Estudos dos telômeros ajudam a compreender o envelhecimento celular e mostram por que a idade cronológica não é suficiente para explicar como o organismo envelhece
A idade que aparece no documento de identidade nem
sempre conta toda a história sobre como o organismo está envelhecendo. Duas
pessoas com os mesmos anos de vida podem apresentar diferenças nesse processo,
e os telômeros estão entre as estruturas estudadas pela ciência para entender
por que isso acontece.
Localizados nas extremidades dos cromossomos, eles ajudam a proteger o material
genético e tendem a se encurtar naturalmente à medida que as células se dividem
ao longo da vida, um processo necessário para a renovação e a manutenção dos
tecidos. Com o passar do tempo e após sucessivas divisões celulares, esse
encurtamento pode fazer com que as células percam parte de sua capacidade de se
dividir e funcionar adequadamente, sendo um dos mecanismos associados ao
processo de envelhecimentoNos últimos anos, o comprimento dos telômeros passou
a chamar a atenção dos pesquisadores como um possível indicador do
envelhecimento celular.
A revisão sistemática Understanding physical aging in relation to biological
aging, telomere length: A systematic review¹, analisou 40 estudos sobre a
relação entre os telômeros e diferentes aspectos do envelhecimento físico. Os
resultados apontaram associações entre o comprimento dos telômeros e medidas de
capacidade e desempenho físico, embora os achados variassem de acordo com o
aspecto do envelhecimento avaliado.“Os telômeros podem acrescentar uma
informação sobre o envelhecimento celular, mas não devem ser interpretados
isoladamente como a idade definitiva de uma pessoa ou como uma previsão de
quanto ela vai viver”, explica Ricardo Di Lazzaro, médico, doutor em Genética,
fundador da Genera e responsável pela área de Longevidade e Genômica Pessoal da
Dasa Genômica.
Segundo o especialista, o interesse por esse tipo de investigação acompanha uma
mudança importante na população brasileira. Segundo o IBGE³, o número de
pessoas com 60 anos ou mais passou de 22 milhões, em 2012, para 34,1 milhões,
em 2024 um crescimento de 53,3%. O avanço da longevidade aumenta também a
necessidade de compreender melhor as diferentes formas como o organismo
envelhece e de buscar estratégias cada vez mais individualizadas para
acompanhar esse processo.
O Brasil já conta com um exame pioneiro para esse tipo de avaliação, feito a
partir de uma amostra de sangue. O procedimento observa o comprimento dessas
estruturas e a presença de telômeros muito curtos. Os resultados são comparados
com referências para pessoas da mesma faixa etária, permitindo identificar se o
perfil encontrado está dentro do esperado ou apresenta características
associadas a um envelhecimento celular mais acelerado.“Isso não significa,
porém, que seja possível transformar o resultado em uma espécie de ‘idade real’
do organismo. O envelhecimento é um processo complexo, influenciado por
diferentes fatores, e não pode ser explicado por um único indicador”, reforça
Di Lazzaro.
Uma revisão publicada em 2025², Methods for the assessment of biological
age: a systematic review, analisou 56 estudos sobre diferentes formas de
avaliar a idade biológica e concluiu que ainda não existe uma única medida
capaz de representar todo o processo de envelhecimento.Outra abordagem mais
recente para estimar a idade biológica são os chamados relógios biológicos, que
utilizam diferentes marcadores para avaliar o processo de envelhecimento do
organismo.
Entre essas estratégias, estão metodologias que combinam informações obtidas a
partir de exames de rotina e outros indicadores clínicos. É nesse contexto que
se insere o Bortz Age, que utiliza dados de exames de rotina para
oferecer uma avaliação individualizada da idade biológica, ampliando a
compreensão sobre o envelhecimento para além da idade cronológica.“Estamos
começando a entender que não existe necessariamente um único relógio capaz de
traduzir toda a complexidade do envelhecimento.
Diferentes biomarcadores podem capturar diferentes dimensões desse processo. O
desafio é entender quais informações são realmente relevantes e como elas podem
ser utilizadas de maneira adequada na prática clínica”, afirma Di Lazzaro.Para
Maria Helane Gurgel Castelo, endocrinologista e diretora médica de Análises
Clínicas da Dasa, o resultado deve ser analisado dentro do contexto de cada
pessoa. “O envelhecimento é multifatorial e acontece de maneira diferente entre
os indivíduos.
A interpretação deve considerar o conjunto de informações clínicas e biológicas
de cada pessoa, permitindo uma avaliação mais individualizada e adequada ao
contexto de saúde de cada paciente. Por isso, o acompanhamento ao longo do
tempo pode ajudar a observar como esses parâmetros se comportam”, explica.
Referências:
- Understanding
physical aging in relation to biological aging, telomere length: A
systematic review (2025)
PubMed - Methods
for the assessment of biological age – A systematic review
(2025)
PubMed - IBGE
— dados populacionais por idade - IBGE
— Síntese de Indicadores Sociais 2025
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