Emprego e renda ainda sustentam cenário, mas piora nas expectativas, juros altos e endividamento limitam compras de maior valor
A Intenção de Consumo
das Famílias (ICF),
indicador mensurado mensalmente pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo
(FecomercioSP), recuou 1,2% em agosto. O índice caiu para 110,9
pontos, registrando a quinta queda mensal consecutiva e a mais intensa da
sequência iniciada em abril. Ainda assim, o indicador permaneceu acima da linha
de satisfação (100 pontos) e cresceu 4,4% em comparação com o mesmo período do
ano passado [gráfico 1].
[GRÁFICO
1]
Índice de
Intenção de Consumo das Famílias (ICF)
Série
histórica (13 meses)
Fonte:
FecomercioSP
Emprego sustenta consumo, mas lares ficam mais cautelosos
Na análise da FecomercioSP, o mercado de trabalho ainda aquecido continua sendo o principal fator de sustentação do ICF. O componente emprego atual variou apenas -0,4% no mês, para 141,3 pontos, mas avançou 6,3% em um ano e segue como o item de maior pontuação do indicador. A força do emprego ajuda a preservar a renda e a capacidade de pagamento familiar, evitando uma queda mais acentuada da intenção de consumo [tabela 1].
O principal sinal de cautela surge nas perspectivas para o futuro. A perspectiva profissional caiu 4,5%, no mês, e 10,5%, em um ano, ampliando a distância para o emprego atual. O resultado indica que, embora as famílias avaliem positivamente a sua situação profissional hoje, estão menos confiantes em relação a promoções, aumentos salariais e estabilidade no futuro, o que pode estimular a poupança por precaução e o adiamento de compromissos financeiros mais longos.
A renda atual recuou 1,3%, na
terceira queda mensal seguida, embora ainda esteja 2,8% acima de agosto de
2025. O acesso ao crédito, por sua vez, foi o único componente a avançar
no mês (0,8%), mas a melhoria na percepção de crédito disponível não significa
que o custo dos financiamentos tenha diminuído.
[Tabela
1]
Intenção de
Consumo das Famílias — componentes
Fonte:
FecomercioSP
Os resultados
mostram que emprego e renda ainda funcionam como amortecedores, mas os juros
altos, o endividamento e a cautela das famílias continuam limitando compras de
valor mais alto.
Melhor avaliação do presente
Também avaliado pela FecomercioSP, O Índice de Confiança do Consumidor (ICC) variou -0,6% em relação a julho, para 120,8 pontos, indicando que o consumidor paulistano segue relativamente confiante com o futuro, mas já começa a dar sinais de que as contas domésticas estão mais pressionadas no presente.
Ainda assim, a retração foi menor do que a queda de
2% registrada no mês anterior e manteve o indicador na zona de otimismo. Na
comparação com agosto do ano passado, o avanço foi de 8%, sinalizando que a
confiança permanece em nível elevado, embora com sinais de acomodação no ciclo
do consumo [gráfico 2].
[GRÁFICO
2]
Índice de
Confiança do Consumidor (ICC)
Série
histórica (13 meses)
Fonte:
FecomercioSP
Na leitura da FecomercioSP, o emprego e o alívio
recente da inflação ajudaram a melhorar a percepção sobre o momento presente.
Já a cautela em relação ao futuro reflete os pesos dos juros ainda altos e do
maior comprometimento da renda familiar com dívidas, fatores que tornam o
consumidor mais seletivo frente a compromissos de médio e longo prazos.
Portanto, ele não para de consumir, mas começa a planejar melhor, comparar
preços com mais frequência e adiar compras de valor mais alto.
O ICC é formado por dois subíndices, cujas leituras
foram divergentes em agosto. O Índice das Condições Econômicas Atuais (ICEA), que mede como o
consumidor avalia a situação econômica presente, avançou 0,5%, para 114,5
pontos, com melhoria entre famílias das duas faixas de renda, mulheres e
consumidores com menos de 35 anos.
Já o Índice de Expectativas do Consumidor (IEC), que capta as
perspectivas para o futuro próximo, caiu 1,3%, para 125 pontos. O resultado
indica que o paulistano está mais cauteloso quanto ao futuro [gráfico 3].
[GRÁFICO
3]
Índice das
Condições Econômicas Atuais (ICEA)
e de
Expectativas do Consumidor (IEC)
Série
histórica (13 meses)
Fonte:
FecomercioSP
Pessimismo entre os consumidores mais velhos
A queda do ICC foi mais intensa entre consumidores com 35 anos ou mais (-3%), enquanto os mais jovens variaram 0,8% no mês, com o maior resultado entre as faixas etárias. A diferença entre os grupos aumentou de 6 para 10,6 pontos. Entre os consumidores com mais idade, a confiança está mais sustentada pelas expectativas para o futuro do que pela percepção sobre o presente, o que sugere mais sensibilidade às mudanças econômicas e uma eventual piora da renda, do emprego ou do custo de vida [tabela 2].
Por renda, a confiança recuou entre os lares com até dez salários mínimos (-1,2%) e avançou entre as de maior renda (0,6%). O contraste aparece principalmente na avaliação das condições atuais, indicando que, embora as famílias de menor renda mantenham expectativas relativamente favoráveis, ainda sofrem mais pressão no orçamento diante dos preços, dos juros e das despesas essenciais.
Entre os homens, o
ICC caiu 1,8%, enquanto entre as mulheres variou 0,6%. Apesar de a confiança
masculina continuar mais alta, a diferença entre os grupos diminuiu de forma
significativa. No campo das expectativas, porém, o IEC dos homens cresceu 11,3%
em um ano, maior alta entre os segmentos, sinalizando que a cautela observada
em agosto ocorre mesmo com uma percepção mais positiva sobre o futuro.
[Tabela
2]
Índice de
Confiança do Consumidor (ICC) – segmentos
Fonte: FecomercioSP
A FecomercioSP
observa que, apesar da piora pontual em agosto, todas as segmentações
registraram alta no comparativo anual. O resultado mostra uma acomodação de
curto prazo da confiança, sem caracterizar uma reversão da melhoria observada
nos últimos 12 meses.
Impactos sobre o
varejo
O resultado de agosto constata que o consumidor paulistano segue otimista, mas mais seletivo e cauteloso, principalmente em relação ao futuro profissional e às compras de alto valor. O mercado de trabalho ainda sustenta emprego, renda e capacidade de pagamento, mas já não é suficiente para manter o consumo no mesmo ritmo, diante do crédito caro, do maior comprometimento da renda com dívidas e da pressão das despesas essenciais.
Para o varejo, esse quadro reforça um comportamento de consumo mais planejado, marcado por pesquisa de preços, comparação entre canais e mais seletividade. Segmentos que dependam de crédito e parcelamento tendem a enfrentar mais resistência. Nesse ambiente, também ganha importância a gestão prudente de estoques e de caixa, além da adaptação da oferta aos diferentes perfis de renda e idade.
O varejista que
compreender esse consumidor mais cauteloso e apresentar uma proposta de valor
clara estará mais preparado para passar por período de acomodação. Mais do que
apostar apenas em descontos, o momento exige acompanhar de perto a capacidade
financeira das famílias e a evolução da confiança, especialmente das
expectativas profissionais, que podem antecipar mudanças mais amplas no
comportamento de consumo.
O Panorama do Comércio de setembro traz
algumas orientações sobre como adotar estratégias para esse momento. Clique aqui para fazer o download
Nota
metodológica
ICC
O Índice de Confiança
do Consumidor (ICC)
é apurado mensalmente pela FecomercioSP desde 1994. Os dados são coletados com
aproximadamente 2,1 mil consumidores no município de São Paulo. O objetivo é
identificar o sentimento dos consumidores levando em conta suas condições
econômicas atuais e suas expectativas quanto à situação econômica futura. Esses
dados são segmentados por nível de renda, sexo e idade. O ICC varia de zero
(pessimismo total) a 200 (otimismo total). Sua composição, além do índice
geral, se apresenta como: Índice das Condições Econômicas Atuais (ICEA) e
Índice das Expectativas do Consumidor (IEC). Os dados da pesquisa servem como
um balizador para decisões de investimento e para formação de estoques por
parte dos varejistas, bem como para outros tipos de investimento das empresas.
ICF
O Índice de Intenção de Consumo das Famílias (ICF) é apurado mensalmente pela FecomercioSP, desde janeiro de 2010, com dados de 2,2 mil consumidores no município de São Paulo. O ICF é composto por sete itens: Emprego Atual; Perspectiva Profissional; Renda Atual; Acesso ao Crédito; Nível de Consumo; Perspectiva de Consumo; e Momento para Duráveis. O índice vai de zero a 200 pontos, sendo que abaixo de cem pontos é considerado insatisfatório, e acima de cem pontos, satisfatório. O objetivo da pesquisa é ser um indicador antecedente de vendas do comércio, tornando possível — a partir do ponto de vista dos consumidores e não por uso de modelos econométricos — que seja uma ferramenta poderosa para o varejo, para os fabricantes, para as consultorias, assim como para as instituições financeiras.
FecomercioSP





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