Psicóloga explica quando a tecnologia fortalece vínculos e quando o excesso de redes sociais pode prejudicar o bem-estar e a saúde mental na terceira idade
A internet faz parte
da rotina de uma parcela expressiva dos idosos no Brasil. De acordo com o
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), pessoas com 60 anos ou
mais tiveram o maior crescimento no acesso à rede em 2025, chegando a 74,5%,
ante 70,1%, em 2024.
Na terceira idade,
a aposentadoria, a saída dos filhos de casa, as limitações de mobilidade e a
redução de algumas atividades presenciais podem modificar a maneira como uma
pessoa se relaciona com o mundo e estar conectado pode ser uma forma de
acompanhar a família, conversar com amigos que moram longe e manter interesses
ativos.
Mas o jeito como
esses recursos são utilizados também pode impactar o bem-estar. Um estudo
canadense publicado neste ano, na revista científica PLOS Global Public Health,
feito com 13,5 mil pessoas com 55 anos ou mais, encontrou uma associação entre
o uso de redes sociais e uma pior percepção da própria saúde mental. Em
contrapartida, o uso de e-mail apresentou associação positiva com a percepção
de saúde mental, indicando que diferentes meios de interação digital podem ter
impactos distintos.
É nesse cenário
que a tecnologia pode servir como ponte para manter relações e interesses ou,
quando passa a substituir outras experiências, contribuir para uma rotina cada
vez mais isolada.
De acordo com Thaís Cristina Bolonha Alexmovitz, profissional de psicologia do AmorSaúde, rede de clínicas parceiras do Cartão de TODOS, é importante compreender que a tecnologia não precisa ser vista como algo que compete com a vida real. "Quando utilizada de maneira equilibrada, ela pode justamente aproximar pessoas e facilitar a manutenção de vínculos significativos. Uma chamada de vídeo, por exemplo, não substitui necessariamente um abraço, mas pode diminuir a sensação de distância quando o encontro presencial não é possível".
Quando a
tecnologia deixa de ampliar a vida e passa a limitar a rotina
Na terceira idade,
a tecnologia pode cumprir uma função importante de participação social. Para
quem tem filhos, netos e amigos em outras cidades ou países, chamadas de vídeo
e aplicativos de mensagens ajudam a acompanhar a rotina de pessoas queridas e
manter vínculos mesmo à distância. A internet também pode abrir espaço para
cursos, grupos de interesse, entretenimento e novas formas de participação.
O risco começa
quando essa conexão passa a ocupar o lugar de experiências que antes faziam
parte da vida. Segundo Thaís, “o problema não está necessariamente na
quantidade de tempo diante na tela, mas principalmente na função que esse uso
passou a ocupar na vida da pessoa”.
Para a psicóloga,
alguns sinais indicam que a relação com o celular merece atenção: interferência
no sono, abandono de atividades de lazer, menor disposição para sair de casa,
prejuízos nos relacionamentos e necessidade constante de verificar mensagens,
curtidas ou notificações. O alerta também vale quando as redes sociais se
tornam praticamente a única fonte de companhia e entretenimento.
“Na terceira
idade, preservar uma rede de relações próximas é importante. Ter alguém para
conversar pessoalmente, fazer uma atividade juntos, tomar um café, caminhar ou
simplesmente compartilhar um momento cotidiano contribui para o sentimento de
pertencimento”, afirma Thaís.
Por isso, o equilíbrio não depende apenas de reduzir o tempo no celular. Algumas atitudes podem ajudar a manter a tecnologia como complemento, e não substituta, da vida presencial:
1) Usar o digital para aproximar quem está longe: chamadas de vídeo e mensagens podem manter a pessoa idosa presente na rotina de familiares e amigos;
2) Preservar compromissos fora das telas: caminhadas, cursos, hobbies, jogos e grupos de convivência ajudam a manter movimento, interesses e vínculos;
3) Criar momentos de presença: refeições e encontros podem ser oportunidades para deixar o celular de lado e priorizar a interação com quem está por perto;
Redes
sociais podem influenciar a forma de enxergar o envelhecimento
Além da quantidade
e da função do uso, o tipo de conteúdo consumido também merece atenção. Nas
redes sociais, é comum encontrar imagens de viagens, encontros familiares,
corpos, rotinas de exercícios, conquistas e estilos de vida apresentados como
referências de felicidade e realização.
Para uma pessoa
idosa, essa exposição pode interferir na percepção sobre a própria trajetória.
Isso ganha uma dimensão particular em uma sociedade que frequentemente associa
juventude à beleza, produtividade e disposição.
“Quando alguém
compara sua vida cotidiana com esse recorte editado da vida de outra pessoa,
pode chegar à conclusão de que está vivendo menos, que sua aparência não é
adequada ou que está envelhecendo de uma maneira ‘errada’”, afirma Thaís.
Esse tipo de
comparação pode atingir não apenas a aparência, mas também a percepção sobre
saúde, relações familiares, produtividade e até a maneira como a pessoa entende
o próprio envelhecimento. “A comparação constante pode alimentar sentimentos de
inadequação, tristeza, ansiedade e insatisfação com a própria trajetória”,
alerta a psicóloga.
De acordo com
Thaís, desenvolver um olhar crítico sobre o que aparece nas telas é importante,
uma vez que as redes sociais mostram apenas uma parte da vida de quem publica e
não devem ser utilizadas como medida para avaliar se uma pessoa está
envelhecendo bem ou levando uma vida satisfatória.
“Envelhecer na era
digital não significa ter de escolher entre estar conectado ou viver o
presente. É preciso aprender a utilizar a tecnologia de uma maneira que ela
esteja a serviço da vida, dos vínculos e do bem-estar, e não o contrário”,
afirma.
Como os familiares
podem ajudar a manter esse equilíbrio
Familiares também
podem contribuir para que a tecnologia seja uma ferramenta de conexão, e não a
principal forma de convivência da pessoa idosa. Thaís ressalta que o papel da
família não deve ser apenas restringir o acesso às telas, mas ajudar a ampliar
as possibilidades de convivência. Nestes casos, algumas ações podem ajudar:
- Convidar para
atividades presenciais: caminhadas, refeições, jogos, cursos,
passeios ou encontros com amigos;
- Incluir a pessoa
idosa nos programas familiares: momentos simples do cotidiano ajudam a
preservar o sentimento de pertencimento;
- Usar a tecnologia
como ponte: chamadas de vídeo e aplicativos de mensagens podem aproximar
familiares que moram longe, sem substituir os encontros quando eles são
possíveis;
- Respeitar
interesses e autonomia: incentivar atividades que tenham
significado para a própria pessoa, em vez de simplesmente determinar o que
ela deve fazer;
·
Observar mudanças de comportamento: redução da disposição
para sair de casa, abandono de atividades, isolamento e angústia relacionada ao
celular merecem atenção.

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