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sábado, 22 de agosto de 2026

Agosto Lilás: Violência muda a forma como a mulher enxerga a si mesma, psicóloga explica

Como humilhações, controle, ameaças e manipulação podem comprometer autoestima, autonomia e capacidade de tomar decisões — e por que reconhecer a violência psicológica nem sempre é simples

 

Nem toda violência começa com uma agressão física. Às vezes, começa com uma crítica disfarçada de preocupação. Com a exigência de saber onde a mulher está. Com o controle das roupas, das amizades, do dinheiro ou das redes sociais. Com uma frase aparentemente banal: “Você está exagerando”. Depois vem outra: “Ninguém vai gostar de você como eu”. Ou ainda: “Você não sabe fazer nada sozinha”.

Quando essas situações se repetem, aquilo que inicialmente parecia ciúme, cuidado ou um conflito do relacionamento pode se transformar em um processo de controle, desqualificação e perda progressiva da autonomia.

É justamente para ampliar a conscientização sobre as diferentes formas de violência contra a mulher que agosto é marcado pelo Agosto Lilás. Instituída nacionalmente pela Lei Federal nº 14.448/2022, a campanha é destinada à proteção da mulher e à conscientização pelo fim da violência. A legislação prevê ações para esclarecer a população sobre as diferentes formas de violência e estimular prevenção e educação.

Mas existe uma violência particularmente difícil de reconhecer: aquela que não deixa hematomas visíveis.

Segundo a psicóloga e neuropsicóloga Tattiana ASerra, a violência psicológica pode acontecer de maneira gradual, fazendo com que a própria mulher passe a duvidar daquilo que sente, pensa e percebe.

“Quando uma pessoa é constantemente desqualificada, culpabilizada ou levada a acreditar que está sempre interpretando as situações de maneira errada, pode começar a perder confiança no próprio julgamento. É um processo que pode atingir a autoestima, a percepção de si e a capacidade de tomar decisões”, explica.


Como reconhecer uma relação perigosa desde o início

Essa pode se tornar uma das frases mais perigosas dentro de uma relação abusiva.

Discussões acontecem em qualquer relacionamento. Divergências, irritações e conflitos, isoladamente, não caracterizam necessariamente violência psicológica.

O problema está na existência de um padrão de comportamento baseado em controle, humilhação, ameaça, isolamento, manipulação ou desqualificação.

A mulher relata que determinada atitude a machucou e ouve que está sendo “dramática”. Questiona uma mentira e é convencida de que entendeu tudo errado. Reclama de uma humilhação e acaba pedindo desculpas por ter provocado a discussão.

Com o tempo, pode começar a questionar a própria percepção.

“Quando isso acontece repetidamente, a mulher pode deixar de usar a própria experiência como referência. Ela passa a depender cada vez mais da interpretação do outro para entender se aquilo que sente é legítimo ou não”, afirma Tattiana.

Esse processo ajuda a compreender por que, para quem observa uma relação de fora, pode parecer evidente que existe violência, enquanto para quem está vivendo aquela dinâmica a situação pode ser muito mais difícil de identificar.


Mas por que a mulher simplesmente não vai embora de uma relação perigosa?

Essa pergunta ainda é frequentemente dirigida às mulheres que permanecem em relacionamentos violentos.

Mas, segundo Tattiana, ela parte de uma compreensão simplificada do problema.

Uma relação abusiva pode envolver dependência financeira, filhos, medo de represálias, isolamento social, ameaças, vergonha, dependência emocional e enfraquecimento progressivo da autoestima.

Além disso, relações violentas não são necessariamente violentas durante todo o tempo.

Podem existir períodos de carinho, pedidos de desculpas, promessas de mudança e momentos de aparente tranquilidade. Essa alternância pode aumentar a confusão emocional e alimentar a expectativa de que aquela pessoa que existia no início do relacionamento irá voltar.

“Precisamos substituir a pergunta ‘por que ela não sai?’ por ‘o que está dificultando que essa mulher consiga sair?’. Quando fazemos essa mudança, deixamos de responsabilizar a vítima e começamos a enxergar as barreiras emocionais, sociais e materiais que podem estar presentes”, explica a psicóloga.


Violência não é apenas agressão física

Ainda que não exista agressão física, viver em um ambiente marcado por medo, ameaça ou imprevisibilidade pode produzir sofrimento emocional importante.

Alterações no sono, dificuldade de concentração, ansiedade, irritabilidade, sensação permanente de alerta, queda da autoestima e dificuldade para tomar decisões podem aparecer em pessoas submetidas a contextos prolongados de violência psicológica.

Isso não significa que exista uma reação única ou que todas as mulheres apresentarão os mesmos sintomas.


Cada pessoa responde de maneira diferente.

Por isso, mais importante do que procurar uma lista fechada de sinais é observar mudanças persistentes no comportamento, no bem-estar e na maneira como a mulher passou a enxergar a si mesma.

Uma das grandes contribuições de campanhas como o Agosto Lilás é justamente ampliar a compreensão social sobre o que significa violência contra a mulher.

Além da violência física, existem formas psicológicas, sexuais, patrimoniais e morais de violência.

Controle financeiro, destruição de objetos, retenção de documentos, ameaças, humilhações, coerção sexual, perseguição e tentativas de afastar a mulher de amigos e familiares não devem ser naturalizados como características de um relacionamento “difícil”.

Da mesma maneira, ciúme excessivo não é prova de amor.

Controle não é cuidado.

Medo não é respeito.


Reconhecer também é uma forma de proteção

O Agosto Lilás não deveria servir apenas para falar sobre violência quando ela chega aos casos mais extremos.

Sua importância está também em ensinar a reconhecer aquilo que vem antes.

A crítica que virou humilhação.

O ciúme que virou vigilância.

O cuidado que virou controle.

A discussão que virou ameaça.

O relacionamento no qual uma mulher deixou de se sentir livre para dizer não, discordar, encontrar amigos, administrar o próprio dinheiro ou simplesmente ser quem é.

“A violência psicológica pode fazer com que uma mulher perca, aos poucos, a confiança na própria voz. Por isso, parte do processo de enfrentamento também passa por ajudá-la a recuperar a percepção de que aquilo que ela sente, pensa e vive importa”, conclui Tattiana Serra.

Falar sobre violência contra a mulher é fundamental. Mas talvez exista um passo anterior igualmente importante: ajudar mulheres e toda a sociedade a reconhecerem a violência antes que ela se torne ainda mais grave.

 

Tattiana ASerra - neuropsicóloga, autora e comunicadora. Neuropsicóloga pelo Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (HCFMUSP), graduada em Psicologia pela Universidade Paulista (2014), analista do Comportamento pela Universidade de São Paulo (USP). Com mais de uma década de experiência promovendo indivíduos e famílias, é também autora de dois livros, um dos quais é um best-seller.
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