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sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Inovação sem resultado: o custo invisível de não ter estratégia

 

Existe uma diferença importante entre uma empresa que realmente inova, e outra que apenas encena a inovação. A primeira sabe aonde quer chegar, e incorpora este conceito em seu planejamento estratégico, como parte indispensável para obter uma geração de valor. A segunda, por outro lado, coleciona iniciativas, adota tecnologias da moda e promove discursos sobre transformação, mas não consegue responder a uma pergunta básica: qual resultado isso trouxe para o negócio? 

Vivemos uma época muito presente de um teatro da inovação, em que muitas organizações investem em soluções sofisticadas como inteligência artificial, robótica e outras tecnologias, sem, necessariamente, definir como contribuirão para a conquista dos objetivos desejados. Muito movimento aparentemente positivo, mas pouco impacto efetivo, sem uma direção clara ou critérios para avaliar o que deve avançar, ser ajustado ou abandonado. 

Não há nada de errado em testar novas ideias, experimentar recursos ou assumir riscos. Pelo contrário: a inovação pressupõe, justamente, a capacidade de explorar caminhos ainda não consolidados, entendendo o erro como parte deste processo de aprendizado e evolução, e não algo a ser temido ou evitado. O que não pode acontecer é transformar essa jornada em uma sequência de medidas desconectadas, sem indicadores capazes de demonstrar seu impacto. 

Se a inovação pretende ser uma alavanca de crescimento, competitividade e geração de valor para a empresa, ela precisa ocupar um espaço mais relevante na gestão. Não como um projeto paralelo, mas como parte do planejamento interno, direcionando desde a governança, ao estabelecimento das metas desejadas. Do contrário, o que se vê em muitos negócios é o chamado "voo de galinha": ações que até podem escalar rapidamente em um primeiro momento, mas que não conseguem se sustentar a longo prazo. 

Dados do levantamento “State of AI 2025”, da McKinsey, comprovam isso: apesar de 62% das empresas entrevistadas afirmarem já terem experimentado agentes de IA, quase dois terços relataram que ainda não começaram a escalar essa tecnologia para além de projetos-piloto, transformando essas experiências em algo estruturado que gere valor agregado. Ou seja, existe uma distância relevante entre testar uma tecnologia e fazer com que traga os resultados esperados. 

A inovação, portanto, não pode ser tratada como um fim em si mesma, mas como um meio utilizado pela organização para alcançar objetivos concretos: desenvolver novos produtos e serviços, criar fontes de receita, aprimorar processos, reduzir custos, aumentar a produtividade ou otimizar aquilo que já existe. A tecnologia, nesse contexto, é uma ferramenta que pode viabilizar esses avanços, mas não representa, sozinha, uma estratégia independente nesse sentido. 

Dentre tantas metodologias inovadoras capazes de auxiliar as organizações ao longo dessa jornada, está a ISO de Inovação, metodologia internacional que estabelece requisitos para a implementação de um sistema de gestão da inovação, orientando as empresas nos melhores caminhos que podem ser seguidos. Mais do que estimular a criação de ideias, sua aplicação ajuda a estruturar processos, responsabilidades e diretrizes para que a inovação esteja conectada à estratégia e seja conduzida de maneira sistemática. 

Na prática, isso passa desde pela definição clara de onde a empresa pretende chegar, a quais desafios ou oportunidades precisam ser enfrentados, determinando objetivos específicos a serem conquistados, quais critérios e indicadores serão utilizados para mensurar as iniciativas adotadas, para que consigam desenvolver e testar soluções, identificando e decidindo quais iniciativas devem receber continuidade. É uma mudança importante de perspectiva, em que ao invés de perguntar apenas "o que podemos criar?", a organização passa a questionar "qual problema precisamos resolver e qual resultado queremos alcançar?". 

Aqui, a governança de inovação exerce um papel central, uma vez que é ela que ajuda a estabelecer prioridades, definir responsabilidades, direcionar recursos e criar mecanismos de acompanhamento para que essas ações não se percam ao longo do caminho. Isso não significa eliminar o risco ou exigir que toda iniciativa inovadora tenha retorno financeiro imediato, mas pressupondo a experimentação e, consequentemente, a possibilidade de erros e aprendizados, evitando que esses experimentos aconteçam sem propósito, sem conexão com a estratégia ou sem critérios claros de acompanhamento. 

No fim, evitar o "teatro da inovação" significa, mais do que investir em tecnologias sofisticadas, criar laboratórios ou anunciar projetos disruptivos, ter clareza sobre o problema que se pretende resolver, o resultado que se deseja alcançar e como cada iniciativa contribuirá para a estratégia do negócio. Quando há um alinhamento verdadeiro entre a governança, direcionamento e capacidade de transformar ideias em novos produtos, os processos se tornam mais eficientes, as chances de terem melhorias concretas são potencializadas, e a inovação deixa de ser apenas um discurso e passa a cumprir seu verdadeiro papel: de gerar valor e resultados sustentáveis para a organização. 

 

Alexandre Pierro - doutorando em energia e mestre em gestão e engenharia da inovação, engenheiro mecânico, bacharel em física e especialista de gestão da PALAS, consultoria pioneira na implementação da ISO de inovação na América Latina.   


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