Meta-análise no BMJ mostra que o peso perdido com medicamentos de incretina tende a voltar em menos de dois anos após a suspensão — e reabre o debate sobre o que realmente significa "tratar" a obesidade
Para a médica Dra. Ana Luísa Vilela,
especialista em cirurgia geral e bariátrica, endocrinologia e nutrologia, com
mais de 20 anos de atuação clínica, o maior desafio das canetas de incretina
pode não estar no início do tratamento, mas justamente no momento em que ele
termina. "O paciente celebra o resultado, para a medicação, e alguns meses
depois começa a ver o peso voltar. Isso não é falha de força de vontade — é a
doença retomando seu curso natural", afirma.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada
no BMJ* reuniu 37 estudos, 63 braços de intervenção e 9.341 participantes para analisar
o que acontece após a suspensão de medicamentos para controle de peso. O
resultado: reganho médio de cerca de 0,4 kg por mês. Com base nesse ritmo, os
autores projetaram retorno do peso ao valor basal em aproximadamente 1,7 ano, e
dos marcadores cardiometabólicos ao basal em cerca de 1,4 ano.
"Não podemos pensar primeiro em como
tirar a caneta. Precisamos pensar em como o paciente vai sustentar o resultado.
A manutenção deveria começar no primeiro dia do tratamento, não no
último", resume a Dra. Ana Luísa Vilela.
Obesidade crônica exige plano
crônico
Para a médica, o dado publicado no BMJ (um
dos títulos de medicina mais respeitados no mundo) confirma algo que a prática
clínica já mostrava: obesidade é uma condição crônica, e tratá-la como um episódio
pontual — que se resolve e se encerra — é um erro de abordagem, não apenas de
resultado.
"Quando a medicação é suspensa sem um
plano estruturado de manutenção, o corpo volta a fazer exatamente o que fazia
antes: preservar peso, reduzir gasto energético, aumentar fome. Isso está
descrito na fisiologia da obesidade há décadas. O que os novos medicamentos
trouxeram foi potência, não uma nova regra biológica", explica.
Ana Luísa Vilela defende que a construção de um plano de manutenção — que envolve composição corporal, hábitos alimentares, atividade física, sono e, quando necessário, doses de manutenção ou terapias combinadas — não deveria ser deixada para o fim do tratamento.
"É preciso
desenhar a saída antes de dar o primeiro passo. Do contrário, o paciente entra
em um ciclo de perder e reganhar peso que desgasta o corpo e a relação dele com
o próprio tratamento", completa.
"O sucesso não deveria ser medido pelo
quanto o paciente perdeu, mas pelo quanto ele consegue manter. E manter é um
projeto — não um acaso", conclui a médica.
Fonte científica West S, Scragg J, Aveyard P, et al. Weight regain after cessation of medication for weight management: systematic review and meta-analysis. BMJ. 2026;392:e085304. DOI: 10.1136/bmj-2025-085304. Disponível em: https://www.bmj.com/content/392/bmj-2025-085304.long
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