Perguntas mais concretas podem ajudar a criança a
compartilhar experiências do dia a dia e tornar a conversa entre pais e filhos
mais espontânea
Magnific
Um diálogo que se
repete entre muitos pais e filhos na volta da escola segue o seguinte roteiro:
- Como foi a
escola?
- Legal.
- E o que você
fez?
- Nada.
O desejo de saber
como foi o dia dos filhos, o que aconteceu, com quem brincaram e como estão se
sentindo é atropelado por respostas monossilábicas. Na realidade, o que
acontece é que, muitas vezes, as perguntas tão amplas feitas pelos pais acabam
dificultando o início da conversa.
“Perguntas
genéricas não cativam a atenção das crianças e se transformam em obstáculo para
que elas organizem as ideias e sentimentos e os compartilhem como os pais de
fato esperam”, diz a psicanalista e hipnoterapeuta Yafit
Laniado, criadora da Relacionamentoria, mentoria
especializada na relação entre pais e filhos.
Yafit explica que
uma alternativa eficaz é substituir perguntas genéricas por questões mais
concretas, que ajudem a criança a acessar situações específicas que viveu.
“Quando perguntamos simplesmente ‘como foi seu dia?’, estamos deixando para a
criança a tarefa de escolher, entre tantas experiências, por onde começar. Para
algumas crianças, isso pode ser difícil. Uma pergunta mais direcionada pode
facilitar esse processo e abrir espaço para uma conversa muito mais rica”.
“Substitua o “como
foi a escola?’ por questões relacionadas a momentos específicos da rotina:
‘qual alimento você mais gostou no almoço?’, ‘com qual colega você brincou
hoje?’, ‘o que você mais gostou de fazer?’ ou ‘teve alguma coisa que você achou
difícil?’ são exemplos de perguntas com respostas mais facilmente elaboradas
por elas”, descreve a especialista.
“Perguntas assim
não têm como objetivo descobrir cada detalhe da rotina da criança. Elas funcionam
como um ponto de partida para que ela possa lembrar de experiências concretas
e, a partir delas, desenvolver a conversa. Quando a criança encontra um ponto
específico para começar a falar, muitas vezes outras informações aparecem
naturalmente. Ela pode contar sobre um amigo, uma situação que aconteceu na
sala, algo que a deixou feliz ou até alguma dificuldade que enfrentou”.
Yafit lembra que a
conversa não precisa virar interrogatório. Por isso, um cuidado importante é
não transformar o momento em uma sequência de perguntas. Assim, o diálogo
também pode começar justamente quando os pais compartilham algo sobre o próprio
dia.
“Hoje aconteceu
uma coisa engraçada comigo”, ou “Eu também tive uma situação difícil no
trabalho”, ou ainda “Hoje eu lembrei de uma coisa que aconteceu quando eu era
criança” são bons pontos de partida e que vão abrir um caminho de diálogo muito
mais natural, agradável e produtivo com as crianças. Yafit destaca que “esse
tipo de interação contribui para criar um ambiente em que a criança percebe que
suas experiências são importantes e que existe espaço para compartilhá-las”.
A psicanalista
ressalta que mesmo com uma abordagem diferente, pode ser que o filho não queira
conversar naquele momento. Saber respeitar esse silêncio é igualmente
fundamental.
“Nem todo silêncio
significa que existe um problema. Às vezes, ela simplesmente está cansada,
distraída ou precisa de um tempo antes de contar o que aconteceu. O mais
importante é construir uma relação em que a criança saiba que pode procurar os
pais para contar o que vive, fazer perguntas ou falar sobre aquilo que está
sentindo”, reforça Yafit.
Mais do que descobrir como foi cada minuto do dia,
pais devem focar que o objetivo é criar espaço para que os filhos possam
contar, perguntar, compartilhar e serem ouvidos.
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