Quase metade das famílias vulneráveis com crianças de até seis anos é
monoparental, mostra levantamento do Instituto C
Quando o cuidado
recai sobre as mães solo, cresce a dificuldade de conciliar a criação dos
filhos com trabalho e renda. Dados apontam porquê políticas públicas voltadas à
primeira infância devem alcançar também quem cuida.
A primeira
infância costuma ser discutida a partir das necessidades da criança: acesso à
creche, saúde, alimentação, desenvolvimento e educação. Mas as condições de
quem cuida também têm impacto direto sobre esse período da vida.
Um levantamento do Instituto C com 499 famílias atualmente acompanhadas pela organização ajuda a revelar essa dimensão. Do total, 172 famílias têm crianças de até seis anos e, entre elas, 47,1% são monoparentais.
O retrato encontrado pelo Instituto C dialoga com indicadores nacionais. Segundo o Censo 2022, o Brasil tem cerca de 7,8 milhões de famílias formadas por mulheres sem cônjuge e com filhos. Já um estudo da Organização Internacional do Trabalho (OIT), em parceria com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, mostra que metade das mães deixa o mercado de trabalho até dois anos após o nascimento do primeiro filho.
A divisão desigual do cuidado também aparece no uso do tempo: as mulheres dedicam, em média, 9,8 horas semanais a mais do que os homens ao trabalho doméstico e de cuidado não remunerado, segundo o mesmo levantamento.
Outro desafio está no acesso à educação infantil. Em 2025, 41,7% das crianças brasileiras de zero a três anos frequentavam creche, segundo a PNAD Contínua Educação do IBGE, percentual abaixo dos 50% previstos como meta pelo Plano Nacional de Educação então vigente, patamar que não foi atingido em nenhuma região do país.
Para o Instituto C, esses indicadores ajudam a mostrar por que políticas voltadas à primeira infância precisam considerar também as condições sociais e econômicas das famílias. Isoladamente, cada dado aponta um obstáculo, mas combinados ajudam a explicar a realidade de boa parte dessas famílias.
Por exemplo, quando o cuidado recai sobre a mãe solo e não há vagas disponíveis nas creches próximas de casa, a mulher tem menos tempo para trabalhar e estudar. Muitas vezes, essa mãe acaba encontrando mais oportunidades em trabalhos informais, sem contrato nem previsibilidade de renda. Esse cenário é recorrente dentre as famílias atendidas pelo Instituto.
Na base da organização, há ainda um forte recorte racial: entre as mães de crianças de até seis anos cuja raça/cor está informada, 76,8% são pretas ou pardas.
A inserção no mercado de trabalho também aparece como desafio. Entre as mães de crianças na primeira infância registradas na base como trabalhando, 68,8% atuam de maneira informal, como autônomas ou freelancers. Por se tratar de um grupo menor dentro da amostra, o dado não pretende representar a realidade nacional, mas ilustra situações recorrentes observadas no acompanhamento das famílias.
Para Vera Carvalho Oliveira, mestre em Políticas Públicas pelo Insper, Young Global Leader pelo World Economic Forum e fundadora do Instituto C, discutir primeira infância exige ampliar o olhar para além das políticas diretamente destinadas às crianças.
“Uma criança não se desenvolve de forma dissociada das condições da família em que vive. Quando uma mãe precisa responder sozinha pelo cuidado, enfrenta dificuldade para acessar creche, tem uma inserção precária no mercado de trabalho ou não conta com uma rede de apoio, isso também afeta as oportunidades dessa criança. É por isso que a política de primeira infância precisa dialogar com assistência social, saúde, educação, trabalho, renda e políticas de cuidado.”
Instituído por lei, agosto é o Mês da Primeira Infância, período dedicado a ampliar o debate sobre a proteção e o desenvolvimento integral das crianças de até seis anos e sobre o papel das famílias, da sociedade e do poder público nessa agenda. Neste ano, o Instituto C integra a campanha do Agosto Verde – Mês da Primeira Infância, promovida pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal com o mote "Cuidar da primeira infância é cuidar do mundo". A mobilização reúne mais de 100 organizações de diferentes causas, evidenciando como o cuidado com a primeira infância atravessa diferentes áreas de atuação.
Entre as iniciativas do Instituto C voltadas ao tema está a cartilha de primeira infância "Desenvolvimento infantil na palma da mão", que reúne 34 dicas sobre estímulos, brincadeiras, vínculos afetivos, linguagem, leitura, sono, desfralde e alimentação, além de uma apresentação de serviços da rede socioassistencial de São Paulo, como CRAS, CCA, UBS e Conselho Tutelar. Elaborado pela equipe técnica da organização em linguagem acessível, o material é voltado tanto a famílias e cuidadores quanto a profissionais que atuam com crianças, e está disponível para download gratuito no site do Instituto C.
Principais
dados do levantamento do Instituto C
- Das 499
famílias ativas acompanhadas, 172
têm crianças na primeira infância, o equivalente a 34,5%.
- Entre
as famílias com crianças de até seis anos, 47,1% são monoparentais.
- Entre
as mães desse grupo com informação de raça/cor disponível, 76,8%
são pretas ou pardas.
- Entre
as mães de crianças na primeira infância registradas como trabalhando, 68,8%
atuam na informalidade.
Dados
nacionais que ajudam a dimensionar o cenário
- O Brasil
tem cerca de 7,8 milhões de famílias compostas por mulheres
sem cônjuge e com filhos, segundo o Censo 2022.
- Metade
das mães deixa o mercado de trabalho até dois anos depois do nascimento do
primeiro filho, segundo estudo OIT/MDS.
- Mulheres
dedicam 9,8 horas semanais a mais que os homens ao trabalho doméstico e de
cuidado não remunerado.
- Apenas
41,7% das crianças de zero a três anos frequentavam creche em 2025,
segundo o IBGE.
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