Talvez ninguém tenha retratado tão bem o desespero da juventude como Belchior. Já em seu primeiro álbum, na canção “A palo seco”, ele cita nominalmente o desespero de um jovem de 25 anos de sonho, de sangue e de América do Sul. Em “Na hora do almoço”, ele entrega um retrato privilegiado da opressão que a convivência familiar pode representar.
Já no segundo e terceiro álbum, ele dobra a aposta.
“Apenas um rapaz latino-americano”, “Como nossos pais”, “Alucinação” e
“Paralelas” talvez dispensem a apresentação. “A vida realmente é diferente.
Quer dizer, ao vivo é muito pior”. “Minha dor é perceber que apesar de termos
feito tudo que fizemos, nós ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”.
“E a solidão das pessoas dessas capitais. Violência da noite”. “Quanto mais eu
multiplico diminui o meu amor”. Bastante sofrimento na juventude (mas também
esperança, a qual logo retomarei).
Se no final dos anos 70, a juventude sofria no
Brasil (e por motivos outros), as perspectivas não parecem muito melhores. Dos
anos 80 pra cá, a taxa de suicídio no Brasil nunca esteve tão alta, de acordo
com pesquisa publicada pelo Our World In Data em 2026.
Além disso, o suicídio é a terceira principal causa
de morte entre jovens de 15 a 29 anos no mundo, segundo dados da Organização
Mundial da Saúde de 2025. No Brasil, em uma década, de 2010 a 2019, a taxa de
suicídio aumentou 43%. Esse número é ainda mais marcante entre jovens e
adolescentes, porque o aumento foi de 81%, conforme levantamento da Secretaria
de Vigilância em Saúde e Ambiente, do Ministério da Saúde.
Parece existir uma crise na saúde mental dos
jovens. O que está acontecendo com eles?
Muitas hipóteses são possíveis. Por exemplo, a
depressão acomete mais mulheres que homens (para cada 3 casos de depressão,
cerca de 2 são em mulheres), segundo a OMS, mas a taxa de suicídio no Brasil é
bem maior em homens do que em mulheres (para cada 10 pessoas que tiram a
própria a vida, quase 8 são homens), de acordo com a SVSA.
Alguém poderia argumentar algum fator cultural,
como o machismo e a maneira que os homens são ensinados a lidar com as próprias
emoções (e que isso afetou os jovens de uma maneira diferente mais
recentemente). Alguém poderia comentar que fatores econômicos, como a
dificuldade de um jovem ter um carro e uma casa, poderiam ser um fator (avanço
da inflação e de políticas neoliberais). Alguém poderia argumentar que o
advento das redes sociais de algum modo aumentou o sofrimento dos jovens
(talvez através do aumento da insatisfação com a imagem corporal, por exemplo).
Em algum nível, todas essas hipóteses parecem
promissoras. Possivelmente, de caso a caso, uma razão tenha mais influência que
outras.
Mas como manter então os caminhos da esperança?
Mudanças estruturais possivelmente vão transformar a vida de muita gente
(alguém poderia falar de políticas públicas como psicoeducação nas escolas,
diminuição das taxas de juros, mais acesso e permanência à educação, etc.).
Numa dimensão mais subjetiva e individual (mas não
só), Belchior talvez nos dê pistas. “Viver é melhor do que sonhar e eu sei que
o amor é uma coisa boa”. “Amar e mudar as coisas me interessa muito mais”.
“Sonho e escrevo em letras grandes de novo”.
Por um lado, dar um jeito de viver uma vida
significativa, com amor e mudança do que pode ser mudado. Sonhar, ter
esperança, mas não deixar de viver. E o que vai ser esse significado? O que vai
ser essa mudança? Essa é a pergunta de uma vida, e talvez não exista receita de
bolo.
Igor Almeida Bastos - que assina como Igor Maneiro, é psicólogo, mestre em Psicologia e autor de “Sobre amendoins, solidão e o outro eu”, ficção que atravessa temas como felicidade, identidade, relacionamentos amorosos e conflitos familiares
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