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Outro dia, na sala dos professores, um colega
entrou, pôs o caderno sobre a mesa e disse: “Eu não sei mais por que continuo
acreditando na educação!”. Ninguém respondeu de imediato, talvez porque a
pergunta já havia passado pela cabeça de quase todos nós. Era uma manhã comum,
com café na garrafa, conversas sobre as turmas e alguém reclamando da reunião
da tarde. No meio da rotina, a dúvida ficou ali, sobre a mesa, como mais uma
xícara de café.
Não é uma questão fácil. A cada ano chegam novas
cobranças, formulários e projetos, além de palavras que parecem explicar tudo e
quase nada explicam: qualidade, inovação, resultados, competências. Fala-se
muito e escuta-se pouco. Enquanto isso, o professor segue entrando em salas
cheias, tentando ensinar, convencer, explicar outra vez o que já havia
explicado. Terminada a aula, ainda há chamada, relatório e plataforma à espera.
O Brasil também lidera o ranking de violência contra professores em
levantamento feito em 2024 pela OCDE, que ouviu 280 mil professores e diretores
de escola de 55 países. Meu colega tinha razão em se questionar. A escola
parece ter se tornado um lugar onde se exige muito de quem ensina e se oferece
pouco para que ele possa ensinar.
Naquele dia, porém, algo aconteceu. Ao fim de uma
aula, um aluno esperou os outros saírem e perguntou: “Professor, posso
conversar com o senhor?”. Não era sobre a prova nem sobre a nota. Era sobre a
vida. Ele contou o que se passava em casa, falou dos medos e do que não
conseguia dividir com ninguém. O professor escutou. Não resolveu o problema, e
quem sabe nem pudesse. Mas ouviu.
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| Paco Editorial |
Por isso ainda acreditamos. Não por ingenuidade,
nem por ignorar os problemas da escola pública ou aceitar as condições de
trabalho que nos são impostas. Muito menos por heroísmo: professor não precisa
ser herói, precisa de respeito, condições dignas e reconhecimento. Acreditamos
porque uma sociedade que abandona a educação entrega seu futuro ao acaso, e não
queremos entregá-lo.
Jorge Rabello Mendes -
professor há 25 anos. Sociólogo e poeta, é autor de Sala dos professores: crônicas do dia
a dia , que assina sob o pseudônimo Jorge Firdauz.


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