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segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Falamos 30% menos. O que isso está fazendo com as lideranças?

Fonoaudióloga explica como o desaparecimento das microconversas pode estar enfraquecendo a cultura das empresas


Um estudo recente publicado na Perspectives on Psychological Science mostrou que uma pessoa comum fala hoje 12.792 palavras por dia. Em 2007 eram 15.959. Ou seja, pessoas falam hoje cerca de 30% menos do que falavam há duas décadas. A queda está associada à expansão da chamada economia da conveniência, que substituiu inúmeras interações presenciais por aplicativos, autoatendimento e comunicação digital. 

A pesquisa, conduzida por Valeria Pfeifer, da Universidade do Missouri-Kansas City, e Matthias Mehl, da Universidade do Arizona, reuniu dados de 22 estudos entre 2005 e 2019, com quase 2.200 participantes. Entre os jovens com menos de 25 anos, a queda foi 44% maior do que entre os adultos mais velhos. Embora o dado pareça um fenômeno social amplo, seus impactos podem estar chegando de forma cada vez mais evidente ao ambiente corporativo. Para Juliana Algodoal, fonoaudióloga especialista em comunicação corporativa e linguagem no trabalho, o problema não está apenas na redução das palavras, mas na diminuição dos espaços de conversa que sustentam confiança, escuta, colaboração e pertencimento dentro das organizações. 

"Estamos observando uma redução das relações de fala. Quando isso acontece, as conexões sofrem impacto. E uma liderança sem conexão perde capacidade de gerar empatia, alinhamento e coesão dentro das equipes", afirma Juliana. Ainda segundo a especialista, a queda das conversas dentro das empresas favorece o aumento das dificuldades de coesão dentro de uma equipe. “Some a leitura de sinais não verbais como hesitação, alegria ou desconforto durante o trabalho. Isso mexe direto na conexão do time e pode até afetar a saúde mental de quem para de ser ouvido”, destaca. 

O tema ganha relevância em um momento em que muitas empresas discutem produtividade, trabalho híbrido, engajamento e saúde mental. Para Juliana, existe um risco ainda maior de as organizações confundirem informação com comunicação. “Um estudo do Instituto Reciclar apontou a comunicação como o maior problema dentro das empresas hoje, citado por 83% dos entrevistados. O papel da liderança nesse cenário é direto. O líder tem que ter escuta e fala eficiente para ser considerado um bom líder e sem interações entre o time isso fica ainda mais difícil”, diz. 

Por isso, um ponto de atenção, de acordo com Juliana, é o desaparecimento das chamadas microconversas, aquelas trocas rápidas de corredor, café ou intervalo que historicamente ajudaram a construir vínculos de confiança entre colegas de trabalho e seus líderes. "Quando as pessoas deixam de viver essas pequenas interações, perdem repertório social, vocabulário e capacidade de lidar com diferentes perfis. O impacto aparece depois na colaboração, no pertencimento e na qualidade das relações de trabalho", diz. Nesse sentido, na avaliação da especialista, a próxima competência crítica das lideranças não será apenas comunicar melhor, mas recriar ambientes onde as conversas possam voltar a acontecer. 

"A liderança precisa reservar espaço para a escuta, para as trocas espontâneas e para as conversas que não surgem apenas quando há uma demanda urgente. Comunicação não é apenas transmitir informação. É construir conexão", explica Juliana. 

Para a especialista, o desafio é ainda mais relevante porque a redução das conversas não acontece apenas dentro das empresas. Ela reflete uma transformação mais ampla da sociedade, impulsionada pela tecnologia e pela busca constante por eficiência. "As relações de confiança acontecem no ato de falar e ouvir. Quando as oportunidades de conversa diminuem, também diminuem as oportunidades de entender o outro, criar vínculos e desenvolver empatia", afirma. 

Na prática, Juliana acredita que as organizações precisarão voltar a valorizar momentos de interação que durante anos foram vistos como improdutivos. Conversas informais, trocas de corredor, encontros presenciais e espaços de escuta podem se tornar ativos estratégicos para fortalecer cultura, engajamento e colaboração. "Estamos economizando minutos de conversa, mas podemos estar perdendo algo muito mais valioso, que é a capacidade de construir relações. Comunicação não é apenas uma ferramenta de gestão. É o que sustenta confiança, alinhamento e pertencimento dentro dos times", conclui.

 

Juliana Algodoal - Considerada uma das maiores especialistas em Comunicação Corporativa do país, Juliana Algodoal é PhD em Análise do Discurso em Situação de Trabalho – Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem e fonoaudióloga pela PUC/SP e fundadora da empresa Linguagem Direta. Ao longo de 37 anos de carreira, Juliana já apoiou quase 11 mil profissionais tendo como foco nos últimos seis anos a alta liderança. Com o desenvolvimento de projetos que buscam aprimorar a interlocução no ambiente empresarial, já atuou para a BASF, Porto Seguro, Novartis, Pfizer, Aché, Itaú, Citibank, Unimed Nacional, Samsung, dentre outras. É coautora do livro Thought Leadership: muito além da influência e membro do conselho de administração da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia, que também já presidiu.

 

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