Pressão política dentro das
empresas pode transformar o período eleitoral em meses de medo e insegurança
Na época de campanha eleitoral, as discussões políticas naturalmente chegam aos grupos de WhatsApp, às famílias, às redes sociais e também ao ambiente profissional. O problema começa quando a opinião deixa de ser apenas uma manifestação individual e passa a carregar o peso da hierarquia, do salário e do medo de perder o emprego. É o chamado assédio eleitoral no trabalho: situações em que empregadores, gestores ou pessoas em posição de poder tentam constranger, pressionar ou influenciar a escolha política de trabalhadores utilizando, direta ou indiretamente, a relação profissional.
Para o psiquiatra Dr. Daniel Sócrates, especialista em saúde mental no ambiente corporativo, há uma dimensão do problema que merece atenção especial neste período eleitoral: o impacto psicológico de trabalhar sob a sensação de que o emprego pode depender da escolha feita na urna.
“Quando
a pessoa percebe que sua estabilidade profissional pode estar ligada a uma
posição política, mesmo que a ameaça não seja explícita, o cérebro entra em
estado de alerta. Ela começa a medir o que fala, o que publica, com quem
conversa e até quais opiniões pode demonstrar. É uma forma de insegurança que
pode acompanhar o trabalhador durante semanas ou meses”, explica Dr. Daniel
Sócrates.
Quando opinião política vira pressão
Ter
preferência política e manifestar opiniões faz parte da liberdade individual. O
ponto de atenção dentro das organizações está na assimetria de poder.
Uma
conversa política entre colegas em condição semelhante não produz
necessariamente o mesmo efeito psicológico que uma manifestação feita por
alguém que decide promoções, escalas, salários ou demissões.
“Não
podemos analisar apenas a frase dita, mas o contexto em que ela foi dita. Uma
mensagem aparentemente indireta pode ser percebida como ameaça quando parte de
alguém que tem poder sobre a vida profissional daquela pessoa. O trabalhador
pode pensar: ‘Se eu discordar, isso vai afetar meu emprego?’. A partir daí, já
existe um componente importante de medo”, afirma o psiquiatra.
Para
as Eleições de 2026, o Tribunal Superior Eleitoral reforçou expressamente essa
proteção. A Resolução nº 23.755, de março deste ano, determina que é vedada
propaganda ou assédio eleitoral em ambiente de trabalho público ou privado, com
responsabilização de quem der causa ou permitir a ocorrência.
A ameaça nem sempre precisa ser explícita
As
situações de pressão dentro do ambiente profissional nem sempre chegam aos
canais formais de denúncia. Quem acabou de entrar na empresa, sustenta sozinho
a família, possui poucas alternativas de emprego ou vive em uma cidade na qual
determinada companhia concentra grande parte das oportunidades profissionais
pode se sentir especialmente vulnerável.
Nesses
casos, segundo o psiquiatra, o trabalhador pode optar pelo silêncio enquanto
continua convivendo diariamente com o fator que lhe causa insegurança.
“É
diferente de uma discussão desagradável que termina naquele momento. A pessoa
volta ao mesmo ambiente no dia seguinte, encontra o mesmo gestor e continua
dependendo daquele salário. Quando a sensação de ameaça permanece, o organismo
pode continuar funcionando como se precisasse estar preparado para algum
perigo”, explica.
Entre
os possíveis sinais estão ansiedade, irritabilidade, alterações do sono,
dificuldade de concentração, ruminação, palpitações, tensão muscular, queda de
produtividade e sensação permanente de alerta.
Dentro da cabine, empregado e empregador têm exatamente o mesmo poder
Para
o psiquiatra, proteger o trabalhador contra a pressão eleitoral também
significa preservar um espaço de autonomia em um momento no qual diferenças de
poder econômico e profissional deixam de existir.
“O
voto secreto tem uma função psicológica e democrática muito importante: naquele
momento, ninguém precisa agradar chefe, empresa, família ou grupo social.
Dentro da cabine, empregado e empregador têm exatamente o mesmo poder.
Preservar essa liberdade também é uma forma de proteger a saúde mental do
trabalhador”, finaliza Dr. Daniel.
O TSE reforça que o voto deve ser livre e secreto e que práticas de coação, indução ou constrangimento de trabalhadores precisam ser combatidas.
Dr. Daniel Sócrates - Médico psiquiatra, doutor pela UNIFESP, com mais de duas décadas de atuação clínica. Dedica-se ao cuidado de profissionais que enfrentam altos níveis de exigência e responsabilidade, com abordagem focada em performance sustentável, saúde mental e qualidade de vida.
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