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sábado, 22 de agosto de 2026

Ela deixou o agressor, mas a violência ficou

Em 2025, 3,7 milhões de brasileiras sofreram violência doméstica ou familiar; para muitas mulheres, o fim da relação abre outra batalha, a de recuperar limites, confiança e a própria identidade

 

Ela foi embora. Bloqueou o número. Terminou o casamento, o namoro ou a convivência. Para quem olha de fora, acabou. Para quem passou meses ou anos sendo ameaçada, humilhada, vigiada ou controlada, nem sempre.

A violência contra a mulher pode continuar produzindo efeitos quando o agressor já não está mais dentro de casa. Medo de contrariar, culpa, desconfiança das próprias decisões e dificuldade de impor limites podem sobreviver ao fim da relação. É uma parte menos visível de um problema que atingiu milhões de brasileiras no último ano. 

Em 2025, 3,7 milhões de mulheres sofreram violência doméstica ou familiar no Brasil, segundo a Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, realizada pelo DataSenado em parceria com o Observatório da Mulher contra a Violência. Quase seis em cada dez vítimas disseram enfrentar as agressões havia menos de seis meses. Outras 21% afirmaram conviver com episódios havia mais de um ano. 

O dado brasileiro encontra eco numa estatística mundial difícil de ignorar. A Organização Mundial da Saúde estimou que 316 milhões de mulheres com 15 anos ou mais sofreram violência física ou sexual de um parceiro íntimo em um período de 12 meses. É o equivalente a 11% das mulheres nessa faixa etária. Ao longo da vida, cerca de 840 milhões já sofreram violência praticada por parceiro ou violência sexual.

 

Mas nem toda violência começa com um tapa. 

Antes da agressão que deixa marca no corpo, pode haver o celular fiscalizado, a roupa questionada, o dinheiro controlado, o amigo que precisa ser afastado, a relação sexual aceita para evitar uma discussão. Com o tempo, comportamentos que seriam vistos como invasivos podem passar a fazer parte da rotina. 

É justamente aí que o controle ganha importância na discussão sobre relações abusivas. Um estudo publicado em 2025 no periódico científico Personality and Mental Health encontrou associação entre narcisismo patológico e controle coercitivo. A pesquisa não encontrou, porém, associação geral entre narcisismo patológico e abuso, uma diferença necessária numa época em que chamar o ex de “narcisista” virou expressão corrente nas redes sociais. 

Controle coercitivo é outra coisa. Trata-se de um padrão de comportamentos usados para restringir a liberdade e a autonomia do outro. Pode existir com vigilância, isolamento, intimidação, controle financeiro, ameaças ou interferência constante nas escolhas da parceira.

O problema é que a porta de saída de uma relação assim nem sempre devolve imediatamente aquilo que foi perdido dentro dela. 

Ao escrever sobre o período posterior a relacionamentos marcados por controle e manipulação, o psicólogo e sexólogo Wantuir Rock diz em seu livro Pós-Narcisismo: “chega a hora de recuperar confiança, limites, identidade, desejo e a capacidade de se relacionar de novo com alguém”.

Limite também é uma palavra central quando a violência invade a sexualidade. Em A caminho do prazer, a sexóloga Laura Müller escreve: “na cama só se deve ir até onde aquela prática não nos fere física nem emocionalmente”. 

A frase parece simples. Na prática, toca num território em que muitas mulheres ainda encontram dificuldade para reconhecer a violência: o consentimento obtido sob medo, pressão, insistência ou ameaça não pode ser tratado como uma escolha livre. 

Os próprios dados mostram que reconhecer a agressão não encerra o problema. Na pesquisa do DataSenado, 79% das entrevistadas disseram acreditar que a violência contra a mulher aumentou no país. Entre aquelas que procuraram ajuda, 58% recorreram à família, 53% buscaram apoio em espaços religiosos e 28% foram a uma Delegacia da Mulher. 

Há ainda um dado particularmente incômodo: entre mulheres que solicitaram medida protetiva, quase metade relatou que a determinação foi descumprida.

Para essas mulheres, portanto, sair pode ser o primeiro rompimento. Depois dele vem outro, menos visível: deixar de pedir licença para existir, voltar a confiar no que sente e reaprender que medo não é uma condição normal de um relacionamento.

 

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