Como humilhações, controle, ameaças e manipulação
podem comprometer autoestima, autonomia e capacidade de tomar decisões — e por
que reconhecer a violência psicológica nem sempre é simples
Nem
toda violência começa com uma agressão física. Às vezes, começa com uma crítica
disfarçada de preocupação. Com a exigência de saber onde a mulher está. Com o
controle das roupas, das amizades, do dinheiro ou das redes sociais. Com uma
frase aparentemente banal: “Você está exagerando”. Depois vem outra: “Ninguém
vai gostar de você como eu”. Ou ainda: “Você não sabe fazer nada sozinha”.
Quando
essas situações se repetem, aquilo que inicialmente parecia ciúme, cuidado ou
um conflito do relacionamento pode se transformar em um processo de controle,
desqualificação e perda progressiva da autonomia.
É
justamente para ampliar a conscientização sobre as diferentes formas de
violência contra a mulher que agosto é marcado pelo Agosto Lilás. Instituída
nacionalmente pela Lei Federal nº 14.448/2022, a campanha é destinada à
proteção da mulher e à conscientização pelo fim da violência. A legislação
prevê ações para esclarecer a população sobre as diferentes formas de violência
e estimular prevenção e educação.
Mas
existe uma violência particularmente difícil de reconhecer: aquela que não
deixa hematomas visíveis.
Segundo
a psicóloga e neuropsicóloga Tattiana ASerra, a violência
psicológica pode acontecer de maneira gradual, fazendo com que a própria mulher
passe a duvidar daquilo que sente, pensa e percebe.
“Quando
uma pessoa é constantemente desqualificada, culpabilizada ou levada a acreditar
que está sempre interpretando as situações de maneira errada, pode começar a
perder confiança no próprio julgamento. É um processo que pode atingir a
autoestima, a percepção de si e a capacidade de tomar decisões”, explica.
Como reconhecer uma relação perigosa desde o início
Essa
pode se tornar uma das frases mais perigosas dentro de uma relação abusiva.
Discussões
acontecem em qualquer relacionamento. Divergências, irritações e conflitos,
isoladamente, não caracterizam necessariamente violência psicológica.
O
problema está na existência de um padrão de comportamento baseado em controle,
humilhação, ameaça, isolamento, manipulação ou desqualificação.
A
mulher relata que determinada atitude a machucou e ouve que está sendo
“dramática”. Questiona uma mentira e é convencida de que entendeu tudo errado.
Reclama de uma humilhação e acaba pedindo desculpas por ter provocado a
discussão.
Com
o tempo, pode começar a questionar a própria percepção.
“Quando
isso acontece repetidamente, a mulher pode deixar de usar a própria experiência
como referência. Ela passa a depender cada vez mais da interpretação do outro
para entender se aquilo que sente é legítimo ou não”, afirma Tattiana.
Esse
processo ajuda a compreender por que, para quem observa uma relação de fora, pode
parecer evidente que existe violência, enquanto para quem está vivendo aquela
dinâmica a situação pode ser muito mais difícil de identificar.
Mas por que a mulher simplesmente não vai embora de uma relação
perigosa?
Essa
pergunta ainda é frequentemente dirigida às mulheres que permanecem em
relacionamentos violentos.
Mas,
segundo Tattiana, ela parte de uma compreensão simplificada do problema.
Uma
relação abusiva pode envolver dependência financeira, filhos, medo de
represálias, isolamento social, ameaças, vergonha, dependência emocional e
enfraquecimento progressivo da autoestima.
Além
disso, relações violentas não são necessariamente violentas durante todo o
tempo.
Podem
existir períodos de carinho, pedidos de desculpas, promessas de mudança e
momentos de aparente tranquilidade. Essa alternância pode aumentar a confusão
emocional e alimentar a expectativa de que aquela pessoa que existia no início
do relacionamento irá voltar.
“Precisamos
substituir a pergunta ‘por que ela não sai?’ por ‘o que está dificultando que
essa mulher consiga sair?’. Quando fazemos essa mudança, deixamos de
responsabilizar a vítima e começamos a enxergar as barreiras emocionais,
sociais e materiais que podem estar presentes”, explica a psicóloga.
Violência não é apenas agressão física
Ainda
que não exista agressão física, viver em um ambiente marcado por medo, ameaça
ou imprevisibilidade pode produzir sofrimento emocional importante.
Alterações
no sono, dificuldade de concentração, ansiedade, irritabilidade, sensação
permanente de alerta, queda da autoestima e dificuldade para tomar decisões
podem aparecer em pessoas submetidas a contextos prolongados de violência
psicológica.
Isso
não significa que exista uma reação única ou que todas as mulheres apresentarão
os mesmos sintomas.
Cada
pessoa responde de maneira diferente.
Por
isso, mais importante do que procurar uma lista fechada de sinais é observar
mudanças persistentes no comportamento, no bem-estar e na maneira como a mulher
passou a enxergar a si mesma.
Uma
das grandes contribuições de campanhas como o Agosto Lilás é justamente ampliar
a compreensão social sobre o que significa violência contra a mulher.
Além
da violência física, existem formas psicológicas, sexuais, patrimoniais e
morais de violência.
Controle
financeiro, destruição de objetos, retenção de documentos, ameaças,
humilhações, coerção sexual, perseguição e tentativas de afastar a mulher de
amigos e familiares não devem ser naturalizados como características de um
relacionamento “difícil”.
Da
mesma maneira, ciúme excessivo não é prova de amor.
Controle
não é cuidado.
Medo
não é respeito.
Reconhecer também é uma forma de proteção
O
Agosto Lilás não deveria servir apenas para falar sobre violência quando ela
chega aos casos mais extremos.
Sua
importância está também em ensinar a reconhecer aquilo que vem antes.
A
crítica que virou humilhação.
O
ciúme que virou vigilância.
O
cuidado que virou controle.
A
discussão que virou ameaça.
O
relacionamento no qual uma mulher deixou de se sentir livre para dizer não,
discordar, encontrar amigos, administrar o próprio dinheiro ou simplesmente ser
quem é.
“A
violência psicológica pode fazer com que uma mulher perca, aos poucos, a
confiança na própria voz. Por isso, parte do processo de enfrentamento também
passa por ajudá-la a recuperar a percepção de que aquilo que ela sente, pensa e
vive importa”, conclui Tattiana Serra.
Falar
sobre violência contra a mulher é fundamental. Mas talvez exista um passo
anterior igualmente importante: ajudar mulheres e toda a sociedade a
reconhecerem a violência antes que ela se torne ainda mais grave.
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