O mês em que celebramos o Dia dos Pais também pode servir para colocar em discussão um comportamento ainda comum entre os homens, procurar atendimento médico somente quando algum sintoma começa a interferir na rotina. Quando falamos de saúde cardiovascular e vascular, esperar que o organismo dê sinais pode significar perder uma parte importante da oportunidade de prevenção.
Um estudo publicado em 2026 no Journal of
the American Heart Association, periódico científico da American
Heart Association, ajuda a dimensionar essa questão. A pesquisa analisou dados
de 5.112 participantes do CARDIA, Coronary Artery Risk Development in Young Adults,
estudo de acompanhamento iniciado nos Estados Unidos em 1985 e 1986. Os
participantes tinham entre 18 e 30 anos no início da pesquisa e foram
acompanhados por uma mediana de 34,1 anos. Os pesquisadores identificaram que
as diferenças no risco de doenças cardiovasculares entre homens e mulheres
começam a aparecer por volta dos 35 anos.
O resultado chama a atenção porque desloca a
discussão sobre prevenção para uma fase da vida em que muitos homens ainda não
se percebem como parte de um grupo que precisa acompanhar a saúde
cardiovascular. Aos 35 ou 40 anos, é comum que trabalho, filhos e compromissos
ocupem boa parte da rotina e que consultas preventivas sejam adiadas.
Os dados do CARDIA mostram também que os homens
atingiram uma incidência acumulada de 5% de doença cardiovascular aos 50,5
anos, enquanto as mulheres chegaram ao mesmo percentual aos 57,5 anos, uma
diferença de sete anos. No caso específico da doença coronariana, caracterizada
pelo comprometimento das artérias que levam sangue ao coração, a diferença foi
ainda maior. Os homens alcançaram a incidência de 2% cerca de dez anos antes
das mulheres.
Isso não significa que todo homem desenvolverá uma
doença cardiovascular precocemente, nem que as mulheres estejam protegidas.
Significa que existem diferenças entre os sexos na idade em que determinados
problemas cardiovasculares começam a aparecer e que elas precisam ser
consideradas na prevenção.
Também é necessário entender que saúde cardiovascular
e saúde vascular fazem parte de uma mesma conversa. Hipertensão, diabetes,
alterações do colesterol, tabagismo, excesso de peso e sedentarismo não afetam
apenas o coração. Esses fatores também podem comprometer artérias de outras
regiões do corpo.
A doença arterial periférica é um exemplo. Ela
ocorre quando há redução do fluxo de sangue para os membros, principalmente
para as pernas. Um dos sinais que podem surgir é a dor ao caminhar, que melhora
com o repouso. O problema é que sintomas como dor, peso ou cansaço nas pernas
muitas vezes são atribuídos à idade, à rotina ou à falta de condicionamento
físico.
Nem toda dor nas pernas indica uma doença vascular.
Da mesma forma, inchaço e sensação de peso podem ter diferentes causas. O ponto
é não naturalizar sintomas persistentes ou recorrentes. Quando o corpo muda seu
padrão habitual, é necessário investigar.
A prevenção também precisa começar antes dos
sintomas. Em junho de 2026, a American Heart Association e o American College
of Cardiology publicaram, em conjunto com outras entidades médicas, uma
diretriz para prevenção, detecção e manejo da síndrome cardiovascular, renal e
metabólica. O documento reúne entre os fatores que devem ser acompanhados o
excesso de peso, a pressão arterial elevada, alterações nos níveis de lipídios
e glicose e a redução da função renal.
Na prática, cuidar da circulação aos 30 ou 40 anos
não exige esperar por uma doença para começar. Significa conhecer a própria
pressão arterial, acompanhar colesterol e glicemia, não fumar, incluir
atividade física na rotina e manter acompanhamento médico de acordo com idade,
histórico familiar e fatores individuais de risco.
O histórico familiar também merece atenção. Ter
parentes próximos que apresentaram infarto, AVC ou outras doenças cardiovasculares
em idade precoce é uma informação que deve ser levada à consulta. O mesmo vale
para diabetes, hipertensão, tabagismo e outros fatores que podem se acumular ao
longo dos anos.
Há ainda uma questão cultural que precisa entrar
nessa conversa. Prevenção não deve ser entendida como uma reação ao medo de
adoecer. Ela é uma forma de preservar autonomia e capacidade funcional ao longo
da vida.
Por isso, neste mês dos pais, talvez uma das formas
de cuidado seja incentivar uma mudança simples de perspectiva. Em vez de
perguntar apenas como está a saúde quando alguma coisa dói, vale perguntar
quando foi a última avaliação médica, como estão a pressão, o colesterol e a
glicemia e se algum sinal do corpo vem sendo ignorado.
A pesquisa com os participantes do CARDIA mostra
que, para os homens, essa conversa não precisa esperar pelos 50 ou 60 anos. Aos
35, ela já faz sentido.
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