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sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Você ainda acha que cenoura só faz bem para os olhos? O que a ciência descobriu sobre câncer, coração e cérebro

Presente em um dos alimentos mais comuns da mesa brasileira, o falcarinol passou a ser investigado por sua possível ação sobre células tumorais, mas os benefícios da cenoura vão além e exigem separar descobertas reais de promessas exageradas

 

Durante muito tempo, tudo o que se dizia sobre a cenoura cabia em uma frase repetida por pais e avós: “coma, porque faz bem para os olhos”.

A fama tem fundamento. Sua cor alaranjada denuncia a presença do betacaroteno, pigmento que pode ser convertido pelo organismo em vitamina A, nutriente indispensável para a visão, a imunidade e a manutenção dos tecidos. 

O que pouca gente sabe é que, por trás desse benefício conhecido, existe uma composição química muito mais intrigante. 

A cenoura produz substâncias naturais para se defender de fungos e doenças enquanto cresce debaixo da terra. Entre elas está o falcarinol, um composto que passou a despertar o interesse de pesquisadores por sua ação sobre inflamação, proliferação celular e mecanismos envolvidos no desenvolvimento do câncer colorretal. 

A raiz que parecia nutricionalmente simples começou, então, a ser observada de outra maneira. 

“A cenoura não chama atenção apenas pelas vitaminas. Ela contém fibras, carotenoides e compostos bioativos que atuam em diferentes processos do organismo. É essa combinação que torna o alimento tão interessante”, explica o médico nutrólogo Dr. Cláudio Mutti.

 

Falcarinol, a arma de defesa da cenoura

O falcarinol integra um grupo de compostos conhecidos como poliacetilenos. Na natureza, ajuda a proteger a cenoura contra fungos que poderiam danificar sua raiz. Quando os cientistas levaram essa substância para o laboratório, descobriram que ela também conseguia interferir no comportamento de determinadas células. 

Em estudos com células humanas de câncer colorretal, o falcarinol e outros poliacetilenos presentes na cenoura reduziram a proliferação celular e estimularam mecanismos relacionados à apoptose, um processo natural de morte programada utilizado pelo organismo para eliminar células danificadas ou anormais. 

É como se a célula recebesse uma ordem interna para interromper sua multiplicação e iniciar o próprio processo de descarte. 

O achado não transforma a cenoura em tratamento contra o câncer, mas revela um mecanismo biológico importante, alguns alimentos carregam compostos capazes de interagir com processos celulares muito mais complexos do que se imaginava. 

“O alimento não substitui o diagnóstico, o tratamento ou os exames preventivos. Mas conhecer esses compostos ajuda a entender por que uma alimentação rica em vegetais está associada à proteção da saúde no longo prazo”, afirma Dr. Mutti.

 

O que aconteceu quando pesquisadores acompanharam 57 mil pessoas

A relação entre cenoura e intestino também foi investigada fora dos laboratórios. 

Um estudo prospectivo acompanhou 57.053 pessoas na Dinamarca durante mais de 18 anos. Entre aquelas que consumiam regularmente mais de 32 gramas de cenoura crua por dia, quantidade equivalente a aproximadamente duas a quatro cenouras por semana, o risco de câncer colorretal foi 17% menor em comparação com quem não consumia o alimento. 

Outro grande estudo norte-americano também encontrou associação entre o consumo moderado de cenoura e menor incidência de câncer colorretal. Os pesquisadores observaram, porém, que o efeito não aumentava indefinidamente conforme a ingestão, reforçando que saúde não depende de exageros, mas de constância e equilíbrio. 

A possível proteção não parece vir apenas do falcarinol.

A cenoura também fornece fibras, que ajudam a aumentar o volume das fezes, favorecem o trânsito intestinal e servem de alimento para bactérias benéficas da microbiota. Ao fermentar essas fibras, os microrganismos produzem substâncias que participam da manutenção da barreira intestinal e do controle da inflamação. 

Ou seja: enquanto os poliacetilenos atuam em determinadas vias celulares, as fibras ajudam a construir um ambiente intestinal mais equilibrado. “A proteção não está em um único ingrediente isolado. Ela surge da interação entre o alimento, a microbiota, o metabolismo e o restante da rotina da pessoa”, ressalta o médico. 

Uma raiz simples com efeitos sobre o coração

A cenoura também passou a ser estudada pela possível relação com a saúde cardiovascular. 

Em uma pesquisa realizada nos Países Baixos, com acompanhamento de aproximadamente dez anos, cada aumento de 25 gramas diárias no consumo de cenoura esteve associado a um risco 32% menor de doença coronariana. 

O resultado pode estar ligado à combinação de fibras, carotenoides e compostos antioxidantes presentes no alimento. As fibras participam do metabolismo das gorduras e dos ácidos biliares. Os carotenoides, por sua vez, ajudam a proteger as células contra danos provocados pelo estresse oxidativo, processo envolvido no envelhecimento dos vasos sanguíneos e na progressão de doenças cardiovasculares. 

Um estudo clássico no qual os participantes consumiram 200 gramas de cenoura crua diariamente durante três semanas encontrou uma redução de 11% no colesterol total. Também houve aumento de 50% na eliminação de ácidos biliares e gorduras pelas fezes, indicando uma possível mudança na forma como o organismo absorvia e eliminava lipídios. 

Pesquisas posteriores também observaram que o consumo de cenoura pode modificar a absorção do colesterol e favorecer a excreção de ácidos biliares, mecanismos que ajudam a explicar seu possível papel dentro de uma alimentação cardioprotetora. 

Isso não significa que a cenoura funcione como medicamento para colesterol alto. Seu valor está em participar de um padrão alimentar que protege o coração: mais vegetais, fibras e alimentos naturais; menos ultraprocessados, gorduras de baixa qualidade e excesso de açúcar.

 

Crua ou cozida? A resposta surpreende

Quem acredita que todo vegetal é sempre mais nutritivo quando consumido cru pode se surpreender com a cenoura. 

O falcarinol e outros poliacetilenos são sensíveis ao calor. Por isso, a cenoura crua tende a preservar melhor parte dessas substâncias. Uma revisão sobre consumo de cenoura e câncer observou que justamente a versão crua apareceu com maior frequência nas associações favoráveis identificadas em estudos populacionais. 

Por outro lado, o cozimento pode melhorar significativamente o aproveitamento do betacaroteno. Esse pigmento fica preso dentro das paredes celulares rígidas do vegetal. O calor e a trituração rompem parte dessas estruturas, facilitando sua liberação durante a digestão. 

Em um estudo com voluntários, refeições preparadas com cenoura cozida e transformada em purê permitiram uma absorção significativamente maior de betacaroteno do que as refeições com cenoura crua picada. 

A presença de uma pequena quantidade de gordura na refeição também favorece o processo, porque o betacaroteno é lipossolúvel. Por isso, combinações como cenoura cozida com azeite, ovos, castanhas ou abacate podem melhorar seu aproveitamento. 

A conclusão não é que a cenoura cozida seja superior à crua, mas que cada preparo revela uma vantagem diferente do mesmo alimento.

Na salada, ela preserva melhor determinados compostos e oferece crocância e fibras. Cozida, assada ou transformada em purê, torna parte dos carotenoides mais acessível ao organismo. 

“A melhor estratégia é alternar. Não existe motivo para escolher apenas uma forma. Variar o preparo permite aproveitar melhor a complexidade nutricional da cenoura”, orienta Dr. Cláudio Mutti.

 

O que ela pode oferecer ao cérebro

A cor da cenoura também está ligada à presença de carotenoides, compostos antioxidantes que ajudam a proteger as células contra danos acumulados ao longo do tempo. Além deles, o alimento contém flavonoides, entre os quais a luteolina, substância investigada por sua ação anti-inflamatória e neuroprotetora. 

Em pesquisas experimentais, a luteolina reduziu a ativação de processos inflamatórios no sistema nervoso e apresentou efeitos positivos em modelos relacionados à memória e ao envelhecimento cerebral. Esses achados abriram uma linha de investigação sobre a relação entre compostos vegetais, inflamação e proteção dos neurônios. 

Na vida real, porém, a proteção do cérebro não depende de uma molécula isolada. Ela é construída pela soma de atividade física, sono adequado, controle da glicemia e da pressão, estímulo intelectual e uma alimentação rica em vegetais variados. 

“Coração, intestino e cérebro não funcionam como sistemas separados. Inflamação, circulação, glicose, microbiota e qualidade da alimentação criam conexões entre todos eles”, explica o especialista.

 

Quanto é preciso consumir?

Não existe uma dose terapêutica de cenoura.

Os estudos populacionais encontraram resultados interessantes com quantidades perfeitamente compatíveis com uma alimentação comum: algumas porções distribuídas ao longo da semana, consumidas dentro de uma rotina variada. 

Ela pode aparecer ralada na salada, cortada em palitos, refogada com outros vegetais, assada, incluída em sopas ou transformada em purê. O importante é evitar a ideia de que grandes quantidades produzirão benefícios proporcionais. 

O médico Claudio Mutti conclui: “O que produz efeito é a repetição de bons hábitos, variedade de vegetais, proteínas adequadas, fibras, atividade física, sono e acompanhamento médico quando necessário”.

  

Dr. Cláudio Mutti / RQE - 116971  RQE - 116972


Com direção de Clara Carvalho, Édipo, tragédia grega, vira thriller político no auditório do MASP

 


Com uma nova adaptação do dramaturgo inglês Robert Icke, o espetáculo é um thriller político contemporâneo ambientado no escritório de campanha de Édipo, um candidato prestes a vencer uma eleição majoritária. Sergio Mastropasqua dá vida ao personagem homônimo, enquanto Clarisse Abujamra interpreta Jocasta, que nesta versão ganha maior protagonismo em relação à tragédia original de Sófocles. O clássico foi considerado por Aristóteles a mais perfeita das tragédias

 

A tragédia Édipo Rei, de Sófocles, escrita em 427 a. C. é um clássico há 2500 anos e ganha ares contemporâneos com a escrita do dramaturgo inglês Robert Icke (1986-) em Édipo, que está no auditório do MASP A montagem conta com direção de Clara Carvalho, idealização da pesquisadora Rosalie Rahal Haddad, realização do Círculo de Atores e produção da SM Arte Cultura

 

A temporada tem sessões sextas e sábados, às 20h, e domingos, às 18h, até 6 de setembro. O elenco é formado por Sergio Mastropasqua, Clarisse Abujamra, Oswaldo Mendes, Chris Couto, João Bourbonnais, Thalles Cabral, Thaina Muniz, Márcia Teodoro, Marisa Mainarte, Rodrigo Scarpelli, Thomas Huszar e Roberto Borenstein.

 

A trama é um thriller político contemporâneo ambientado no escritório de campanha de Édipo, um candidato prestes a vencer uma eleição majoritária. Conservando as unidades clássicas de tempo, espaço e ação, a peça traz, além do suspense e de um painel intrincado de relações familiares, uma profunda sondagem existencial e um mergulho no inconsciente. Assistimos à crise vertiginosa de um político que, sem saber, transgrediu leis civilizatórias e que, por excesso de autoconfiança e orgulho, engendra a própria ruína.

 

"Não é que Édipo Rei precise ser atualizado. É uma tragédia tão perfeita e tão interessante que, 2.500 anos depois, continua impecável em sua dimensão universal. O que Robert Icke faz é um exercício muito interessante de releitura, usando todas as linhas mestras da peça. Na montagem, Édipo é o candidato que vai ganhar a eleição. Todas as pesquisas mostram que ele está praticamente eleito. Todavia, um personagem chega para dizer que tudo aquilo que ele acredita sobre si mesmo pode não ser verdade. Existe essa relação entre poder, sucessão e a construção de narrativas", enfatiza Clara Carvalho.

 

A encenação aposta em uma estética contemporânea em todos os recursos cênicos: a trilha sonora de Gregory Slivar, o figurino de Marichilene Artisevskis e o cenário de Chris Aizner, que criam um ambiente híbrido entre o universo eleitoral e a dimensão trágica da obra. A inspiração vem do brutalismo de Lina Bo Bardi e do espaço simbólico do vão livre do Masp, ponto tradicional de manifestações políticas na capital paulista.

 

ÉDIPO E JOCASTA


Para Sergio Mastropasqua, o que mais impressiona em Robert Icke é sua capacidade de não ser reverente nem de tentar comentar Sófocles. É como se ambos caminhassem juntos em um jogo no qual os atores enfrentam a potência do autor grego pelas mãos do dramaturgo contemporâneo.

 

"Édipo é um personagem que estará pelo mundo enquanto existir alguém que saiba ler ou encenar. A atualidade é apenas mais um momento desse percurso. Por coincidência, a peça começa com o final de uma campanha política, que estará ocorrendo no Brasil enquanto estivermos em cartaz no Masp. Violência contra a mulher, discriminação por origem, novos movimentos políticos e autoritarismo percorrem a trama", comenta o ator.

 

Uma das inovações do texto em relação ao original grego é trazer, pela primeira vez, o ponto de vista da personagem Jocasta. O autor a transforma em uma mulher dos dias atuais, consciente de seu papel e profundamente envolvida nos acontecimentos que a cercam.

 

“É um acerto enorme da adaptação colocar Jocasta nesse lugar de protagonismo. Ela deixa de ser apenas uma figura da tragédia para se tornar uma personagem complexa e viva. A sensação é de acompanhar uma investigação em que, a cada cena, uma nova informação muda completamente o rumo da história. Esse lado thriller que o autor imprime à tragédia é um dos seus principais ingredientes”, conta Clarisse Abujamra.

 

 

FICHA TÉCNICA:

Idealização e Produção Geral: Rosalie Rahal Haddad. Texto: Robert Icke. Direção e Tradução: Clara Carvalho. Diretor Assistente: Thiago Ledier. Elenco Sergio Mastropasqua, Clarisse Abujamra, Oswaldo Mendes, Chris Couto, João Bourbonnais, Thalles Cabral, Thaina Muniz, Márcia Teodoro, Marisa Mainarte, Rodrigo Scarpelli, Thomas Huszar e Roberto Borenstein Música Original: Gregory Slivar. Cenografia e arquitetura cênica: Chris Aizner. Cenotécnico: Alício Silva / Casa Malagueta. Produção de Objetos: Jorge Luiz Alves e Luiza Meira Alves. Figurino: Marichilene Artisevskis. Assistente de Figurino: Lilian Pessoa. Costura: Judite Gerônimo de Lima. Iluminação: Gabriele Souza. Direção de Imagem: Ícarus Filmes. Operação De Som: Valdilho Oliveira. Operação de Luz: Nicolas Marchi. Direção de Palco: André Di Peroli, Henrique Pina e Jonathan Capobianco. Camareira: Elisa Galdino. Visagismo para Fotos: Loeni Mazzei. Fotos: Ronaldo Gutierrez. Vídeo para Redes Sociais: Paula Davanço. Registro em Vídeo: Ícarus Filmes. Designer para elementos cênicos: Dalua Criações. Identidade Visual: Sergio Mastropasqua. Redes Sociais e Gestão de Tráfego: Lead Performance. Assessoria de Imprensa: Adriana Balsanelli e Renato Fernandes. Produção: SM Arte Cultura. Direção de Produção: Selene Marinho. Coordenação de Produção: Sergio Mastropasqua. Produção Executiva: André Roman /Teatro de Jardim. Realização: Círculo De Atores.

 

SERVIÇO:

Auditório do Masp

Temporada: até 06 de setembro. Sextas e sábados às 20h, domingos às 18h.

Classificação: 16 anos.

Duração: 110 minutos.

Capacidade: 344 lugares.

Ingressos: Sextas: R$100 (inteira) - R$50 (meia) / Sábados e domingos: R$120 (inteira) - R$60 (meia).

https://bileto.sympla.com.br/event/121617/



Agosto Branco: crescimento do uso de cigarros eletrônicos entre adolescentes antecipa lesões pulmonares severas e eleva alerta oncológico

  

Especialistas da Rede Mater Dei de Saúde ressaltam o perigo do uso precoce de vapes. Exposição a metais pesados e nicotina antecipa inflamações agudas e aumenta exponencialmente o risco de doenças crônicas e câncer 

 

O avanço rápido do consumo de cigarros eletrônicos (conhecidos como vapes ou pods) entre os jovens brasileiros está desencadeando uma crise respiratória precoce e desenhando um cenário alarmante para o desenvolvimento de doenças pulmonares crônicas e oncológicas nas próximas décadas. Neste Agosto Branco, mês dedicado à conscientização e prevenção do câncer de pulmão, a atenção se volta para uma geração que, atraída por aromas artificiais e uma falsa percepção de inofensividade, inala concentrações altíssimas de nicotina e compostos tóxicos. 

Os números oficiais justificam o alerta. De acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) de 2024, divulgada pelo IBGE, 29,6% dos estudantes de 13 a 17 anos já experimentaram cigarros eletrônicos. Em 2019, essa porcentagem era bem menor, chegando a 16,8%.1 Em paralelo, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) adverte que os Dispositivos Eletrônicos para Fumar (DEF) contêm nicotina, metais pesados e diversas substâncias tóxicas e cancerígenas.2 

Para agravar o quadro, análises científicas robustas têm comprovado o dano celular imediato causado por esses produtos. "Temos recebido jovens nos prontos-socorros com falta de ar severa e inflamações agudas. A ideia do 'vapor inofensivo' é falsa," alerta o Dr. Bruno Horta, pneumologista da Rede Mater Dei de Saúde. "Estudos epidemiológicos demonstram uma relação direta do uso de cigarros eletrônicos com o desenvolvimento de asma e DPOC (Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica). Em laboratório, já se observa que os vapes causam efeitos adversos em processos biológicos fundamentais, incluindo maior suscetibilidade a infecções respiratórias e até mesmo alterações na expressão genética."

 

O impacto no futuro oncológico e a porta de entrada para o cigarro convencional

O câncer de pulmão é um dos tumores mais letais no país. O tabagismo segue sendo o principal fator de risco, e a adesão precoce aos vapes ameaça a queda nas taxas de mortalidade associadas ao tabagismo conquistada nas últimas décadas. Isso se deve ao fato de que os vapes funcionam como uma perigosa porta de entrada para o uso dos cigarros convencionais, que comprovadamente são condições predisponentes para o desenvolvimento de tumores pulmonares. 

Pesquisas indicam que jovens sem histórico prévio de tabagismo que começam a usar cigarros eletrônicos apresentam maiores chances de continuar fumando cigarros convencionais dois anos após a iniciação3. Outros estudos apontam que o hábito de usar vape na adolescência eleva em até 30 vezes a probabilidade de começar a fumar o cigarro tradicional.4 

A Dra. Aknar Calabrich, oncologista da Rede Mater Dei de Saúde, explica o peso dessa nova dependência e a importância da prevenção primária. “Ao usar um pod, o adolescente inala substâncias sabidamente carcinogênicas, adiantando o relógio de mutações celulares. Apesar dos enormes avanços no tratamento oncológico hoje, como o uso de imunoterapia e terapias-alvo, evitar essa exposição precoce é a única forma real de frear novos casos da doença no futuro," ressalta a médica. "Outro agravante é o uso duplo: sabe-se que os usuários que combinam o cigarro eletrônico com o cigarro combustível têm chances significativamente maiores de desenvolver sintomas cardiopulmonares e pior prognóstico geral."

 

Como as famílias podem lidar?

Os pods entregam altas concentrações de nicotina, viciando rapidamente o cérebro adolescente, que ainda está em desenvolvimento. Lidar com essa questão em casa exige empatia e estratégia por parte das famílias. 

“Muitas vezes, o uso começa por curiosidade ou influência do grupo”, aponta o Dr. Bruno Horta. “Aconselhamos os pais a estabelecerem um diálogo aberto, sem julgamentos imediatos, focando na conscientização sobre os riscos que já conhecemos hoje. Apenas proibir e aplicar castigos costuma gerar o uso escondido. Como estamos lidando com um tema complexo, o ideal é acolher e buscar apoio médico e psicológico especializado, especialmente quando o jovem já está fazendo uso dessas substâncias e pode estar desenvolvendo uma dependência química."

 

Avanços no diagnóstico e tratamentos atuais

Apesar do cenário de alerta imposto pelos novos hábitos, o Agosto Branco também serve para jogar luz sobre as inovações que têm revolucionado o enfrentamento do câncer de pulmão. A tecnologia tornou-se uma aliada essencial desde o rastreio inicial até a intervenção. Na Rede Mater Dei de Saúde, por exemplo, o diagnóstico de tumores pulmonares já conta com o suporte de Inteligência Artificial (IA), tecnologia capaz de analisar exames de imagem e detectar nódulos milimétricos muito antes de apresentarem sintomas. 

Quando a intervenção cirúrgica é necessária, o foco da medicina contemporânea é a eficácia aliada à preservação da qualidade de vida do paciente, utilizando técnicas minimamente invasivas, como a cirurgia robótica, que garante ressecções mais precisas, menor tempo de internação e uma recuperação acelerada. 

"Quando falamos de câncer de pulmão, o tempo é o nosso maior fator de sucesso," conclui a Dra. Aknar Calabrich. "A detecção precoce muda drasticamente o prognóstico do paciente. Além disso, a oncologia moderna dispõe não apenas de cirurgias robóticas altamente seguras, mas também de tratamentos sistêmicos avançados que aumentam significativamente a sobrevida. A medicina evoluiu imensamente para tratar a doença, mas o nosso principal objetivo clínico e social ainda é a prevenção – evitando assim com que o jovem de hoje precise dessas tecnologias no futuro."



Rede Mater Dei de Saúde



Unidades

Minas Gerais: Hospital Mater Dei Santo Agostinho, Hospital Mater Dei Contorno, Hospital Mater Dei Betim-Contagem, Hospital Mater Dei Nova Lima, Hospital Mater Dei Santa Genoveva, CDI Imagem e Hospital Mater Dei Santa Clara.

Bahia: Hospital Mater Dei Salvador e Hospital Mater Dei Emec

Goiás: Hospital Mater Dei Goiânia




Referências

1 - INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Consumo de cigarro eletrônico cresce entre os jovens. IBGE Educa, Rio de Janeiro, [s.d.]. Disponível em: https://educa.ibge.gov.br/jovens/materias-especiais/23234-consumo-de-cigarro-eletronico-cresce-entre-os-jovens.html. Acesso em: 5 ago. 2026.

2 - DISPOSITIVOS ELETRÔNICOS PARA FUMAR: CONHEÇA OS DANOS QUE ELES CAUSAM MINISTÉRIO DA SAÚDE Instituto Nacional de Câncer (INCA). [s.d.]. Disponível em: https://ninho.inca.gov.br/jspui/bitstream/123456789/16707/1/Dispositivos%20eletronicos%20para%20fumar.pdf. Acesso em: 05 ago. 2026.

3 - Sun R, Méndez D, Warner KE. Association of Electronic Cigarette Use by US Adolescents With Subsequent Persistent Cigarette Smoking. JAMA Netw Open. 2023;6(3):e234885. doi:10.1001/jamanetworkopen.2023.4885

4 - USO DE VAPE ENTRE ADOLESCENTES AUMENTA RISCO DE TABAGISMO EM 30 VEZES, DIZ ESTUDO. G1. Disponível em: https://g1.globo.com/saude/noticia/2025/07/31/uso-de-vape-entre-adolescentes-aumenta-risco-de-tabagismo-em-30-vezes-diz-estudo.ghtml. Acesso em: 5 ago. 2026.


Corrida de rua cresce 85% no Brasil; veja cinco exercícios para evitar lesões

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Fortalecer músculos, melhorar a mobilidade e preparar o corpo antes de iniciar a corrida faz diferença no desempenho e ajuda a evitar dores e lesões

 

A corrida de rua vive um momento de forte expansão no Brasil. Um estudo recente da Associação Brasileira de Organizadores de Corridas de Rua e Esportes Outdoor (Abraceo) aponta que, em apenas um ano, o número de provas realizadas no país cresceu 85%, refletindo o aumento do interesse pela modalidade. 

Diante desse cenário, Bruna Salomão Augusto, professora do curso de Educação Física da Faculdade Anhanguera, alerta que iniciar os treinos sem o preparo físico adequado pode aumentar o risco de lesões e comprometer a adaptação do corpo ao exercício. Por isso, antes de focar na distância ou na velocidade, vale investir em exercícios que fortaleçam a musculatura e desenvolvam estabilidade, equilíbrio e mobilidade. 

"A corrida exige bastante das articulações, principalmente tornozelos, joelhos e quadris. Quando o corpo está fortalecido, o praticante consegue absorver melhor os impactos, melhora a técnica da corrida e reduz significativamente o risco de lesões", explica. 

O especialista destaca cinco exercícios fundamentais para quem deseja começar a correr com mais segurança.
 

1. Agachamento

O agachamento fortalece quadríceps, glúteos e posteriores de coxa, músculos essenciais para impulsionar o corpo durante a corrida. 

Como fazer: mantenha os pés alinhados à largura dos ombros, flexione os joelhos levando o quadril para trás e desça até onde conseguir sem perder a postura. Retorne à posição inicial de forma controlada.
 

2. Ponte de glúteo

Esse exercício fortalece os glúteos e a região lombar, contribuindo para maior estabilidade do quadril durante a corrida. 

Como fazer: deite-se de barriga para cima, com os joelhos flexionados e os pés apoiados no chão. Eleve o quadril até formar uma linha reta entre joelhos, quadris e ombros. Segure por alguns segundos e retorne lentamente.
 

3. Elevação de panturrilha

As panturrilhas são bastante exigidas na corrida e precisam estar fortalecidas para suportar o impacto repetitivo.

Como fazer: em pé, eleve os calcanhares até ficar na ponta dos pés e depois desça lentamente.
 

4. Prancha

A prancha fortalece o core, ou seja, o conjunto de músculos responsáveis pela estabilidade do tronco, ajudando a manter uma postura eficiente durante a corrida. 

Como fazer: apoie os antebraços e as pontas dos pés no chão, mantendo o corpo alinhado da cabeça aos calcanhares. Evite elevar ou deixar o quadril cair.
 

5. Afundo (passada)

O afundo trabalha força, equilíbrio e coordenação, além de fortalecer pernas e glúteos de forma unilateral, simulando movimentos semelhantes aos realizados durante a corrida.

Como fazer: dê um passo à frente, flexione os dois joelhos até aproximadamente 90 graus e retorne à posição inicial. Alterne as pernas.
 

Outros cuidados para quem está começando

Além do fortalecimento, a docente Bruna Salomão recomenda iniciar os treinos de forma gradual, alternando caminhada e corrida nos primeiros dias. "O erro mais comum é querer correr longas distâncias logo no início. O ideal é respeitar a adaptação do organismo, aumentar a carga aos poucos e manter uma rotina de descanso entre os treinos", orienta. 

A professora também reforça a importância do aquecimento antes da atividade, da hidratação adequada e da escolha de um tênis apropriado para o tipo de pisada. "Esses cuidados, aliados ao fortalecimento muscular, tornam a prática mais confortável, aumentam o desempenho e ajudam a manter a constância, que é um dos principais fatores para evoluir na corrida", conclui.

 

Anhanguera
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Diagnóstico precoce da Síndrome Antifosfolípide pode mudar o desfecho de gestações de alto risco

                                                                      

Reportagem publicada nesta quarta-feira, 5 de agosto, reacende debate sobre investigação de perdas gestacionais recorrentes e alterações placentárias 

 

Matéria publicada hoje por um dos principais portais de notícias do país trouxe à tona o relato de uma paciente que perdeu uma filha com 35 semanas de gestação, enfrentou depois um parto prematuro e só anos mais tarde recebeu o diagnóstico de Síndrome Antifosfolípide (SAF), doença autoimune que compromete a circulação placentária e eleva o risco de trombose e complicações obstétricas. Após tratamento adequado, ela teve mais dois filhos saudáveis. 

Para o Prof. Dr. Rodrigo Ruano*, referência internacional em Medicina Materno-Fetal e Cirurgia Fetal, professor da University of Miami e ex-professor associado da Faculdade de Medicina da USP, o caso expõe um problema recorrente na obstetrícia: a subinvestigação de causas tratáveis por trás de perdas gestacionais repetidas. 

"A repetição de perdas gestacionais, restrição do crescimento fetal, pré-eclâmpsia precoce, prematuridade ou alterações importantes da placenta devem motivar uma avaliação especializada. Embora nem toda complicação tenha origem em uma doença materna, identificar uma causa tratável pode modificar completamente o prognóstico de futuras gestações", afirma. 

Ruano ressalta ainda a importância da consulta pré-concepcional para mulheres com histórico de perdas gestacionais, trombose, complicações placentárias ou outros fatores de risco. Segundo o especialista, essa avaliação permite investigar e confirmar precocemente a presença da Síndrome Antifosfolípide (SAF) e de outras trombofilias, possibilitando o planejamento da gestação em condições mais seguras. "Quando essas condições são identificadas antes da gravidez, é possível instituir medidas preventivas e individualizar o acompanhamento desde o início, reduzindo significativamente o risco de complicações maternas e fetais", destaca. 

Segundo o professor, a SAF é uma doença autoimune em que o corpo produz, de forma persistente, anticorpos que atacam a coagulação do sangue, aumentando o risco de tromboses e de complicações na gravidez, como abortos recorrentes e parto prematuro. “Na gravidez, pode causar tromboses nos vasos placentários, infartos da placenta, restrição do crescimento fetal, perdas gestacionais recorrentes, óbito fetal e parto prematuro. O diagnóstico exige a combinação de critérios clínicos e laboratoriais internacionalmente reconhecidos, não sendo exame de rotina para todas as gestantes”, revela. 

De acordo com Ruano, a análise anatomopatológica da placenta pode fornecer informações fundamentais para esclarecer a causa de complicações obstétricas e orientar gestações futuras. O especialista tem publicações científicas sobre fisiologia placentária, angiogênese, microvascularização, ultrassonografia avançada, insuficiência placentária e doenças hipertensivas da gestação. 

Quando a SAF é confirmada, o tratamento, geralmente aspirina em baixa dose associada a heparina durante a gestação, pode aumentar as taxas de nascimentos vivos, conforme recomendações da European Alliance of Associations for Rheumatology (EULAR). A conduta, porém, deve ser individualizada conforme o histórico clínico e o perfil de risco de cada paciente.

"O principal ensinamento é que perdas gestacionais recorrentes ou complicações placentárias importantes não devem ser encaradas apenas como fatalidades. A investigação adequada permite identificar doenças tratáveis e oferecer às pacientes um acompanhamento baseado em evidências científicas, aumentando as chances de uma gestação bem-sucedida", conclui o Prof. Dr. Rodrigo Ruano. 

A reportagem também destaca que a investigação para SAF não integra o pré-natal de rotina de gestantes sem fatores de risco, reforçando a necessidade de avaliação individualizada diante de histórico de trombose, perdas gestacionais recorrentes ou alterações placentárias relevantes.

   

Prof. Dr. Rodrigo Ruano - obstetra de alto risco, médico, professor e cirurgião materno-fetal com mais de 20 anos de experiência e reconhecimento internacional. É considerado uma das maiores referências mundiais em procedimentos complexos de medicina materno-fetal, tendo atuado em diferentes países da América Latina, Europa e Estados Unidos. É reconhecido como um dos maiores especialistas pioneiros no Brasil e na América Latina no tratamento intrauterino para TAPS e em técnicas como a oclusão traqueal fetal para hérnia diafragmática congênita, além de procedimentos minimamente invasivos para o tratamento de tumores e malformações fetais. Também contribuiu para o avanço da cirurgia endoscópica aplicada a condições graves, como a espinha bífida, e desenvolveu abordagens inovadoras em terapias fetais regenerativas. Sua trajetória o coloca em posição de destaque na medicina fetal global, unindo expertise técnica, pioneirismo e compromisso em ampliar as fronteiras da cirurgia fetal em benefício de mães e bebês.


Muito além da vitamina C: 6 hábitos que ajudam a fortalecer a imunidade

 Especialista explica por que a alimentação faz diferença na defesa do organismo e quais atitudes simples podem ajudar a passar pela estação mais saudável

 

Dados do InfoGripe, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), mostram que o inverno concentra um aumento na circulação de vírus respiratórios em diversas regiões do país. O motivo está na combinação de fatores típicos da estação: mais tempo em ambientes fechados, menor ventilação, ar seco, redução da prática de atividades físicas e até menor exposição ao sol.A boa notícia é que pequenas mudanças na rotina podem contribuir para o bom funcionamento do sistema imunológico.

Segundo Valquíria Soares, nutricionista da Mundo Verde, não existe fórmula mágica quando o assunto é imunidade. "Muitas pessoas procuram um alimento ou suplemento capaz de impedir gripes e resfriados, mas a ciência mostra que o sistema imunológico depende de um conjunto de fatores. Uma alimentação equilibrada, rica em nutrientes, aliada ao sono de qualidade, à hidratação e ao controle do estresse, é o que realmente ajuda o organismo a responder melhor às infecções", explica.

A especialista aponta seis hábitos que ajudam a fortalecer a imunidade:

1. Aposte em um prato colorido- frutas, verduras e legumes oferecem vitaminas e minerais essenciais para o funcionamento das células de defesa. A vitamina C, presente em acerola, kiwi, laranja, goiaba e morango, é uma importante aliada, mas não trabalha sozinha. Nutrientes como zinco, selênio, vitamina A, vitamina D e proteínas também desempenham funções importantes para manter o organismo preparado. "O segredo não está em um único alimento, mas na variedade. Quanto mais colorido e equilibrado for o prato, maior será a oferta de nutrientes importantes para a imunidade", afirma a nutricionista.

2. Aproveite o inverno para preparar refeições nutritivas- nos dias frios, sopas e caldos podem ir muito além do conforto. Preparações feitas com legumes, verduras, proteínas magras e leguminosas reúnem vitaminas, minerais, fibras e proteínas em uma única refeição. Algumas boas opções são: sopa de abóbora com frango desfiado e couve, caldo de lentilha com legumes, creme de mandioquinha com carne magra e canja de frango enriquecida com legumes.

3. Cuide da saúde do intestino- grande parte das células do sistema imunológico está associada ao intestino. Por isso, manter uma microbiota equilibrada também faz diferença. Alimentos ricos em fibras, como aveia, sementes e cereais integrais, além de fermentados, como iogurte natural e kefir, ajudam a manter esse equilíbrio.

4. Não esqueça de beber água- no inverno, a sensação de sede diminui, mas o organismo continua precisando de hidratação. A ingestão adequada de água ajuda a manter as mucosas do nariz e da garganta hidratadas, fortalecendo uma das primeiras barreiras naturais contra vírus e bactérias. Os chás sem açúcar, como gengibre, hortelã e camomila, também podem ser aliados para complementar a hidratação.

5. Durma bem e aproveite o sol- dormir entre sete e nove horas por noite permite que o organismo realize processos importantes para a regulação da resposta imunológica. Sempre que possível, também vale aproveitar alguns minutos de exposição ao sol, nos horários recomendados, para favorecer a síntese de vitamina D.

6. Inclua aliados naturais na sua rotina- shots funcionais preparados com cúrcuma, gengibre, limão e extrato de própolis, por exemplo, fornecem compostos bioativos com ação antioxidante e anti-inflamatória. "Os shots funcionais podem ser um complemento interessante dentro de uma alimentação equilibrada, já que reúnem ingredientes ricos em compostos bioativos. Eles ajudam a enriquecer a rotina alimentar, mas seus benefícios são potencializados quando associados a hábitos saudáveis, como uma dieta variada, boa hidratação, sono de qualidade e prática regular de atividade física. Já a suplementação deve ser individualizada e orientada por um profissional de saúde, para atender às necessidades de cada pessoa", finaliza Valquíria.


Mounjaro e retinopatia diabética: o que as evidências mais recentes mostram sobre a saúde dos olhos

Nos últimos meses, a tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, deixou de ser assunto restrito aos consultórios médicos para se tornar um dos medicamentos mais comentados do país. Inicialmente indicada para o tratamento do diabetes tipo 2 e, mais recentemente, aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para o controle crônico do peso em adultos com obesidade ou sobrepeso associado a comorbidades, ela representa um importante avanço no tratamento de doenças metabólicas que afetam milhões de brasileiros.

Segundo a Federação Internacional de Diabetes (IDF), aproximadamente 589 milhões de adultos vivem com diabetes no mundo, número que deve ultrapassar 850 milhões até 2050. 

O Brasil está entre os países com maior número de pessoas convivendo com a doença, o que torna natural o crescente interesse por terapias capazes de controlar melhor a glicemia e promover perda de peso. Mas, junto com esse avanço, surgiu uma dúvida frequente entre pacientes: afinal, o Mounjaro pode prejudicar a visão de quem já apresenta retinopatia diabética?

 A resposta que a ciência oferece hoje é tranquilizadora, mas acompanhada de um importante alerta.

 

A retinopatia diabética é uma das principais complicações do diabetes e ocorre quando o excesso de glicose danifica os pequenos vasos sanguíneos da retina, estrutura responsável pela formação das imagens. Sem diagnóstico e tratamento adequados, a doença pode evoluir silenciosamente até provocar perda importante da visão e, em casos mais graves, cegueira.

Durante algum tempo, existiu a preocupação de que medicamentos da classe dos agonistas dos receptores de GLP-1 pudessem acelerar a progressão da retinopatia. Essa hipótese surgiu principalmente após estudos envolvendo a semaglutida. Entretanto, as pesquisas mais recentes envolvendo a tirzepatida apresentam resultados bastante diferentes. 

Estudos publicados em 2026, acompanhando pacientes com diabetes tipo 2 considerados de alto risco, demonstraram que o uso da tirzepatida não aumentou a progressão da retinopatia quando comparado a outros tratamentos para o diabetes. Além disso, pesquisas publicadas na revista científica Ophthalmology sugerem que o medicamento pode até estar associado a um menor risco de desenvolvimento ou agravamento da doença, reduzindo também a necessidade de tratamentos como aplicações intraoculares e fotocoagulação a laser. 

Esses resultados reforçam que o medicamento, por si só, não representa uma ameaça à retina. Pelo contrário, o bom controle glicêmico continua sendo um dos principais fatores para reduzir as complicações do diabetes ao longo do tempo. 

Isso, porém, não significa que todo paciente possa iniciar o tratamento sem acompanhamento oftalmológico.

Existe um fenômeno já conhecido na medicina chamado "piora precoce da retinopatia diabética". Ele pode acontecer sempre que a glicemia sofre uma redução muito rápida, seja com insulina, seja com outros medicamentos altamente eficazes no controle do diabetes. Nesses casos, uma retina que já estava comprometida pode apresentar uma piora temporária antes da estabilização do quadro. Não se trata de um efeito exclusivo da tirzepatida, mas de uma resposta fisiológica descrita há décadas na literatura médica.

 

Na prática clínica, esse é o principal ponto de atenção. 

Muitos pacientes chegam ao consultório motivados pelos benefícios do medicamento para o controle do diabetes ou para a perda de peso, mas iniciam o tratamento sem uma avaliação prévia da retina. Para quem convive há muitos anos com diabetes ou já apresenta algum grau de retinopatia, esse exame é fundamental. 

Na minha experiência como especialista em retina, vítreo e catarata, a principal orientação continua sendo a prevenção. Antes de iniciar a tirzepatida, o paciente deve realizar um exame de fundo de olho para identificar possíveis alterações já existentes. Se houver retinopatia, ela deve ser acompanhada durante os primeiros meses de tratamento, período em que normalmente ocorre a redução mais intensa da glicemia. Na grande maioria dos casos, esse acompanhamento é suficiente para garantir segurança durante o uso do medicamento. 

Também é importante que o paciente conheça os sinais que merecem avaliação imediata. O surgimento de moscas volantes, flashes luminosos, visão embaçada que piora rapidamente, perda parcial do campo visual ou qualquer alteração importante da visão deve motivar uma consulta oftalmológica sem demora. Embora essas situações sejam pouco frequentes, o diagnóstico precoce continua sendo decisivo para preservar a visão. 

Outro aspecto que merece atenção é a forma como esse medicamento vem sendo adquirido. O crescimento da procura por tirzepatida foi acompanhado pelo aumento da venda irregular e da manipulação sem controle sanitário, prática desaconselhada por entidades como a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso). Essas versões não oferecem garantias quanto à pureza, concentração, estabilidade ou esterilidade do produto e podem representar riscos importantes à saúde. 

Desde 2025, a Anvisa passou a exigir receita médica em duas vias para a dispensação desses medicamentos, com retenção de uma delas pela farmácia, medida que busca aumentar a segurança dos pacientes e reduzir o comércio irregular. 

O Mounjaro representa um dos maiores avanços recentes no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade. As evidências científicas mais atuais indicam que seu uso não aumenta o risco de retinopatia diabética no longo prazo e pode, inclusive, contribuir para reduzir complicações oculares ao melhorar o controle metabólico. Ainda assim, nenhum medicamento substitui o acompanhamento médico. 

Quando endocrinologista e oftalmologista atuam de forma integrada, o paciente ganha mais do que controle da glicemia ou perda de peso. Ganha a oportunidade de preservar a visão, a qualidade de vida e a autonomia por muitos anos.

 

Dr. Cristiano Toesca Espinhosa - CRM-PR 21.959 | RQE 13.518 - Especialista em Retina, Vítreo e Catarata.
Membro da Sociedade Brasileira de Retina e Vítreo
www.rafaelasalomon.com.br


Pesquisa brasileira reforça a segurança da cirurgia oncoplástica no tratamento do câncer de mama

Carrascosaoscar

Estudo realizado com a participação da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) destaca a preocupação de especialistas com resultados estéticos e traz uma análise comparativa dos desfechos de sobrevida entre mulheres submetidas à cirurgia conservadora convencional e à cirurgia oncoplástica
 

 

A cirurgia conservadora, combinada com radioterapia adjuvante, é uma estratégia amplamente difundida no tratamento de câncer de mama em estágio inicial. No entanto, essa abordagem pode resultar em desfechos estéticos desfavoráveis, especialmente em mulheres com mamas pequenas ou quando tumores maiores exigem ressecções mais extensas. Com o objetivo de minimizar deformidades mamárias, técnicas oncoplásticas foram desenvolvidas para ampliar as possibilidades da cirurgia conservadora, permitindo ressecções mais extensas com melhor preservação da forma e simetria mamárias. Nesse contexto, um estudo realizado com a participação de importantes centros de tratamento do câncer no Brasil avaliou se pacientes submetidas à cirurgia conservadora oncoplástica apresentam resultados oncológicos comparáveis aos observados após a cirurgia conservadora convencional.

O estudo “Resultados de sobrevida após cirurgia conservadora da mama padrão versus cirurgia conservadora da mama oncoplástica em pacientes com câncer de mama: um estudo de coorte multicêntrico com evidências do mundo real” foi publicado pela Surgical Oncology Insight conceituada revista internacional da Sociedade de Cirurgia Oncológica dos Estados Unidos (Society of Surgical Oncology - SSO), dedicada à divulgação de pesquisas de ponta e estudos na área de cirurgia oncológica. Coordenada pela mastologista Anne Dominique Nascimento Lima, membro da Comissão Científica e do Departamento de Cirurgia da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM), a investigação envolveu pesquisadores de seis centros de tratamento no Brasil.

“Os resultados estéticos desfavoráveis são uma preocupação relevante na cirurgia conservadora”, afirma Anne Dominique Lima. De acordo com dados já descritos na literatura, entre 25% a 30% das pacientes podem desenvolver deformidades mamárias significativas após a cirurgia conservadora convencional. “Isso ocorre principalmente quando os tumores são grandes em relação ao volume da mama ou localizados em regiões cosmeticamente desafiadoras”, explica a mastologista.

A pesquisa incluiu 685 pacientes, das quais 550 (80,3%) foram submetidas à cirurgia conservadora convencional e 135 (19,7%) à cirurgia conservadora oncoplástica (mamoplastia terapêutica). “Um dos achados mais importantes do estudo foi observar que pacientes submetidas à cirurgia oncoplástica apresentavam doença mais avançada ao diagnóstico e, ainda assim, tiveram resultados oncológicos semelhantes aos observados após a cirurgia conservadora convencional”, pontua Anne Dominique Lima.

No estudo, não foram observadas diferenças estatisticamente significativas nas taxas de sobrevida entre os grupos. Após 60 meses de acompanhamento, a sobrevida livre de recorrência locorregional (indicador de retorno do câncer na mesma área onde o tumor primário foi tratado) foi de 90% entre as pacientes submetidas à cirurgia conservadora convencional e de 96,3% entre aquelas tratadas com técnicas oncoplásticas. Esses resultados reforçam que a cirurgia oncoplástica pode ser utilizada sem comprometer os desfechos oncológicos, oferecendo uma alternativa segura para pacientes adequadamente selecionadas.

Para o mastologista André Mattar, tesoureiro da SBM, também participante do estudo, os resultados reforçam a segurança da cirurgia oncoplástica. “A qualidade de vida das mulheres não foi avaliada, mas podemos afirmar que há ganhos significativos para uma paciente que passa por um procedimento que combina abordagem oncológica correta e benefícios estéticos proporcionados pela oncoplástica”, destaca.

O Brasil é modelo de sucesso de treinamento e preparação de cirurgiões de mama em técnicas oncoplásticas. Também com a participação da SBM, estudo publicado pela ASO, revista científica oficial da Sociedade Americana de Cirúrgica Oncológica e da Sociedade Americana de Cirurgiões de Mama, revela que metade dos mastologistas brasileiros realiza cirurgia oncoplástica.

Comparativamente, dado divulgado pela Sociedade Americana de Cirurgiões de Mama indica que apenas 10% de seus membros realizam mamoplastia redutora ou simetrização contralateral. Levantamento canadense revela resultados semelhantes.

Com o propósito de formar profissionais, a Sociedade Brasileira de Mastologia mantém três cursos para reconstrução de mama e oncoplastia. Com um corpo docente renomado e reconhecido nacional e internacionalmente, as formações apresentam conteúdos teóricos e práticas direcionadas a mastologistas e cirurgiões de mamas de todos os estados brasileiros e também do Exterior.

Desde 2015, quando foi instituído o primeiro curso, mais de 2 mil mulheres foram beneficiadas diretamente com as cirurgias e 250 mastologistas capacitados a realizar os procedimentos. Somente no Estado de São Paulo, o curso formou 100 mastologistas e realizou 800 cirurgias.

 

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