Domingo à noite virou o pior momento da semana? Quando a angústia pela segunda-feira começa ainda no fim de semana, é preciso observar tanto a relação individual com o trabalho quanto o ambiente profissional
Pode ainda ser domingo, mas, para muitos trabalhadores, o fim de semana parece já ter terminado. A cabeça começa a antecipar a reunião da manhã seguinte, os e-mails acumulados, as metas da semana, as pendências deixadas na sexta-feira e aquela conversa difícil com o chefe. Aos poucos, o descanso dá lugar à preocupação — e, em alguns casos, à irritabilidade, à angústia e até à insônia.
O fenômeno ficou popularmente conhecido como “ansiedade de domingo” ou Sunday Scaries. Não se trata de um diagnóstico psiquiátrico específico, mas de uma expressão utilizada para descrever sentimentos negativos que surgem quando o fim de semana se aproxima do fim e uma nova semana de trabalho está prestes a começar.
Segundo
o psiquiatra corporativo Daniel Sócrates, doutor pela Universidade Federal de
São Paulo (UNIFESP) e especialista em saúde mental relacionada ao trabalho, o
problema merece atenção principalmente quando deixa de representar apenas
aquela resistência comum ao fim do descanso e começa a provocar sofrimento
recorrente.
“Há
uma diferença importante entre pensar ‘eu gostaria que o domingo durasse mais’
e passar todas as semanas com ansiedade, insônia, irritabilidade ou medo diante
da perspectiva de voltar ao trabalho. Quando isso começa a se repetir e comprometer
o período de descanso, precisamos entender o que está acontecendo”, explica o
médico.
O corpo está em casa, mas a cabeça já voltou ao trabalho
O
cérebro humano possui a capacidade de antecipar situações futuras, mecanismo
importante para planejamento, organização e sobrevivência. O problema aparece
quando essa antecipação mantém o organismo em estado de alerta diante de
acontecimentos que ainda nem ocorreram.
A
pessoa está fisicamente em casa, mas mentalmente já voltou ao escritório.
Surgem pensamentos como: “E se meu chefe reclamar?”, “E se eu não conseguir
entregar?”, “E se aquela reunião der errado?” ou “Como vou conseguir dar conta
de tudo?”.
Em
ambientes profissionais marcados por pressão excessiva, imprevisibilidade,
conflitos, cobranças constantes ou pouca segurança psicológica, essa
antecipação pode se tornar ainda mais intensa.
“O
descanso não depende apenas de estar fisicamente longe do trabalho. Se a pessoa
passa o sábado e o domingo pensando nas demandas profissionais, antecipando
problemas e acompanhando mensagens, existe uma dificuldade real de recuperação
entre uma jornada e outra”, afirma Dr. Daniel.
Curiosamente,
a ansiedade do domingo pode começar ainda na sexta-feira. Pendências
desorganizadas, excesso de tarefas, falta de clareza sobre prioridades e a
sensação de que “sempre ficou alguma coisa para trás” fazem com que o
trabalhador leve mentalmente o escritório para casa.
Celular tornou a fronteira entre trabalho e descanso ainda menor
Se
antes deixar fisicamente a empresa estabelecia uma separação relativamente
clara entre trabalho e vida pessoal, hoje o escritório acompanha o trabalhador
no bolso.
Uma
mensagem no grupo da equipe no domingo à tarde ou um e-mail visualizado no
sábado podem ser suficientes para colocar novamente o cérebro em “modo de
trabalho”.
Mesmo
quando ninguém diz explicitamente que o funcionário precisa responder naquele
momento, algumas culturas organizacionais estabelecem uma expectativa
silenciosa de disponibilidade permanente.
“O
simples fato de saber que uma mensagem pode chegar ou de sentir que precisa
verificar o celular já pode dificultar a desconexão. A pessoa nunca sabe
exatamente quando terminou de trabalhar”, explica o psiquiatra.
Ansiedade de domingo não significa necessariamente burnout
Sentir
tristeza porque o fim de semana terminou ou uma certa resistência em voltar à
rotina não significa automaticamente que uma pessoa esteja enfrentando burnout,
depressão ou um transtorno de ansiedade.
O sinal de alerta está principalmente na frequência, intensidade e impacto dos sintomas
Insônia
recorrente aos domingos, irritabilidade intensa, crises de choro, palpitações,
tensão muscular, alterações gastrointestinais, medo intenso e pensamentos
persistentes sobre abandonar o emprego são manifestações que merecem atenção,
especialmente quando começam a comprometer outras áreas da vida.
Outro
sinal importante é quando o sofrimento começa cada vez mais cedo.
“Primeiro
a angústia aparece no domingo à noite. Depois começa após o almoço. Mais adiante,
a pessoa percebe que já está pensando na segunda-feira no sábado. Nesse
momento, psicologicamente, o trabalho começou a ocupar também o espaço que
deveria ser destinado à recuperação”, observa Dr. Daniel.
Quando o problema pode estar no ambiente de trabalho
Diante
da ansiedade recorrente, é comum buscar apenas soluções individuais: meditação,
atividade física, organização da agenda, menos celular ou técnicas de
relaxamento. Essas estratégias podem ser úteis, mas não substituem uma análise
das condições de trabalho.
É
preciso observar se existe sobrecarga constante, se as metas são possíveis, se
há autonomia, clareza sobre responsabilidades e segurança para fazer perguntas
ou admitir erros. Também importa avaliar se a liderança utiliza medo, ameaça ou
humilhação como ferramentas de gestão e se existe uma cultura de mensagens e
cobranças fora do expediente.
“Saúde
mental corporativa não pode significar simplesmente ensinar o trabalhador a
tolerar melhor um ambiente que sistematicamente produz sofrimento. Quando a
origem do problema está nas condições de trabalho, a responsabilidade pela
solução não pode ser colocada exclusivamente sobre o indivíduo”, afirma o
especialista.
A relação individual com o trabalho também precisa ser observada
Por
outro lado, nem toda ansiedade antecipatória tem origem exclusivamente na
empresa. Perfeccionismo, medo de errar, dificuldade de estabelecer limites,
necessidade excessiva de aprovação, insegurança profissional e dificuldade de
delegar também podem contribuir para o problema.
Há
profissionais que continuam mentalmente trabalhando mesmo quando ninguém está
exigindo isso: verificam e-mails durante o jantar, revisam apresentações
repetidamente, antecipam problemas que talvez nunca aconteçam ou sentem culpa
quando não estão produzindo.
“Nesses
casos, é importante compreender a própria relação com desempenho, cobrança e
descanso. Descansar não deveria ser interpretado como falta de comprometimento
profissional”, explica Dr. Daniel.
É possível recuperar o domingo?
Algumas
mudanças podem ajudar a reduzir a ansiedade antecipatória. Uma delas começa
ainda na sexta-feira: reservar alguns minutos antes de encerrar o expediente
para organizar pendências, definir prioridades da semana seguinte e registrar o
que precisa ser feito pode diminuir a necessidade de manter todas essas
informações mentalmente ativas durante o fim de semana.
Também
é importante estabelecer limites para mensagens profissionais fora do horário
de trabalho, sempre que a natureza da função permitir.
No
domingo, preparar o necessário para a manhã seguinte e conferir brevemente a
agenda pode ajudar a reduzir a sensação de imprevisibilidade. Depois disso,
porém, a recomendação é retornar deliberadamente às atividades pessoais,
evitando transformar o restante do dia em uma extensão da segunda-feira.
Mas,
segundo o psiquiatra, existe um limite para essas estratégias.
“Não
devemos usar técnicas de organização ou relaxamento apenas para tornar uma
situação insustentável um pouco mais suportável. Se o sofrimento é persistente
ou começa a prejudicar sono, relacionamentos, lazer, alimentação, concentração
e qualidade de vida, é importante buscar avaliação profissional”, finaliza.
Dr. Daniel Sócrates - Médico psiquiatra, doutor pela UNIFESP, com mais de duas décadas de atuação clínica. Dedica-se ao cuidado de profissionais que enfrentam altos níveis de exigência e responsabilidade, com abordagem focada em performance sustentável, saúde mental e qualidade de vida.
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