Cada
vez mais a medicina tem encontrado novas maneiras de trabalhar com a informação
médica. Filas eletrônicas e marcação de consultas por meio da Internet e bancos
de dados ao invés de cartões médicos desgastados; telemedicina no lugar das
tediosas idas ao médico; além da utilização da tecnologia mHealth para o
trabalho operacional em campo. O problema é que as instituições médicas não têm
se preocupado muito em proteger os dados pessoais de seus pacientes.
De
acordo com a base de vazamentos Breach Level Index, em 2017, o número de desvios
de informações na área de saúde foi o mais alto em comparação com outros
setores. Na área aconteceram 228 vazamentos, o que representa 25% do total.
Em
diferentes países, os vazamentos de dados médicos variam em escala, mas o
resultado é sempre o mesmo - a perda de dados pessoais. Não é difícil encontrar
exemplos de vazamentos como estes na rede: na Austrália, foram colocados à
venda os dados de planos de
saúde de todos os residentes do país; na Noruega, ocorreu o vazamento dos dados
médicos de 2,9 milhões de pacientes
registrados,
o que representa quase metade de toda a população; a Malásia perdeu três bancos de dados que pertenciam ao
conselho médico da Malásia (MMC), à Associação médica da Malásia (MMA) e à
Associação de dermatologia da Malásia (MDA).
Porém,
os vazamentos que atingiram a mídia são apenas a ponta do iceberg. Há países,
onde não existem leis que obriguem a publicação de informações sobre dados
comprometidos. Os pacientes raramente queixam-se e procuram a polícia, e os
médicos não sabem exatamente a gravidade de suas ações, repassando acidentalmente
ou intencionalmente informações sobre pacientes a terceiros, o que torna a
situação ainda mais crítica, uma vez que a informação médica não possui
prescrições.
Com
a transição dos dados para a forma digital, as instituições tornaram-se
vulneráveis a ataques cibernéticos e a ações de agentes internos. Geralmente, a
informação sobre pacientes é "desviada" com o intuito de obtenção de
lucros ou como uma troca de serviços. E os interessados na compra de dados
pessoais são muitos, como funcionários do ramo de serviços funerários,
vendedores de medicamentos não licenciados e suplementos dietéticos, mídia,
corretores de imóveis – fraudadores, entre outros.
Certos
da ausência de sistemas de segurança (nos hospitais, mesmo um administrador de
sistemas em tempo integral é uma raridade), os funcionários de instituições
médicas praticamente não escondem suas tentativas de "vazamento" de
dados pessoais. Fazendo uso, principalmente, de e-mails pessoais, às vezes
enviam arquivos através de redes sociais, ou descarregam informações em
pen-drives. Os truques mais comuns dos "agentes do negócio", como o
vazamento de dados em nuvem ou acesso por meio da conta de outra pessoa, são
usados raramente pelos profissionais de saúde, provavelmente devido ao baixo
nível de treinamento em TI.
A
ação dos "agentes da medicina" pode ser representada através de
exemplos de vários casos:
-
Um médico repassou dados sobre a morte de pacientes e seus endereços de
residência ao representante de uma agência de serviços funerários. A ativação
do sistema DLP mostrou que o
funcionário comunicava-se por Skype através do computador de trabalho. As
conversas deixaram claro que o "vazamento" de informações estava
sendo estabelecido há bastante tempo: os fraudadores não discutiam os
"termos da cooperação", foram enviadas apenas informações específicas.
O médico foi multado e severamente repreendido com aviso de demissão.
-
O dentista de uma clínica pública enviou cartões com os dados pessoais de
pacientes para seu e-mail pessoal. Mais tarde, o serviço de segurança descobriu
que o profissional trabalhava por fora em uma clínica particular, para onde ele
"conduzia" os clientes sob o pretexto de melhores condições de
diagnóstico e tratamento. O funcionário foi repreendido com um aviso de
demissão, e sua atividade foi submetida a um controle especial.
Em
geral, a garantia do fluxo constante de clientes em uma instituição médica
particular é uma das motivações mais comuns em casos de vazamentos. Por um
lado, a entrada em vigor do GDPR exige a proteção dos
dados pessoais, enquanto os dados médicos são considerados uma categoria
especial de dados pessoais ou informações pessoais sigilosas. Por outro lado, a
questão sobre os recursos técnicos e humanos, assim como a existência de
pessoal especializado em instituições médicas permanece aberta.
Justamente
por isso, a mera presença de regulamentos ou documento correspondente local da
organização pode não ser muito útil na atual situação – os documentos existem,
os funcionários já se familiarizaram com eles, mas na prática tudo permanece do
mesmo jeito.
A
este respeito, surgem várias questões: Como são armazenados os dados pessoais
dos pacientes, como o sistema de segurança é implementado e seriam as
instituições médicas capazes de suportar essas tecnologias? A experiência de
países onde a questão da proteção de dados pessoais tem sido resolvida
informalmente há muito tempo, na prática, pode em parte fornecer respostas a
essas questões.
Nos
EUA, por exemplo, um sistema de proteção contra vazamentos de informações está
sendo desenvolvido: vazamentos ou mesmo o armazenamento inadequado de dados de
pacientes implica em multas colossais ou até acusação penal. Neste caso, as
instituições médicas são obrigadas a proteger as informações nos termos da lei
HIPPA (lei de portabilidade e responsabilidade de seguro de saúde), desde 1996.
E é mais barato seguir essas exigências do que ignorar a lei: de acordo com o
relatório do estudo global do Instituto Larry Ponemona (Ponemon Institute's
2017 Cost of Data Breach Study: Global Overview), o prejuízo causado
pelo vazamento de dados da conta de um cliente na área da saúde é de US$ 380,
enquanto o valor médio desse indicador para todos os setores da economia é de
US$ 141. As pessoas estão muito melhor equipadas tecnicamente, entendem melhor
a tecnologia e entendem as consequências de suas ações.
Nas
instituições médicas americanas, vários níveis de proteção contra ameaças
externas e internas estão sendo implantados. Inicialmente, os documentos são
classificados cuidadosamente, a partir do critério de confidencialidade das
informações. Em muitos aspectos, isto é devido às peculiaridades do
funcionamento dos sistemas DLP, que são rápidas no bloqueio de vazamentos e com
uma operação fortemente automatizada.
O
serviço de saúde Fraser Health Authority da British Columbia (Canadá) implantou
um sistema de autenticação baseado em certificados. Todos os 26 mil
funcionários e 2.500 médicos receberam cartões inteligentes, o que resultou em
um maior nível de segurança para a instituição, bem como em custos de operação
reduzidos, aumento da disciplina dos funcionários e melhor atendimento ao
paciente.
O
hospital holandês Albert Schweitzer Ziekenhuis (ASZ) usa um sistema de token
único e um servidor de autenticação em nuvem, fornecendo não apenas a proteção
dos dados pessoais de pacientes, mas também o acesso à informação médica
necessária aos médicos e ao pessoal de enfermagem, dentro e fora dos limites do
prédio do hospital.
Na
Suécia funciona a iniciativa SITHS, em que cartões inteligentes e assinaturas
digitais são usados para identificação de funcionários do sistema de saúde e
serviços sociais. Os funcionários das organizações de saúde usam seus cartões
SITHS para acessar o portal National Patient Overview, que armazena informações
sobre pacientes online. Toda a documentação durante a realização dos cuidados
primários de saúde é armazenada sob a forma de cartões médicos eletrônicos
(Electronic Healthcare Records, EHR), e 95% de todas as receitas prescritas na
Suécia são emitidas eletronicamente (ePrescriptions).
Na
maioria dos países, a equipe médica possui apenas um conhecimento básico da
segurança da informação, não tendo ideia de sua responsabilidade na preservação
dos dados dos pacientes existentes na instituição. Deste modo, acontecem
situações como as já relatadas neste artigo: bancos de dados sobre pacientes
estão sendo enviados para "todos os destinatários" da lista de
endereços ou informações de pessoas falecidas estão sendo repassadas a
representantes de "serviços funerários".
É
necessário resolver este problema de forma integrada:
1.
Implementar soluções de segurança da informação médica. As leis correspondentes
criam condições, nas quais instituições médicas são responsáveis pela proteção
dos dados pessoais. Mas de que maneira os líderes dessas organizações resolvem
a questão? O mais confiável é a instalação de soluções de proteção de
informações, como os sistemas DLP modernos.
2.
Limitar o acesso à informação médica dentro da instituição. O acesso às
informações pessoais sigilosas deve estar disponível apenas para determinadas
pessoas, embora a proibição de download e envio de dados para fora da
organização deve ser estabelecida mesmo para estes.
3.
Introduzir regras de operação para o uso de informações. A observância estrita
das regras de armazenamento e operação de dados pessoais dos pacientes e
qualquer outra documentação médica estendem-se a toda equipe médica.
4.
Realizar atividades de capacitação SI para o pessoal médico regularmente. Isso
pode ser feito dentro da própria instituição ou recorrendo aos serviços de
empresas especializadas na formação de agentes de segurança da informação
médica (CTI, Security Awareness Training).
5.
Nomear pessoas responsáveis, que trabalharão com os sistemas de segurança e
realizaram treinamentos de pessoal na área da segurança da informação. É
possível formar um departamento SI ou delegar essa tarefa aos seus
profissionais TI.
Vladimir Prestes - Diretor Geral
da SearchInform no Brasil, líder russa em
sistemas de segurança da informação há mais de 20 anos. Com mais de dois mil
clientes e cerca de 1.200.000 computadores protegidos, possui escritórios em 16
países.