Reportagem publicada nesta quarta-feira, 5 de agosto, reacende debate sobre investigação de perdas gestacionais recorrentes e alterações placentárias
Matéria publicada hoje por um dos principais portais de notícias do país trouxe à tona o relato de uma paciente que perdeu uma filha com 35 semanas de gestação, enfrentou depois um parto prematuro e só anos mais tarde recebeu o diagnóstico de Síndrome Antifosfolípide (SAF), doença autoimune que compromete a circulação placentária e eleva o risco de trombose e complicações obstétricas. Após tratamento adequado, ela teve mais dois filhos saudáveis.
Para o Prof. Dr. Rodrigo Ruano*, referência internacional em Medicina Materno-Fetal e Cirurgia Fetal, professor da University of Miami e ex-professor associado da Faculdade de Medicina da USP, o caso expõe um problema recorrente na obstetrícia: a subinvestigação de causas tratáveis por trás de perdas gestacionais repetidas.
"A repetição de perdas gestacionais, restrição do crescimento fetal, pré-eclâmpsia precoce, prematuridade ou alterações importantes da placenta devem motivar uma avaliação especializada. Embora nem toda complicação tenha origem em uma doença materna, identificar uma causa tratável pode modificar completamente o prognóstico de futuras gestações", afirma.
Ruano ressalta ainda a importância da consulta pré-concepcional para mulheres com histórico de perdas gestacionais, trombose, complicações placentárias ou outros fatores de risco. Segundo o especialista, essa avaliação permite investigar e confirmar precocemente a presença da Síndrome Antifosfolípide (SAF) e de outras trombofilias, possibilitando o planejamento da gestação em condições mais seguras. "Quando essas condições são identificadas antes da gravidez, é possível instituir medidas preventivas e individualizar o acompanhamento desde o início, reduzindo significativamente o risco de complicações maternas e fetais", destaca.
Segundo o professor, a SAF é uma doença autoimune em que o corpo produz, de forma persistente, anticorpos que atacam a coagulação do sangue, aumentando o risco de tromboses e de complicações na gravidez, como abortos recorrentes e parto prematuro. “Na gravidez, pode causar tromboses nos vasos placentários, infartos da placenta, restrição do crescimento fetal, perdas gestacionais recorrentes, óbito fetal e parto prematuro. O diagnóstico exige a combinação de critérios clínicos e laboratoriais internacionalmente reconhecidos, não sendo exame de rotina para todas as gestantes”, revela.
De acordo com Ruano, a análise anatomopatológica da placenta pode fornecer informações fundamentais para esclarecer a causa de complicações obstétricas e orientar gestações futuras. O especialista tem publicações científicas sobre fisiologia placentária, angiogênese, microvascularização, ultrassonografia avançada, insuficiência placentária e doenças hipertensivas da gestação.
Quando
a SAF é confirmada, o tratamento, geralmente aspirina em baixa dose associada a
heparina durante a gestação, pode aumentar as taxas de nascimentos vivos,
conforme recomendações da European Alliance of Associations for Rheumatology
(EULAR). A conduta, porém, deve ser individualizada conforme o histórico
clínico e o perfil de risco de cada paciente.
"O principal ensinamento é que perdas gestacionais recorrentes ou complicações placentárias importantes não devem ser encaradas apenas como fatalidades. A investigação adequada permite identificar doenças tratáveis e oferecer às pacientes um acompanhamento baseado em evidências científicas, aumentando as chances de uma gestação bem-sucedida", conclui o Prof. Dr. Rodrigo Ruano.
A
reportagem também destaca que a investigação para SAF não integra o pré-natal
de rotina de gestantes sem fatores de risco, reforçando a necessidade de
avaliação individualizada diante de histórico de trombose, perdas gestacionais
recorrentes ou alterações placentárias relevantes.
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