No Dia Nacional da Educação Infantil,
trabalho da pesquisadora Lavínia Moraes destaca o papel da escola na luta
antirracista e na construção da identidade negra
“Zaraha disse que terminou de me
desenhar. Olho para o desenho e observo que ela não pintou minha pele: ‘Gostei
do seu desenho! A roupa parece muito com a minha, mas você não pintou a minha
pele’. Ela dá um sorriso e bate na testa: ‘Verdade (risos), vou pegar o lápis
cor de pele’. Ela para, pensa, procura um dos lápis, enquanto eu observo. Então
pega o lápis salmão, afirmando que aquele era a cor de pele.
Eu questiono: ‘Não, a minha pele não é dessa cor!
Minha pele é diferente, olha aqui’. Pego o lápis salmão e coloco ao lado do meu
braço, comparando as cores. Zaraha me observa e então olha para a mesa, para os
outros lápis dispostos e pega o lápis marrom.
‘É dessa cor aqui! (levanta o lápis) Marrom! Você
vai querer mesmo que eu pinte dessa cor? Marrom? Vai ficar feio!’, ela me
indaga em um tom firme. Eu aceno que sim com a cabeça: ‘Eu sou negra, essa cor
parece mais com a minha pele e eu gosto dela, eu acho linda. Pode pintar de
marrom mesmo’.”
O
diálogo acima está presente na pesquisa “‘Vai querer que eu pinte de marrom?
Vai ficar feio!’: Relações raciais na educação infantil”, de Lavínia Brasilino de Moraes,
mestra em Educação pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC). A pesquisa
investigou como o racismo se manifesta nas interações entre crianças de 5 anos
na Educação Infantil do Campo (modalidade que atende crianças em creches e
pré-escolas de áreas rurais) em Ilhéus, no sul da Bahia, e identificou como
essa estrutura molda as percepções sobre cor, cabelo e pertencimento.
“A importância deste estudo se dá pelo fato de
vivermos em uma sociedade em que o racismo ainda perdura e infelizmente
perpassa todos os ambientes sociais, inclusive o escolar, havendo, assim, a
necessidade não só de discutir essa realidade como também de buscar formas de
enfrentamento a essa estrutura”, explica Lavínia.
Diferentes pesquisas evidenciam que o racismo
estrutural prejudica o aprendizado de crianças e jovens negros ao limitar o
acesso a escolas de qualidade, gerar estresse emocional contínuo e impor um
currículo escolar que apaga a história e a cultura afro-brasileira. A pesquisa
Panorama da Primeira Infância, realizada pelo Datafolha e a Fundação
Maria Cecilia Souto Vidigal, mostra que 1 em cada 6 crianças na primeira
infância, fase que vai até os 6 anos, já sofreu discriminação racial no Brasil.
Esse impacto afeta a saúde emocional, a autoestima e a construção da identidade
infantil em creches, escolas e espaços públicos.
Dados do Estudo Internacional das
Aprendizagens e do Bem-estar na Primeira Infância (IELS, sigla em inglês),
da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), mostram
que as desigualdades educacionais em crianças de 5 anos são fortemente
influenciadas por cor/raça e nível socioeconômico antes mesmo do ingresso no
ensino fundamental.
Os resultados indicam que crianças pretas apresentam,
em média, níveis mais baixos em aprendizagens de linguagem (cerca de 17 pontos
a menos) e matemática (40 pontos a menos) do que crianças brancas. Esse padrão
é consistente com a literatura nacional, que documenta desigualdades
educacionais persistentes de desempenho associadas à cor/raça em avaliações
realizadas no ensino fundamental e no ensino médio.
Para o Dia Nacional da Educação Infantil, celebrado em 25 de agosto, destacamos estes dados para discutir o papel da escola no enfrentamento ao racismo e importância de promover debates sobre as relações raciais desde a primeira infância. Assista ao vídeo abaixo:
“Como resultado, apareceu principalmente a não
aceitação das crianças negras em relação ao seu tom de pele, ao cabelo e
dificuldades na interação com brinquedos que trouxessem diversidade racial. As
crianças acabavam reproduzindo o racismo no brincar, principalmente segregando
bonecas negras que estavam na sala”, conta Lavinia.
A análise de campo, realizada a partir de diálogos
com crianças pretas, pardas e brancas, demonstra que o racismo se manifesta de
forma sutil e cotidiana no ambiente escolar, afetando diretamente a construção
da identidade das crianças negras desde muito cedo. Ao mesmo tempo, os
resultados evidenciam que é possível construir ações pedagógicas por meio de
oficinas que as façam confrontar suas histórias e seu pertencimento racial.
“A partir desse diálogo com as crianças, foram
pensadas oficinas brincantes com o intuito de criar uma educação infantil
antirracista e decolonial, que realmente valorize e preserve as infâncias
negras. Foi possível dialogar com as crianças sobre suas histórias e seus
saberes acerca da cultura africana e afro-brasileira, contribuindo para a
construção positiva de suas identidades e para o enfrentamento da estrutura racista”,
explica a pesquisadora.
O estudo também resultou na produção de um material
de apoio pedagógico intitulado Cadê o lápis “cor de pele?”: um livro de
narrativas e orientações para o trabalho com as relações étnico-raciais. A
pesquisa conclui, portanto, que práticas antirracistas com protagonismo
infantil e formação docente contínua são cruciais para promover a equidade
racial.
Lavínia Moraes - uma mulher negra, pedagoga pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), pós-graduada em sociologia da infância e educação infantil e mestra em Educação pela mesma instituição. Integrante do grupo de pesquisa Gestão Educacional e Políticas Públicas (PPeGE-UESC). Estuda racismo na infância, relações raciais, crianças e infâncias negras e políticas públicas educacionais.
O trabalho foi um dos vencedores da 3ª edição do Prêmio Ciência pela Primeira Infância, promovido pelo Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI). A íntegra da pesquisa está disponível aqui.
Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI)

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