Agosto nos convida, mais uma vez, a falar sobre a violência contra a mulher, um tema que, embora recorrente, continua urgente e necessário. Sei que, para alguns, a repetição desse assunto pode parecer cansativa, incômoda ou até excessiva. Mas, enquanto mulheres continuarem sendo machucadas, silenciadas e tendo suas vidas interrompidas pela violência, não podemos nos dar ao luxo de parar de falar.
Ao longo da minha trajetória acompanhando mulheres e suas
histórias, aprendi que existe uma pergunta que, apesar de parecer simples, nem
sempre é feita: o que significa ser uma mulher verdadeiramente livre?
A liberdade não se resume à possibilidade de sair de uma relação
violenta, ou na independência financeira, na profissão, na capacidade de fazer
escolhas e de conduzir a própria vida. Eu entendo, essas conquistas são
fundamentais, mas existe uma dimensão mais íntima da liberdade que muitas
mulheres ainda estão aprendendo a construir, que é a possibilidade de serem
quem são sem precisar pedir autorização, justificar seus desejos ou diminuir a
própria existência para caber na expectativa de alguém.
Durante muito tempo, ensinaram às mulheres que liberdade era uma
palavra perigosa. Uma mulher livre precisava ser vigiada, corrigida, contida.
Fomos educadas para estar disponíveis para o marido, para os filhos, para a
família, para o trabalho e para as necessidades de todos. Em meio a tantas
responsabilidades, muitas acabaram ficando indisponíveis para si mesmas.
É nesse ponto que precisamos ampliar nossa compreensão sobre a
violência. Ela nem sempre começa com um tapa, um empurrão ou uma ameaça. Pode
começar no controle das roupas, das amizades, do dinheiro, do celular e dos
horários. Pode estar na necessidade de pedir permissão para tomar decisões, no
medo de contrariar o parceiro ou na sensação de que qualquer escolha própria
provocará uma crise dentro de casa.
E há uma dimensão ainda mais difícil de perceber, que é aquela em
que a mulher começa a reproduzir contra si mesma aquilo que aprendeu que
deveria aceitar dos outros.
Ela engole uma opinião para evitar conflitos, abandona um sonho
porque alguém disse que não era importante, deixa de cuidar do próprio corpo
porque todos precisam dela, desiste de uma oportunidade para não desagradar.
São pequenas renúncias que, isoladamente, podem parecer insignificantes, mas
que, acumuladas ao longo dos anos, podem afastá-la de sua própria identidade.
O mais perigoso é quando esse afastamento recebe nomes bonitos,
chamamos de amor, de maturidade, de responsabilidade, de generosidade, mas
quando foi a última vez que uma mulher perguntou a si mesma, com honestidade: o
que eu quero? Não o que o marido quer, nem o que os filhos precisam, ou o que
os pais esperam, não o que a sociedade considera adequado para sua idade, e nem
mesmo aquilo que ela acredita que deveria desejar. O que ela quer?
Para algumas, a resposta vem rapidamente. Para outras, vem o
silêncio, e esse silêncio revela quantas mulheres foram ensinadas a conhecer
profundamente as necessidades de todos ao seu redor, mas nunca foram
estimuladas a reconhecer as próprias. Elas sabem a comida preferida dos filhos,
os compromissos do companheiro, as demandas do trabalho e os aniversários da
família, mas encontram dificuldade quando precisam falar sobre seus próprios
desejos.
Por isso, construir autonomia não significa apenas aprender a se
sustentar financeiramente. Significa também desenvolver a capacidade de
reconhecer o que se sente, estabelecer limites, fazer escolhas e compreender
que dizer “não” não é uma forma de violência contra o outro.
O Agosto Lilás cumpre um papel importante ao ampliar a discussão
sobre a violência contra a mulher e reforçar que nenhuma forma de violência
deve ser naturalizada, mas acredito que a prevenção também passa por algo
anterior, que é fortalecer mulheres para que reconheçam seu valor, seus limites
e sua capacidade de escolha.
Isso não significa responsabilizar a vítima pela violência que
sofre, a responsabilidade é sempre de quem pratica a violência. Mas significa,
sim, ampliar as ferramentas que podem ajudá-la a reconhecer uma relação
abusiva, procurar uma rede de apoio, buscar proteção e compreender que
permanecer em uma situação de violência não é uma obrigação nem uma prova de
amor.
Falar sobre liberdade feminina é, portanto, falar sobre educação
emocional, autonomia, independência, consciência e rede de apoio. É criar
meninas que aprendam que agradar não é mais importante do que se respeitar,
ensinar mulheres a reconhecerem seus desejos antes que passem a vida inteira
tentando atender aos desejos de outras pessoas.
Isolda Risso
- empresária, mãe de um lindo casal de filhos, cronista, coach de vida, mulher
aos 60+, terapeuta, entusiasta da arteterapia, gastrônoma; um dos seus hobbies
é a fotografia e criar arranjos florais, curiosa de nascença, aprendiz da vida
e um Ser a caminho da evolução.
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