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sábado, 22 de agosto de 2026

Estudo revela como o racismo se manifesta entre crianças de 5 anos já na educação infantil

No Dia Nacional da Educação Infantil, trabalho da pesquisadora Lavínia Moraes destaca o papel da escola na luta antirracista e na construção da identidade negra

 

“Zaraha disse que terminou de me desenhar. Olho para o desenho e observo que ela não pintou minha pele: ‘Gostei do seu desenho! A roupa parece muito com a minha, mas você não pintou a minha pele’. Ela dá um sorriso e bate na testa: ‘Verdade (risos), vou pegar o lápis cor de pele’. Ela para, pensa, procura um dos lápis, enquanto eu observo. Então pega o lápis salmão, afirmando que aquele era a cor de pele.

Eu questiono: ‘Não, a minha pele não é dessa cor! Minha pele é diferente, olha aqui’. Pego o lápis salmão e coloco ao lado do meu braço, comparando as cores. Zaraha me observa e então olha para a mesa, para os outros lápis dispostos e pega o lápis marrom.

‘É dessa cor aqui! (levanta o lápis) Marrom! Você vai querer mesmo que eu pinte dessa cor? Marrom? Vai ficar feio!’, ela me indaga em um tom firme. Eu aceno que sim com a cabeça: ‘Eu sou negra, essa cor parece mais com a minha pele e eu gosto dela, eu acho linda. Pode pintar de marrom mesmo’.”


O diálogo acima está presente na pesquisa “‘Vai querer que eu pinte de marrom? Vai ficar feio!’: Relações raciais na educação infantil”, de Lavínia Brasilino de Moraes, mestra em Educação pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC). A pesquisa investigou como o racismo se manifesta nas interações entre crianças de 5 anos na Educação Infantil do Campo (modalidade que atende crianças em creches e pré-escolas de áreas rurais) em Ilhéus, no sul da Bahia, e identificou como essa estrutura molda as percepções sobre cor, cabelo e pertencimento.

“A importância deste estudo se dá pelo fato de vivermos em uma sociedade em que o racismo ainda perdura e infelizmente perpassa todos os ambientes sociais, inclusive o escolar, havendo, assim, a necessidade não só de discutir essa realidade como também de buscar formas de enfrentamento a essa estrutura”, explica Lavínia.

Diferentes pesquisas evidenciam que o racismo estrutural prejudica o aprendizado de crianças e jovens negros ao limitar o acesso a escolas de qualidade, gerar estresse emocional contínuo e impor um currículo escolar que apaga a história e a cultura afro-brasileira. A pesquisa
Panorama da Primeira Infância, realizada pelo Datafolha e a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, mostra que 1 em cada 6 crianças na primeira infância, fase que vai até os 6 anos, já sofreu discriminação racial no Brasil. Esse impacto afeta a saúde emocional, a autoestima e a construção da identidade infantil em creches, escolas e espaços públicos.

Dados do
Estudo Internacional das Aprendizagens e do Bem-estar na Primeira Infância (IELS, sigla em inglês), da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), mostram que as desigualdades educacionais em crianças de 5 anos são fortemente influenciadas por cor/raça e nível socioeconômico antes mesmo do ingresso no ensino fundamental.

Os resultados indicam que crianças pretas apresentam, em média, níveis mais baixos em aprendizagens de linguagem (cerca de 17 pontos a menos) e matemática (40 pontos a menos) do que crianças brancas. Esse padrão é consistente com a literatura nacional, que documenta desigualdades educacionais persistentes de desempenho associadas à cor/raça em avaliações realizadas no ensino fundamental e no ensino médio.

Para o Dia Nacional da Educação Infantil, celebrado em 25 de agosto, destacamos estes dados para discutir o papel da escola no enfrentamento ao racismo e importância de promover debates sobre as relações raciais desde a primeira infância. Assista ao vídeo abaixo:

“Como resultado, apareceu principalmente a não aceitação das crianças negras em relação ao seu tom de pele, ao cabelo e dificuldades na interação com brinquedos que trouxessem diversidade racial. As crianças acabavam reproduzindo o racismo no brincar, principalmente segregando bonecas negras que estavam na sala”, conta Lavinia.

A análise de campo, realizada a partir de diálogos com crianças pretas, pardas e brancas, demonstra que o racismo se manifesta de forma sutil e cotidiana no ambiente escolar, afetando diretamente a construção da identidade das crianças negras desde muito cedo. Ao mesmo tempo, os resultados evidenciam que é possível construir ações pedagógicas por meio de oficinas que as façam confrontar suas histórias e seu pertencimento racial.

“A partir desse diálogo com as crianças, foram pensadas oficinas brincantes com o intuito de criar uma educação infantil antirracista e decolonial, que realmente valorize e preserve as infâncias negras. Foi possível dialogar com as crianças sobre suas histórias e seus saberes acerca da cultura africana e afro-brasileira, contribuindo para a construção positiva de suas identidades e para o enfrentamento da estrutura racista”, explica a pesquisadora.

O estudo também resultou na produção de um material de apoio pedagógico intitulado Cadê o lápis “cor de pele?”: um livro de narrativas e orientações para o trabalho com as relações étnico-raciais. A pesquisa conclui, portanto, que práticas antirracistas com protagonismo infantil e formação docente contínua são cruciais para promover a equidade racial.
 



Lavínia Moraes - uma mulher negra, pedagoga pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), pós-graduada em sociologia da infância e educação infantil e mestra em Educação pela mesma instituição. Integrante do grupo de pesquisa Gestão Educacional e Políticas Públicas (PPeGE-UESC). Estuda racismo na infância, relações raciais, crianças e infâncias negras e políticas públicas educacionais.

O trabalho foi um dos vencedores da 3ª edição do Prêmio Ciência pela Primeira Infância, promovido pelo Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI). A íntegra da pesquisa está disponível aqui.

Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI) 

 

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