O avanço de doenças como Alzheimer leva famílias a
buscar alternativas para proteger patrimônio e grandes heranças
O
avanço de doenças neurodegenerativas, como Alzheimer e demências progressivas,
tem levado famílias com grande patrimônio a buscar cada vez mais mecanismos de
proteção sucessória no Brasil. De acordo com dados da National Institute on
Aging, estima-se que o número de pessoas com demência aumente de 57 milhões
em 2019 para 153 milhões até 2050.
A
preocupação vai além da divisão da herança: envolve quem terá legitimidade para
administrar empresas, investimentos, imóveis e decisões pessoais quando houver
perda da capacidade cognitiva. Portanto, a ausência de organização patrimonial
pode transformar fortunas construídas ao longo de décadas em longas disputas
judiciais, especialmente em casos de empresários, investidores e famílias
empresárias.
Conforme
a advogada Mérces da Silva Nunes, sócia do Silva Nunes Advogados e especialista em
Direito de Família, Heranças, Planejamento Sucessório e mestre em Direito
Médico, muitas famílias ainda evitam discutir o tema até que a
situação se torne irreversível.
“O
planejamento sucessório não serve apenas para organizar patrimônio após a
morte. Ele também é essencial para proteger a própria pessoa em situações de
vulnerabilidade cognitiva. Quando surgem doenças como Alzheimer ou outras
demências, decisões patrimoniais podem passar a ser questionadas, abrindo
espaço para conflitos familiares, disputas sobre curadoria e discussões sobre a
validade de atos praticados”, afirma.
A
especialista explica que um dos maiores riscos ocorre justamente quando não
existe definição prévia sobre quem poderá assumir decisões patrimoniais e
pessoais.
“Sem
planejamento, a família muitas vezes acaba judicializando questões extremamente
delicadas. Filhos, cônjuges, companheiros e parentes podem divergir sobre quem
deve administrar empresas, holdings, imóveis e investimentos. Dependendo da
complexidade patrimonial, isso pode comprometer negócios inteiros”, destaca.
Casos públicos: entre a perda cognitiva e o patrimônio
O
tema ganhou ainda mais repercussão nos últimos anos após casos públicos
envolvendo figuras conhecidas mundialmente.
Atualmente,
o ator Bruce Willis, diagnosticado com demência frontotemporal, trouxe
visibilidade internacional para as dificuldades envolvendo perda cognitiva
progressiva e tomada de decisões futuras. A família, incluindo sua ex-esposa, a
atriz Demi Moore, passou a discutir publicamente os desafios da doença e da
necessidade de estrutura de apoio para decisões patrimoniais e pessoais.
No
Brasil, a trajetória da saudosa atriz Nicette Bruno também ajudou a ampliar o
debate sobre envelhecimento, Alzheimer e vulnerabilidade familiar,
especialmente em relação aos cuidados pessoais e à organização familiar diante
do avanço da doença.
Já
no universo empresarial, um dos casos mais emblemáticos foi o do bilionário de
mídia Sumner Redstone, controlador da extinta MTV (Music Television), da Viacom
e da CBS. O magnata enfrentou anos de disputas judiciais envolvendo sua
capacidade cognitiva, controle societário e influência sobre um império
bilionário.
Em
contrapartida, o investidor Warren Buffett costuma ser citado por especialistas
como exemplo de governança patrimonial e sucessória planejada com antecedência,
justamente para evitar insegurança futura na gestão de grandes fortunas
(filosofia de Value Investing).
Curadoria e sucessão deixam de ser assunto “para depois”
A
definição prévia de curador, testamentos, holdings familiares, protocolos
sucessórios e doações com cláusulas protetivas vêm sendo cada vez mais
utilizadas por famílias de alta renda como mecanismos de prevenção jurídica.
Segundo
a especialista, o maior erro ainda é em postergar. “Muitas famílias só percebem
a importância do planejamento sucessório quando a perda da capacidade de
discernimento já começou. Nesse estágio, qualquer reorganização patrimonial
passa a ser muito mais sensível e sujeita a questionamentos judiciais”,
explica.
Ela
ressalta que, além da proteção financeira, o planejamento evita desgaste
emocional.
“Quando
não existe clareza sobre desejos, divisão patrimonial e administração futura, o
patrimônio pode se transformar em um foco de ruptura familiar. O planejamento
sucessório também é uma ferramenta de proteção afetiva”, conclui Mérces.
O que pode
acontecer sem planejamento sucessório?
Principais
riscos apontados por especialistas:
- Disputas
familiares sobre administração do patrimônio;
- Conflitos
envolvendo curadoria e tomada de decisões;
- Paralisação
de empresas familiares;
- Bloqueio
judicial de bens;
- Discussões
sobre validade de assinaturas e contratos;
- Aumento
de custos processuais e tributários;
- Exposição
pública da família e do patrimônio;
- Insegurança
na continuidade de negócios e investimentos.
Fonte:
Mérces da Silva Nunes - sócia do Silva Nunes Advogados,
especialista em Direito de Família, Heranças e Planejamento Sucessório,
especialista em Direito Tributário, mestre e doutora em Direito Médico pela
PUC-SP.
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