Nina Habib, fundadora da Taila Veda, explica como a Ayurveda ajuda a interpretar diferentes sinais do corpo a partir de uma visão integrada do organismo e dos conceitos de Vata, Pitta e Kapha, os três doshas que orientam essa tradição
Vivemos em uma época em que aprendemos a dividir o
corpo em partes. Se a pele muda, olhamos apenas para a pele. Se o sono piora,
pensamos apenas no sono. Se a ansiedade aumenta, acreditamos que ela pertence
apenas à mente. Aos poucos, passamos a enxergar o organismo como um conjunto de
sistemas independentes, quando, na realidade, ele funciona como uma única
conversa. A Ayurveda, medicina tradicional da Índia praticada há milhares de
anos, propõe um olhar diferente. Em vez de observar cada sintoma isoladamente,
ela busca compreender a relação que existe entre todos eles. Muitas vezes,
aquilo que aparece na pele está relacionado ao mesmo processo que interfere na
digestão, no sono, na energia ou nas emoções.
“O corpo raramente envia apenas um sinal. Antes de gritar,
ele costuma sussurrar em diferentes lugares ao mesmo tempo. A pele muda, o sono
muda, a digestão muda, a disposição muda. O desafio é que fomos ensinados a
observar cada um desses sinais separadamente. A Ayurveda nos convida a ouvir a
frase inteira”, explica Nina Habib, fundadora da Taila Veda.
É justamente a partir dessa forma de observar o
organismo que entram Vata, Pitta e Kapha, conhecidos como os três doshas da
Ayurveda. Eles não são categorias para classificar pessoas, mas princípios que
ajudam a compreender diferentes padrões de funcionamento do corpo e da mente.
Todas as pessoas possuem os três, em proporções diferentes, e essa dinâmica
também muda ao longo da vida, influenciada pela alimentação, pelo clima, pela
rotina, pelas emoções e pelas experiências vividas.
“Os doshas não existem para colocar alguém dentro de
uma caixa. Eles existem para nos lembrar de que o corpo responde de formas
diferentes às mesmas circunstâncias. Enquanto uma pessoa perde o sono diante do
estresse, outra sente irritação na pele e uma terceira percebe apenas um
cansaço que parece não passar. A Ayurveda procura entender por que isso
acontece”, afirma Nina.
Na visão da Ayurveda, Vata está relacionado ao
movimento. É ele que participa da respiração, dos impulsos nervosos, da
criatividade, da comunicação e de tudo aquilo que precisa se deslocar dentro do
organismo. Quando esse princípio se torna excessivo, é como observar uma árvore
durante um período de ventos intensos. Os galhos balançam sem parar, o solo
perde umidade e tudo parece menos estável. No corpo, isso pode se manifestar
como pele ressecada, cabelos secos, dificuldade para dormir, excesso de
pensamentos, ansiedade, intestino irregular e sensação de instabilidade. À
primeira vista, esses sinais parecem não ter relação entre si. Para a Ayurveda,
porém, eles podem fazer parte do mesmo processo de desequilíbrio.
Pitta representa a transformação. Assim como o fogo
transforma os alimentos durante o preparo de uma refeição, esse princípio
participa dos processos de digestão, metabolismo e das transformações que
acontecem dentro do organismo. Mas todo fogo precisa de medida. Quando se torna
intenso demais, aquilo que deveria favorecer as transformações também pode
gerar excesso de calor. A pele fica mais sensível, a irritabilidade aumenta,
surgem sensações de calor, impaciência e maior reatividade. Em vez de
interpretar cada manifestação separadamente, a Ayurveda procura compreender o
que elas têm em comum.
Já Kapha está relacionado à estrutura, à
estabilidade e à nutrição. É o princípio que sustenta o corpo, oferece firmeza
às articulações, hidrata os tecidos e favorece a sensação de segurança. Mas até
aquilo que sustenta pode se tornar excessivo. Quando Kapha se acumula, o
organismo tende a desacelerar. Surge a sensação de peso, a retenção de
líquidos, a oleosidade pode aumentar, a disposição diminui e até iniciar
pequenas mudanças exige um esforço maior. Na natureza, seria como um lago de
águas paradas: a estabilidade continua presente, mas o movimento precisa ser
retomado para que a vida volte a circular.
Segundo Nina, compreender esses padrões não
significa tentar encaixar cada pessoa em um único dosha nem fazer um
autodiagnóstico. O verdadeiro objetivo da Ayurveda é desenvolver uma escuta
mais profunda do próprio corpo. “A Ayurveda nos ensina que nenhum sinal surge por
acaso. O corpo está constantemente tentando preservar o equilíbrio e, para
isso, utiliza diferentes formas de comunicação. Quanto mais aprendemos a
reconhecer essa linguagem, mais consciente se torna o nosso cuidado”.
Essa maneira de observar o organismo também inspira
os rituais desenvolvidos pela Taila Veda. A proposta da marca é traduzir os
princípios da Ayurveda para a vida contemporânea e incentivar uma forma de
cuidado baseada na observação do corpo e dos seus ritmos. O autocuidado começa
quando aprendemos a perceber os pequenos sinais que o organismo oferece todos
os dias.

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