Com a produtividade ocupando cada espaço do dia, talvez seja necessário reafirmar neste Dia da Infância (24/8) algo que deveria ser natural: o tempo para o brincar.
Brincar não é um intervalo entre atividades
consideradas importantes. É uma forma de aprender. Ao inventar regras, negociar
papéis, lidar com frustrações e transformar objetos comuns em possibilidades, a
criança exercita competências que não se desenvolvem apenas por instrução.
Aprende a conviver, a imaginar saídas, a criar novas possibilidades e a
perceber o outro.
Há algumas décadas, os pequenos costumavam passar
mais tempo juntos sem que um adulto organizasse cada momento. Quando não havia
nada programado, precisavam descobrir o que fazer. O tédio, tantas vezes
tratado como um problema, podia se transformar no início de uma brincadeira. A
ausência de uma resposta pronta convocava a imaginação.
Hoje, o cenário é outro. Muitos vivem entre escola,
cursos, esportes e compromissos que deixam pouca entrada para o ócio. E os pais
precisam incluir na agenda das crianças o descanso e as brincadeiras. Ao
mesmo tempo, há um universo digital permanentemente disponível, pronto para
preencher qualquer pausa com vídeos, jogos, mensagens e conteúdos produzidos
para manter a atenção.
Os dados ajudam a dimensionar essa mudança. O
levantamento do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade
da Informação (Cetic.br) mostra que 85% dos usuários de internet entre 9 e 17
anos têm perfil em pelo menos uma das plataformas investigadas. WhatsApp e
YouTube estão entre as mais acessadas, e 65% desse público já utilizou
inteligência artificial generativa para diferentes atividades.
Em 2016, no início da série histórica, 10% dos
usuários haviam acessado a internet pela primeira vez até os 6 anos. Em 2025,
essa proporção chegou a 28%. Não se trata, portanto, de discutir a presença da
tecnologia como se ela pudesse ser retirada do cotidiano. Ela já faz parte do
mundo em que as crianças crescem. A questão é não permitir que ocupe a rotina.
Garantir uma infância plena exige escolhas.
Significa proteger horários sem finalidade definida, permitir encontros com os
amigos, criar oportunidades para a convivência fora das telas, para o brincar e
até para se perder nas páginas de um bom livro, e resistir à ideia de que todo
minuto precisa ser aproveitado.
É nos momentos livres que surgem perguntas sem
resposta imediata, conflitos e invenções que não nasceriam de um roteiro. Vale
pensar no que estamos oferecendo às novas gerações e, também, no que estamos
retirando delas.
É preciso garantir condições para que cada criança
viva plenamente, no hoje, a idade que tem. Isso significa aprender sobre suas
primeiras responsabilidades e tarefas, desde que haja espaço de descanso e de
muitas brincadeiras que também ensinam.
Silmara Casadei - doutora em
Educação, psicanalista e autora de O Pequeno Mundo Criativo.
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