Faltam menos de três meses para as eleições para
presidente da República, governadores, senadores, e deputados federais e
estaduais. A corrida eleitoral se intensifica um mês após a eliminação do
Brasil na Copa do Mundo 2026, a maior da história. Mas o que existe de comum
entre duas coisas tão diferentes quanto eleições e futebol?
Para responder a essa pergunta, primeiro é preciso
analisar o comportamento do povo brasileiro em relação a esses dois eventos. A
cada eleição, os partidários dos candidatos derrotados nas urnas (reprovados
pela maioria da população) costumam justificar o resultado dizendo que o povo
brasileiro não sabe votar e que sempre escolhe os piores e os mais bem
embalados nas fantásticas plásticas das propagandas eleitorais concebidas pelos
marqueteiros.
Já no tocante ao futebol, os brasileiros – sempre
apaixonados por esse esporte - se consideram verdadeiros técnicos e, após a
eliminação na Copa do Mundo, se manifestam pedindo a demissão do treinador,
sempre com os mesmos argumentos de que o técnico recebe salários milionários,
não entende de futebol e nem conhece nossos jogadores, errou desde a
convocação, falhou na escalação e substituições, e ainda pedem a destituição de
toda a cúpula da CBF. Complementam denunciando a roubalheira e os interesses
pessoais e da empresa fornecedora do material esportivo, todos juntos
responsáveis pela destruição do futebol brasileiro, já não mais temido.
Eleições e futebol são exemplos típicos da
polarização presente no dia a dia do brasileiro. E uma análise um pouco mais
profunda sobre o comportamento do povo em duas questões tão distintas é capaz
de comprovar a existência de sabedoria nos dois casos.
Não se pode aceitar sem questionamento a afirmativa
de que o povo não sabe votar. Sabe, sim. Os erros estão nas leituras
equivocadas e convenientes da classe política, nos interesses de parte da
grande mídia e de alguns grupos de intelectuais e artistas. Enfim, o sistema e
o establishment
precisam ser analisados, pois é aí que estão nossos problemas, começando por
ignorar o grito do povo.
A população brasileira, de forma clara e comprovada
já há algum tempo pelas pesquisas que antecederam as eleições de 2022, disse
"não" aos dois candidatos que foram ao segundo turno (o vencedor
atual presidente e o perdedor, então presidente candidato à reeleição, hoje
condenado, preso e cumprindo pena). Como? Às vésperas da eleição a
rejeição a ambos era crescente, culminando com 49% e 50%, respectivamente,
segundo as pesquisas divulgadas no último dia do prazo legal para a publicação
dos levantamentos junto aos eleitores. Era um sinal claro e inequívoco de que
os brasileiros clamavam por outra opção.
O resultado da eleição que elegeu o atual
presidente em outubro de 2022 refletiu essa rejeição, expressada pelo alto
índice de votos nulos e brancos e de abstenção (nada menos que 24% dos eleitores
aptos a votar não compareceram). Outro demonstrativo: o vencedor obteve apenas
38,5% dos votos dos cidadãos aptos a votar. Foi, portanto, eleito pela minoria.
Agora, passados quatro anos, os mesmos nomes ou
sobrenomes com altíssima rejeição naquela época reaparecem e se apresentam
novamente como candidatos. E o que dizem as pesquisas realizadas de 10 a 14 de
julho de 2026? Que de 47% a 50% dos entrevistados rejeitam ambos (Lula e
Bolsonaro — agora o filho, devido à prisão do pai). É mais uma mostra que o
povo sabe o que quer e o que não quer. Mantém-se coerente. A classe política e
a sociedade civil precisam analisar e respeitar a vontade do povo brasileiro. É
assim que se procede em um regime democrático, com respeito à decisão popular,
a voz das ruas.
E quanto ao futebol, outra paixão do povo
brasileiro é único pentacampeão do mundo? Não somos mais o país do futebol.
Deixamos de sê-lo há 24 anos, quando fomos pela última vez campeões; e se
voltarmos ao primeiro lugar do pódio, será apenas em 2030. Um hiato de 28 anos,
o maior de nossa história. Uma das razões apontadas pelos especialistas está na
crise ética e de honestidade da CBF. Nos últimos 7 mandatos na entidade
máxima do futebol brasileiro, 5 presidentes caíram por corrupção, má gestão e
até denúncias de assédio sexual.
No futebol, como nos três poderes da República, a
degradação ética, moral e de honestidade vem fazendo o Brasil e seus cidadãos empobrecerem.
Fica mais uma vez demonstrado que o povo não é ignorante, pois vem aumentando o
nível de percepção das coisas erradas e da corrosão do tecido ético e de
honestidade das instituições. Mazelas que, além dos nefastos efeitos internos,
estão destruindo a imagem do país no exterior.
O povo clama por mudanças, verdades e honestidade.
A grande maioria dos mais necessitados já sabe que
os governos não gostam dos pobres, mas sim da pobreza — a mais importante
fábrica de votos, dada a necessidade das muletas concedidas pelos governos para
garantir a própria sobrevivência.
É hora, portanto, de desmitificar e desmistificar
as narrativas dos governantes eleitos após a Constituição Federal de 1988,
embalados por triunfalismos e ufanismos. Para isso, é preciso lembrar a
sutileza na diferenciação dessas duas ações: desmitificar refere-se ao ato de
retirar o status ou a aura do mito que foi atribuída a algo ou a alguém,
trazendo o fato ou a pessoa à realidade, enquanto desmistificar deriva da
palavra "mistificação" (o ato de enganar ou iludir), significando,
portanto, desmascarar uma mentira ou uma farsa.
Nas últimas décadas, os governantes e a maioria da
classe política e seus líderes — sempre bem assessorados e instrumentalizados
por profissionais competentes e especializados na arte de criar mitos e
apologia às personalidades (seus contratantes), muitas vezes é bem-sucedida em
atuar penetrando no inconsciente das pessoas, que, como definiu Freud, responde
por 90% da mente e manda em quase tudo.
O brasileiro nem percebe, porém isso é muito
perigoso porque a invasão do inconsciente das massas, na grande maioria dos
casos, gera culto a determinadas pessoas, servindo de berço para a criação de
ditadores, como mostra a história. O Brasil está se tornando o celeiro dos
mitos e das personalidades “insubstituíveis”, fatos não alicerçados nas
verdades, mas no desejo de realização de um único sonho: perpetuar pessoas no
poder, iludindo as massas e aumentando sua dependência mental a essas pessoas
ungidas pelos marqueteiros e quase “santificados” nas propagandas e
publicidades oficiais.
Cabe, por exemplo, contestar a mística do Brasil
como o país do futuro. Hoje somos a 10ª maior economia do mundo e se
vende a imagem de que, muito em breve, seremos a quinta ou sexta maior. Nada
mais enganoso e distante dos fatos. O Brasil já flutuou entre a sexta e a
sétima maior economia do mundo no período não muito distante de 2010 a 2014 e,
depois, foi ultrapassado por Índia, França, Itália e Rússia. Sem dúvida, hoje
somos mais conhecidos como o país das oportunidades perdidas, tudo causado
pelos maus governos que, esqueceram o povo e para se manter no poder
priorizaram os privilégios, penduricalhos e o gigantismo da máquina pública,
ignorando o controle dos gastos e da corrupção. O povo brasileiro tem
consciência da má gestão e corrupção sistêmica e generalizada, corroendo o
país.
Também é preciso desmistificar que somos um país
com povo pacífico, alegre, acolhedor e sem preconceitos e sem racismo. Fomos,
porém não somos mais exatamente assim. A percepção da violência já é nítida e
altamente sensível. Mais de 70% dos brasileiros temem violência ao viajar pelo
país: 4 em cada 10 brasileiros evitam passeios com medo da violência. Mais de
29% dos cidadãos já foram vítimas de roubo ou furto.
Crime e violência lideram o ranking das
preocupações nacionais, e não poderia ser de outra forma, pois todos os anos
sofremos a perda de 34.000 pessoas por homicídios intencionais.
Da mesma forma, não cabe mais o ufanismo de que
somos o país do futebol, orgulho nacional alimentado pelo fato se sermos os
únicos pentacampeões mundiais. Não é mais assim. O último título mundial foi
conquistado em 2002, ou seja, há 24 anos. E no ranking da Fifa seguimos
perdendo posições para seleções muito menos tradicionais, ficando longe da
liderança, outrora constante.
Como já foi dito, uma das razões dessa situação foi
a degradação da CBF. A entidade vive degradação ética, moral e de honestidade
semelhante à dos presidentes da República e presidentes da Câmara dos
Deputados. O desgaste dos tecidos das instituições já é visível nas últimas
pesquisas de opinião, realizadas entre 07 e 11/07 (Futura/Apex), explicitadas
através da rejeição ao chefe do Poder Executivo em 49,7%, ao desempenho do
Poder Legislativo em 67%, e da cúpula do Poder Judiciário em 52,3%. A crise
ética, moral e de honestidade se alastrou, infectando instituições até poucos
anos não rejeitadas e bem aceitas pela sociedade civil.
A desmistificação precisa alcançar os exemplos mais
frequentes do comportamento indevido dos governos do Brasil. É comum ouvir a
máxima de que “não existe governo nem presidente mais honesto do que eu."
Nesse caso, o sacrifício da verdade é gritante e chega muito perto do
deboche, pois os escândalos de corrupção não param de ocorrer, quantificados e
amplamente noticiados nos veículos de comunicação. A nação já assistiu
escândalos como Mensalão, dos Correios, Eletrolão, Petrolão, Lava Jato e Banco
Master, e nem os idosos, aposentados, pensionistas e deficientes físicos do
INSS escaparam da ação dos corruptos e corruptores. Absurdo dos absurdos, hoje
já temos até corruptos com crachá de autoridade.
O nível de corrupção institucional é tão grande que
a FGV-Ibre estima que esse mal consume anualmente de 2,4% a 4% do PIB, o que
equivale a R$ 346 bilhões a R$ 540 bilhões por ano. O Instituto Brasileiro de
Planejamento e Tributação (IBPT) estima valor ainda maior, de 5% a 7% do
PIB, entre R$ 675 bilhões a R$ 945 bilhões/ano.
Outra comprovação do avanço da corrupção vem do
exterior. A Transparência Internacional mostra que, de 2002 a 2026, o Brasil
desabou da 45ª posição em 2002 para a 108ª posição em 2026 no índice de
percepção da corrupção. Significa dizer que existem 107 países com o setor
público mais honesto do que o brasileiro.
Vários ministros, parlamentares e membros das
cúpulas de todos os poderes da República são apontados como suspeitos de
corrupção com crescimento patrimonial incompatível com suas remunerações,
entretanto não perderam seus cargos e sequer foram afastados. Ninguém cobra
punição e tamanha é a tolerância que a impunidade tende a se perpetuar em razão
do enfraquecimento da indignação da sociedade civil e pela atuação débil dos
órgãos fiscalizadores.
Há ainda outro discurso a ser desmistificado: o de
que estamos muito perto de acabar com a pobreza no Brasil. Não é o que
demonstram os números. Somos um país com a quinta maior área territorial, a
sétima maior população, a 10ª posição no ranking das maiores economias do mundo
e com um dos subsolos mais ricos do planeta. É inaceitável que, diante de tudo
isso, após 526 anos de sua descoberta, o Brasil registre renda per capita média
de apenas US$ 6,85 por dia (o correspondente a US$ 205,50/mês, ou R$
1.065/mês), segundo a classificação da ONU e do Banco Mundial.
Muito difícil falar em erradicação da pobreza a
curto prazo quando ainda existem 20 milhões de famílias (cerca de 60 milhões de
pessoas, ou 28% da população brasileira) cuja sobrevivência depende do recebimento
do benefício governamental do bolsa família, que hoje paga em média R$ 770,00
por mês. São pobres e vivem em lares igualmente pobres.
O país possui também 27 milhões de aposentados e
pensionistas do INSS (12,6% da população brasileira) que recebem proventos de
até um salário-mínimo mensal (R$ 1.621,00). É o mesmo teto de rendimento bruto
de 35% dos trabalhadores do setor privado (em regime de CLT), ou seja, cerca de
16,4 a 18,9 milhões de pessoas.
A realidade é dura: de 6% a 7% da população brasileira
continua morando em áreas de favela, sem as mínimas condições de segurança,
saneamento e esgotamento sanitário. É um contingente expressivo, de 6,5 milhões
de domicílios, onde vivem de 13 a 15 milhões de pessoas.
O discurso é dissociado da prática porque desde
março de 2023 o governo não reajusta o valor do benefício mensal do bolsa
família, o maior e mais importante programa social do país, mesmo sabendo que a
inflação corrói o valor do benefício. Em vez dos atuais R$ 770,00 por mês, as
famílias beneficiadas deveriam receber R$ 886,00 mensais. Hoje as perdas das
pessoas mais necessitadas chegam a R$ 1.392,00 por ano.
O governo se vangloria de ter aumentado a faixa de
isenção do Imposto de Renda, mas antes disso alterou a fórmula do cálculo da
parcela do reajuste real e anual do salário-mínimo. Fez isso reduzindo e
impondo limites por meio da lei nº 15.077 de 28/12/2024 (época das festas de
fim de ano, próprias para passar despercebida), medida que já retirou do bolso
dos que nada têm em 2025 R$ 76,44 durante o ano de 2025, e agora, em 2026,
tirará R$ 209,82, no total. Em 2027, também reduzirá a renda de 60 a 65 milhões
de brasileiros carentes em mais de R$ 210,00 por ano.
Além disso, vemos um governo que se nega
efetivamente a priorizar a educação, profissionalizando os gestores e afastando
os aliados políticos, contribuindo para a manutenção da péssima qualidade de
ensino hoje existente no país, no qual 29% da população adulta são analfabetos
funcionais.
É o mesmo governo que, por má gestão e por não
combater fortemente a corrupção, provoca o empobrecimento do povo e agrava sua
realidade e qualidade de vida. Basta ver que, em 2002, o Brasil ocupava a 72ª
posição no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e hoje amarga a 85ª
classificação no ranking mundial.
Os governos que criam desigualdades severas não
gostam dos pobres, mas sim da pobreza porque dessa forma mantêm abertas as
fábricas de votos. São os responsáveis por uma população sem renda digna
e sem educação de qualidade, e pelo aumento dos privilégios que só aprofundam o
abismo social.
Essa situação leva à perda da capacidade de escolha
e compromete a liberdade econômica, política e de expressão da população,
favorecendo a implantação de novas formas de escravização de um povo em pleno século
XXI. É o retrato do Brasil das últimas três décadas.
Por tudo isso, a desmistificação é fundamental para
mudar essa triste realidade. Vale lembrar a lição do ex-primeiro-ministro
britânico, que teve papel histórico no desfecho da Segunda Guerra Mundial: “Uma
nação sem consciência é uma nação sem alma. Uma nação sem alma é uma nação que
não pode viver”.
Samuel Hanan - engenheiro com especialização nas áreas de macroeconomia, administração de empresas e finanças, empresário, e foi vice-governador do Amazonas (1999-2002). Autor dos livros “Brasil, um país à deriva”, “Caminhos para um país sem rumo” e “Amazônia Brasileira, preservar para viver, responsabilidade mundial”. Site: https://samuelhanan.com.br