Ciclo de uso e abandono de medicamentos emagrecedores leva pacientes frustrados à cirurgia bariátrica como alternativa mais duradoura
O perfil de
quem busca tratamento para obesidade mudou. Se antes os consultórios médicos
recebiam pessoas que haviam tentado várias dietas sem sucesso, hoje a maioria
já passou também por um ou dois ciclos de canetas emagrecedoras e teve reganho
de peso, diz o cirurgião bariátrico César De Fazzio, diretor do ICD (Instituto
de Cirurgia Digestiva), em Brasília.
“Um ponto
que me preocupa muito é a origem do que esses pacientes usaram. Boa parte usou
por conta própria, com canetas que entraram no país de forma ilegal, compradas
no mercado paralelo, por rede social ou aplicativo de mensagem”, completa o
especialista. Ele ressalta, no entanto, que mesmo nos casos em que são
utilizados medicamentos seguros e em que há acompanhamento adequado, o paciente
pode retomar parte dos quilos perdidos. “O reganho é a regra, não a exceção”,
afirma o médico.
O fenômeno é
documentado pela literatura científica. Na extensão do estudo STEP 1, publicado
na revista Diabetes, Obesity and Metabolism, pacientes perderam em média 17,3%
do peso em 68 semanas de semaglutida e, um ano após a suspensão, haviam
recuperado dois terços de tudo que haviam perdido, terminando o período de
acompanhamento apenas 5,6% abaixo do peso inicial. No SURMOUNT-4, publicado no
JAMA em 2024, pacientes que interromperam a tirzepatida após perda média de
20,9% recuperaram 14% do peso em 52 semanas, e apenas 16,6% mantiveram pelo
menos 80% do resultado obtido.
A explicação
para isso é fisiológica. De Fazzio esclarece que cada indivíduo possui um ponto
de ajuste de peso — chamado de set point —, que o organismo tenta manter
com mecanismos hormonais potentes. Quando a pessoa emagrece, o corpo aumenta os
hormônios que estimulam a fome, reduz os que promovem saciedade e diminui o
gasto energético em repouso. Os fármacos ajudam a regular isso enquanto são
aplicados, mas não eliminam esse mecanismo. “No dia em que a caneta é suspensa,
principalmente de forma abrupta, essa pressão toda aparece de uma vez e o corpo
encontra o cenário mais favorável possível para recuperar o peso, com mais
facilidade e mais rapidez do que ele levou para perder”, explica.
Uma
metanálise com dados de mais de 1.500 pacientes identificou que o reganho
começa por volta de oito semanas após a suspensão e segue por cerca de 20
semanas até estabilizar. Uma revisão sistemática de 48 estudos concluiu que, um
ano após a interrupção, 60% de todo o peso perdido já havia retornado, com
projeção de estabilização em torno de 75%. E não é só o peso: pressão arterial,
glicemia e perfil lipídico seguem o mesmo caminho da balança.
As taxas de
abandono do tratamento reforçam esse quadro. Dados da literatura apontam
descontinuação em 46,5% dos pacientes com diabetes e 64,8% nos sem diabetes,
principalmente por custo elevado e efeitos gastrointestinais como náusea,
vômito, diarreia e, em casos mais sérios, pancreatite e formação de cálculos na
vesícula.
Quando a
cirurgia pode ser uma opção
Para o
paciente que chegou nesse ciclo de uso e abandono e tem indicação cirúrgica
clara, a cirurgia bariátrica oferece um mecanismo de ação fundamentalmente
distinto. Em vez de introduzir um hormônio sintético que imita a ação de dois
sinalizadores do organismo, o procedimento reorganiza a anatomia do trato
digestivo e estimula o próprio corpo a produzir seus hormônios em quantidade e
ritmo adequados.
“A medicação
é um hormônio sintético aplicado de fora. A cirurgia não imita nada. Ela faz o
próprio organismo do paciente voltar a se reequilibrar", resume De Fazzio.
Na prática, ao alterar o trajeto e a velocidade com que o alimento percorre o
intestino, o procedimento estimula células do intestino que estavam pouco
ativadas, elevando os picos de hormônios de saciedade e reduzindo o hormônio da
fome. Estudos avaliaram pacientes operados nove anos depois e ainda encontraram
gasto energético elevado e resposta hormonal de saciedade aumentada, o que
demonstra que a mudança é estrutural, não temporária.
Há ainda uma diferença clínica que o médico faz questão de explicar no consultório: com as canetas, a melhora das comorbidades associadas à obesidade, como diabetes tipo 2 e hipertensão arterial, costuma ser consequência do emagrecimento. Com a cirurgia, o ganho começa antes. “O paciente diabético frequentemente sai do hospital já com queda importante da glicemia e redução ou suspensão de medicação, ainda nos primeiros dias, quando mal perdeu peso”, afirma.
Apesar dos
benefícios para o organismo, De Fazzio alerta que o procedimento cirúrgico é
recomendado somente para casos específicos. “Nada disso significa que todo
mundo deve operar. A cirurgia tem indicação precisa e exige avaliação
criteriosa. O que eu combato é a ideia de que existe atalho. Obesidade é doença
crônica e o tratamento, seja qual for, precisa ser de longo prazo e conduzido
por quem entende do assunto”, finaliza.
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