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sexta-feira, 21 de agosto de 2026

O direito de ser criança

Com a produtividade ocupando cada espaço do dia, talvez seja necessário reafirmar neste Dia da Infância (24/8) algo que deveria ser natural: o tempo para o brincar.

Brincar não é um intervalo entre atividades consideradas importantes. É uma forma de aprender. Ao inventar regras, negociar papéis, lidar com frustrações e transformar objetos comuns em possibilidades, a criança exercita competências que não se desenvolvem apenas por instrução. Aprende a conviver, a imaginar saídas, a criar novas possibilidades e a perceber o outro.

Há algumas décadas, os pequenos costumavam passar mais tempo juntos sem que um adulto organizasse cada momento. Quando não havia nada programado, precisavam descobrir o que fazer. O tédio, tantas vezes tratado como um problema, podia se transformar no início de uma brincadeira. A ausência de uma resposta pronta convocava a imaginação.

Hoje, o cenário é outro. Muitos vivem entre escola, cursos, esportes e compromissos que deixam pouca entrada para o ócio. E os pais precisam incluir na agenda das crianças o descanso e as brincadeiras.  Ao mesmo tempo, há um universo digital permanentemente disponível, pronto para preencher qualquer pausa com vídeos, jogos, mensagens e conteúdos produzidos para manter a atenção.

Os dados ajudam a dimensionar essa mudança. O levantamento do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br) mostra que 85% dos usuários de internet entre 9 e 17 anos têm perfil em pelo menos uma das plataformas investigadas. WhatsApp e YouTube estão entre as mais acessadas, e 65% desse público já utilizou inteligência artificial generativa para diferentes atividades.

Em 2016, no início da série histórica, 10% dos usuários haviam acessado a internet pela primeira vez até os 6 anos. Em 2025, essa proporção chegou a 28%. Não se trata, portanto, de discutir a presença da tecnologia como se ela pudesse ser retirada do cotidiano. Ela já faz parte do mundo em que as crianças crescem. A questão é não permitir que ocupe a rotina.

Garantir uma infância plena exige escolhas. Significa proteger horários sem finalidade definida, permitir encontros com os amigos, criar oportunidades para a convivência fora das telas, para o brincar e até para se perder nas páginas de um bom livro, e resistir à ideia de que todo minuto precisa ser aproveitado.

É nos momentos livres que surgem perguntas sem resposta imediata, conflitos e invenções que não nasceriam de um roteiro. Vale pensar no que estamos oferecendo às novas gerações e, também, no que estamos retirando delas.

É preciso garantir condições para que cada criança viva plenamente, no hoje, a idade que tem. Isso significa aprender sobre suas primeiras responsabilidades e tarefas, desde que haja espaço de descanso e de muitas brincadeiras que também ensinam.

 

Silmara Casadei - doutora em Educação, psicanalista e autora de O Pequeno Mundo Criativo.

 

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