidamente e influenciam
decisões futuras de profissionais altamente qualificados).
A dor crônica da contratação, portanto, não é
consequência direta de um mercado hostil, mas de modelos organizacionais que
não acompanharam a evolução desse mercado. Empresas continuam tratando decisões
estratégicas de pessoas como processos operacionais, quando, na prática,
exigiria leitura de contexto, alinhamento executivo e responsabilidade
compartilhada.
Para os gestores, o alerta é claro: insistir em
práticas antigas não apenas prolonga vagas abertas, mas compromete a execução
da estratégia. Contratar tornou-se difícil não porque o talento desapareceu,
mas porque a forma de decidir não evoluiu no mesmo ritmo.
Enquanto as empresas não revisarem seus modelos de
decisão, governança e condução de processos seletivos, a contratação continuará
sendo uma dor recorrente — não episódica. O mercado mudou. Adaptar-se a ele
deixou de ser opção e passou a ser uma condição de sobrevivência estratégica.
Fred Torrës - sócio sênior do Grupo Hub, consultoria de RH especializada em recrutamento e seleção e desenvolvimento de pessoas, com mais de dez anos de atuação no mercado.
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