"Com a expansão dos tratamentos estéticos, saber quem executa o procedimento, quais equipamentos são utilizados e o que acontece em caso de intercorrência virou parte da decisão de consumo"
Você pesquisaria a reputação de um restaurante
antes de reservar uma mesa. Compararia avaliações antes de comprar um celular.
Procuraria informações sobre um hotel antes de viajar. Mas e antes de colocar
um equipamento sobre o rosto, aplicar uma substância na pele ou iniciar um
tratamento estético?
A popularização dos procedimentos de estética
avançada transformou esse mercado em um dos segmentos mais dinâmicos da área de
saúde e beleza. Tecnologias que antes estavam restritas a clínicas
especializadas passaram a fazer parte do cotidiano de um público cada vez
maior. Com isso, surgiu também um novo comportamento de consumo: o
paciente chega ao estabelecimento já sabendo o nome do procedimento que quer
fazer, influenciado por redes sociais, celebridades ou vídeos de antes e
depois.
O problema é que conhecer o nome de uma tecnologia
não significa necessariamente saber se ela é adequada para aquele rosto ou se o
estabelecimento escolhido está preparado para utilizá-la. “Hoje, o
consumidor chega muito mais informado sobre procedimentos, mas informação sobre
uma tecnologia não substitui avaliação profissional. Antes de pensar no que
quer fazer, ele deveria perguntar quem vai executar, qual é a formação desse
profissional, se o equipamento é regularizado e como o estabelecimento trabalha
com segurança”, afirma Daniela da Silveira, biomédica e coordenadora técnica da
GIO Estética Avançada.
A questão, portanto, deixou de ser apenas “qual
procedimento eu quero fazer?”.Passou a ser: “quem vai cuidar de mim e como esse
cuidado é feito?”
- Quem
vai realizar o procedimento?
É a primeira pergunta e talvez a mais importante.
Procedimentos estéticos não devem ser escolhidos
apenas pela promessa de resultado ou pelo equipamento utilizado. A formação e a
habilitação do profissional responsável são critérios fundamentais.
Isso porque diferentes procedimentos têm
exigências distintas e podem estar submetidos a regras específicas de atuação
profissional. O consumidor deve saber quem executará o procedimento, qual sua
formação e se está habilitado para aquela atividade dentro das normas de sua
profissão.
Também vale perguntar quem é o responsável técnico
pelo estabelecimento.
A existência de um responsável técnico não é uma
formalidade burocrática. É um dos elementos que ajudam a definir quem responde
tecnicamente pelos serviços oferecidos naquele local.
“Eu sempre digo que o primeiro equipamento que o
consumidor precisa conhecer é o profissional. Antes de perguntar qual máquina
será usada, pergunte quem vai operar, qual é a formação e quem é o responsável
técnico pelo estabelecimento. A tecnologia é uma ferramenta; a segurança começa
na indicação e na execução”, diz Daniela.
- O
equipamento é regularizado?
O nome comercial de uma tecnologia pode ser
conhecido nas redes sociais e, ainda assim, não ser suficiente para que o
consumidor saiba exatamente o que está sendo utilizado.
Antes de um procedimento, é possível perguntar
qual é o equipamento, qual fabricante o produz e se o produto ou equipamento
está regularizado junto à Anvisa, quando aplicável.
A consulta pode ser feita nos canais oficiais da
agência. Esse cuidado é especialmente importante porque o mercado de estética
convive com uma grande quantidade de publicidade, importação de equipamentos e
divulgação de tecnologias em redes sociais.
Um aparelho apresentado como “novo”,
“revolucionário” ou “exclusivo” não é automaticamente mais seguro ou mais
adequado.
“O consumidor não precisa ser especialista em
tecnologia. Mas pode fazer perguntas básicas. Qual é o equipamento? Qual é o
fabricante? Ele é regularizado? Qual é a indicação? O profissional pode
explicar como aquela tecnologia funciona e por que ela foi escolhida para
aquele caso?”, afirma Daniela.
- Existe
avaliação antes de começar?
Outro sinal de alerta é quando o procedimento
parece ser definido antes mesmo de o profissional conhecer o paciente. Uma
avaliação adequada deve considerar características individuais, histórico,
queixas, objetivos e eventuais contraindicações ou fatores de risco relevantes.
Isso vale especialmente porque dois pacientes com
a mesma queixa estética podem ter necessidades completamente diferentes.
Uma pessoa que procura um tratamento para
flacidez, por exemplo, pode apresentar graus diferentes de alteração cutânea,
composição corporal, idade e histórico de procedimentos anteriores.
O protocolo, portanto, não deveria ser determinado
apenas pelo que está em alta.
“Um procedimento não deve começar pela escolha da
máquina, mas pela avaliação. Antes de indicar qualquer tecnologia, o
profissional precisa compreender a queixa, avaliar as características e
necessidades individuais e conhecer o histórico do paciente. A partir dessas
informações, é possível definir a tecnologia mais adequada e estabelecer uma
conduta personalizada. É essa avaliação criteriosa que transforma uma aplicação
padronizada em um protocolo verdadeiramente individualizado e seguro”, explica
Daniela.
- O
que exatamente está sendo proposto?
Parece uma pergunta óbvia, mas é uma das mais
importantes.
Antes de qualquer procedimento, o consumidor
deveria saber qual é o objetivo do tratamento, quantas sessões podem ser
necessárias, quais resultados são realisticamente esperados e quais são as
limitações da técnica.
É nesse momento que uma conversa sobre
expectativas se torna parte da segurança.
A estética trabalha com resultados que podem
variar de pessoa para pessoa. Características individuais, idade, hábitos,
composição corporal, qualidade da pele e resposta biológica interferem no resultado.
Por isso, promessas absolutas merecem cautela.
Expressões como “resultado garantido”, “sem risco”, “definitivo” ou “igual ao
de uma cirurgia” deveriam acender um sinal de alerta quando utilizadas sem
contextualização.
“Uma boa avaliação também precisa falar sobre
limites. Nenhum profissional sério deveria prometer que todas as pessoas terão
exatamente o mesmo resultado. O consumidor tem direito a entender o que aquela
técnica pode fazer, o que não pode fazer e quais são as alternativas”, afirma
Daniela.
- E
se alguma coisa der errado?
É uma pergunta que pouca gente faz, justamente
porque ninguém gosta de imaginar que o procedimento pode ter uma
intercorrência. Mas segurança também significa saber o que acontece se o
resultado não for o esperado ou se surgir uma reação durante ou depois do
procedimento.
Antes de começar, o consumidor pode perguntar
quais são os possíveis efeitos adversos, quais sinais exigem atenção e qual é o
canal de contato com a clínica depois da sessão.
Também é importante saber se existe orientação
pós-procedimento e quem deve ser procurado em caso de intercorrência. A
resposta não precisa ser assustadora. Pelo contrário: um estabelecimento
preparado tende a conseguir explicar de forma clara quais situações podem
ocorrer e como serão conduzidas.
“Não existe procedimento sem contexto, e o
consumidor precisa saber que existe acompanhamento depois da sessão. Uma
clínica responsável não desaparece quando o paciente sai pela porta. Deve
existir orientação sobre o pós-procedimento e um canal para que ele saiba a
quem recorrer se tiver alguma dúvida ou reação”, diz a biomédica.
- O
estabelecimento está regularizado?
O local onde o procedimento será realizado também
faz parte da decisão. Dependendo do serviço oferecido e da legislação
aplicável, estabelecimentos que realizam atividades de interesse à saúde estão
sujeitos a regras sanitárias e podem precisar de licença ou autorização
sanitária.
O consumidor pode perguntar se o estabelecimento
possui a documentação sanitária exigida para suas atividades e quais serviços
estão autorizados a ser realizados naquele espaço. A fiscalização sanitária
existe justamente para verificar se determinadas condições de funcionamento,
higiene, segurança e organização estão sendo cumpridas.
“É importante que o consumidor entenda que
segurança não está apenas na pessoa que executa o procedimento. Ela envolve o
ambiente, os equipamentos, os processos, os registros e a forma como a clínica
organiza toda a jornada do paciente”, afirma Daniela.
Antes do “antes e depois”, existe o “quem e como”.
A força das redes sociais mudou a maneira como as pessoas escolhem tratamentos
estéticos. Fotos de antes e depois, vídeos de procedimentos e depoimentos de
influenciadores transformaram resultados em conteúdo. O consumidor pode passar
semanas pesquisando determinado procedimento antes de entrar em uma clínica.
Mas existe uma informação que dificilmente aparece
na postagem: o que aconteceu antes daquela foto.
Qual era a condição inicial? Quem avaliou? Qual
protocolo foi utilizado? Quantas sessões foram feitas? Houve associação de
técnicas? O resultado é representativo ou excepcional? Sem essas informações,
uma imagem pode criar expectativas que não correspondem à realidade de todos os
pacientes.
“Antes e depois pode ser uma informação interessante,
mas não deveria ser o principal critério de escolha. O paciente precisa saber
que cada organismo responde de uma maneira. O mais importante é entender se
existe indicação para ele e se o profissional tem preparo para conduzir aquele
caso”, afirma Daniela.
O barato pode sair caro, mas o caro também não é
sinônimo de seguro. Outro comportamento comum é escolher pelo preço. Promoções,
pacotes e descontos podem ser atrativos, mas o valor cobrado não deve ser o
único critério para avaliar um procedimento, da mesma maneira, um preço elevado
não é garantia automática de qualidade, o que o consumidor está comprando não é
apenas uma sessão. Está comprando uma combinação de profissional habilitado,
avaliação, equipamento, ambiente, protocolo, acompanhamento e responsabilidade
técnica. É essa soma que deveria entrar na comparação.
“Preço pode ser um critério de decisão, mas não
pode ser o único. O consumidor precisa comparar o que está incluído naquele
atendimento e, principalmente, quais são os critérios de segurança. Uma sessão
mais barata não necessariamente representa uma economia se não houver uma
estrutura adequada por trás”, afirma a coordenadora técnica.
A estética virou consumo e exige consumidor mais
atento porque a mudança no comportamento do público é irreversível.
Procedimentos estéticos deixaram de ser uma decisão eventual para muitas
pessoas e passaram a fazer parte de uma rotina de autocuidado. O acesso
aumentou, a informação se espalhou e a oferta se multiplicou.
O próximo passo, para especialistas, é transformar
o consumidor de estética em um consumidor mais crítico. Isso não significa
desconfiar de todo procedimento ou profissional. Significa fazer perguntas
básicas antes de decidir.
Quem vai executar?
Qual é a formação?
O equipamento é regularizado?
Houve avaliação individual?
O estabelecimento está regularizado para aquela
atividade?
Quais são os riscos e limitações?
Quem acompanha o paciente se houver uma
intercorrência?
São perguntas simples, mas que ajudam a deslocar a
decisão do território da promessa para o da responsabilidade.
“Segurança não deveria ser uma preocupação que
aparece depois de um problema. Ela precisa estar presente antes do
procedimento. Quanto mais o consumidor pergunta, mais ele consegue diferenciar
uma experiência construída com responsabilidade de uma oferta baseada apenas em
promessa”, conclui Daniela.
No fim, talvez a pergunta
mais importante antes de entregar o rosto, ou qualquer outra parte do corpo a
um procedimento estético não seja “quanto custa?”, mas “quem responde por
isso?”.
https://www.gioesteticaavancada.com.br/
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