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Chegou,
aquela época do ano, a que provavelmente vai causar alvoroço na Ceia de Natal
de muita gente. Mas será que dá para dividir a casa, a cama e a vida com alguém
que vai apertar um número completamente diferente do seu na urna?
A menos
de três semanas do primeiro turno das eleições de 2026, marcado para 4 de
outubro, a política volta a ocupar não apenas as redes sociais
e as discussões familiares, mas também os relacionamentos.
Uma
pesquisa da Hibou Pesquisas e Insights, realizada entre 1º e 4 de setembro com
1.449 eleitores brasileiros maiores de 18 anos, revelou que 67% já
votaram em um candidato diferente daquele escolhido pelo parceiro ou parceira.
Ao
mesmo tempo, 85% defendem que o voto deve continuar sendo uma decisão individual,
mesmo quando existe divergência dentro do relacionamento.
Para Caio
Bittencourt, especialista em comportamento afetivo e porta-voz do MeuPatrocínio,
os números mostram algo interessante: brasileiros aceitam melhor uma diferença
política dentro de um relacionamento já estabelecido do que no momento de
escolher uma nova pessoa.
“Existe
uma diferença enorme entre descobrir que a pessoa que você ama há cinco anos
pensa diferente de você e descobrir isso em cinco minutos olhando um perfil.
Mas se você está no primeiro caso em que depois de 3 anos de relacionamento
percebeu que vocês têm opiniões diametralmente opostas, isso foi um erro
cometido na largada. Lá atrás, assuntos importantes foram evitados e verdades
maquiadas pelo bem do romance. Mas isso não se sustenta. Por isso, a geração Z
prefere relacionamentos hipergâmicos, onde há transparência desde o início.
Nada é tabu, é uma geração que prioriza seus valores, e não tem medo de dizer
isso em voz alta para quem quer que seja.”
Política virou
critério de compatibilidade
Um
levantamento sobre comportamento de solteiros divulgado pela CNN Brasil mostrou
que 41% afirmavam que não namorariam alguém com opiniões políticas opostas,
enquanto 46% ainda considerariam essa possibilidade.
Entre
as mulheres entrevistadas, a abertura para se relacionar com alguém
politicamente oposto era consideravelmente menor do que entre os homens.
Bittencourt
acredita que isso acontece porque, para muitas pessoas, política deixou de
representar apenas uma preferência eleitoral.
“Hoje,
quando alguém (audaciosamente e geralmente preocupado) pergunta sua posição
política, muitas vezes não está interessado apenas em saber em quem você vota.
A pessoa está tentando descobrir rapidamente quais são seus valores, como você
enxerga dinheiro, família, comportamento, direitos individuais e até como
provavelmente vai educar os filhos. E até aí é saudável, mas entenda, nem
sempre isso vai ser ciência exata. O problema é que esse atalho nem sempre
funciona. Duas pessoas podem votar diferente e concordar em quase tudo que
interfere diretamente na relação. E duas pessoas podem votar igual e serem
completamente incompatíveis na vida real. A triste realidade é que vivemos em
um país onde foi criada a cultura do lado A versus o lado B, e isso está
matando o amor, não só o romântico, mas também o fraternal, amigos e etc.”
Dentro dos
relacionamentos, o voto continua individual
Outro
levantamento, realizado pelo Datafolha em julho de 2026, ajuda a mostrar essa
separação.
Entre
brasileiros que mantêm relacionamento estável, 60% afirmaram que a opinião
do companheiro ou companheira não teria nenhuma influência em seu voto para
presidente.
Para
Bittencourt, o dado desmonta uma ideia comum de que casais necessariamente
formam um “bloco político”.
“Relacionamento
saudável não significa duas pessoas pensando igual sobre absolutamente tudo.
Existe uma diferença entre compatibilidade e cópia. Você pode admirar alguém,
construir uma vida juntos e ainda assim discordar profundamente sobre uma
eleição. Como eu sempre digo no meio artístico, é necessário separar o artista
de sua obra.” Diz Caio, rindo.
O
especialista faz, porém, uma ressalva: divergências se tornam mais difíceis
quando passam da preferência por candidatos e atingem valores considerados
essenciais por uma das partes.
“Discordar
sobre política econômica é uma coisa. A discussão muda quando uma posição
política toca diretamente em algo que a pessoa considera parte da própria
identidade ou dos seus direitos. Nesse ponto, deixa de ser só uma conversa
sobre candidato. Vira conversa sobre valores.”
A eleição também
deve aparecer nos primeiros encontros
Com a
campanha entrando na reta final e pesquisas mostrando uma disputa presidencial
apertada, é provável que o assunto apareça cada vez mais cedo nas conversas
entre solteiros. Levantamentos divulgados nesta semana mostram os principais
candidatos próximos nas simulações eleitorais, especialmente em cenários de
segundo turno.
E, para
Bittencourt, tentar esconder completamente o assunto pode não ser a melhor
estratégia.
“Se
posição política é algo realmente importante para você, é melhor descobrir
cedo. O que não faz sentido é transformar o primeiro encontro em um debate
presidencial ou tratar qualquer divergência como prova automática de
incompatibilidade. No momento em que vivemos isso é difícil, eu sei, mas é
possível se feito com amor. Se a conversa pesar, desconverse. E aí você
aprendeu que talvez essa pessoa do outro lado não seja pra você.
Inflexibilidade, certeza sobre tudo é medo. Todo mundo que é assim sente medo
de mudar suas crenças, a realidade do seu pensamento. Talvez esse tipo não seja
o ideal para você.”
No
universo dos relacionamentos sugar, segundo o MeuPatrocínio, conversas sobre
expectativas costumam acontecer de maneira mais direta desde o início. Para
Bittencourt, a lógica também pode ajudar quando o assunto é política.
“Você
não precisa fazer um questionário ideológico antes de pedir o primeiro drink.
Mas clareza economiza tempo. Se determinada visão de mundo é indispensável para
você, fingir que ela não importa só adia uma conversa que vai acontecer em
algum momento.”
O amor sobrevive à eleição?
Para o
especialista, provavelmente sim.
“Eleição
acaba. Relacionamento, se for forte, continua. O desafio é descobrir se vocês
estão discordando sobre um candidato ou se estão discordando sobre valores
fundamentais da vida, ou compensando alguma outra coisa nisso. São coisas bem
diferentes. Lembrem-se de que o equilíbrio sempre esteve no meio e nunca nos
extremos.”

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