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A ideia de que a harmonização facial pode seguir
uma mesma lógica para qualquer idade vem sendo questionada pela própria
evolução da anatomia do rosto. Ao longo das décadas, pele, gordura, musculatura
e estrutura óssea passam por transformações diferentes e, por isso, a indicação
de procedimentos também precisa mudar.
Dados mais recentes divulgados em 2025 pela
International Society of Aesthetic Plastic Surgery (ISAPS) mostram a dimensão
da procura por procedimentos estéticos não cirúrgicos. No ano anterior, foram
realizados mundialmente mais de 20,5 milhões desses procedimentos por
cirurgiões plásticos. A toxina botulínica foi o procedimento não cirúrgico mais
realizado, com cerca de 7,9 milhões de aplicações, seguida pelo ácido
hialurônico, com 6,3 milhões. No Brasil, o levantamento contabilizou 351 mil
procedimentos com toxina botulínica e 176 mil com ácido hialurônico.
A variedade de recursos disponíveis, no entanto,
não significa que eles possam ser aplicados da mesma maneira em todos os pacientes.
Nesse cenário, a idade é apenas um dos fatores considerados na avaliação.
Genética, exposição solar, estilo de vida e características individuais também
interferem na forma como o rosto envelhece e a estratégia deve acompanhar as
transformações anatômicas de cada fase da vida.
Dos 20 aos 30 anos, o foco é
preservar
“Aos 20 anos, trabalhamos com a prevenção, refinando
traços naturais ou suavizando detalhes de simetria sem intervir na estrutura. A
partir dos 30, quando a produção natural de colágeno começa a declinar, a
estratégia passa a ser a manutenção da qualidade da pele e a prevenção da perda
de firmeza”, explica a Dra. Larissa Fabbri Prioli, cirurgiã plástica,
professora de Medicina Regenerativa da UNIFESP e consultora do DMC Group.
Na faixa dos 20 anos, portanto, a abordagem tende a
ser mais voltada à preservação das características naturais do rosto. Eventuais
assimetrias ou detalhes específicos podem ser avaliados, mas a proposta é
evitar intervenções que alterem a estrutura facial sem uma necessidade clara.
A partir dos 30, a atenção se volta
progressivamente para a qualidade da pele e a manutenção da firmeza. É também
nessa fase que a produção natural de colágeno começa a diminuir gradativamente,
fazendo com que a estratégia passe a priorizar a preservação daquilo que o
rosto já apresenta, em vez da criação de novos volumes.
Essa lógica também ajuda a explicar por que não
existe uma idade única considerada ideal para começar a realizar procedimentos.
O momento adequado depende da avaliação individual e do surgimento de
necessidades específicas. Do ponto de vista preventivo, porém, a faixa dos 25
aos 30 anos pode marcar o início de alguns cuidados.
“O processo de envelhecimento varia bastante
conforme a genética, o estilo de vida, a exposição solar e os hábitos do
paciente. No entanto, do ponto de vista preventivo, o cuidado costuma começar
por volta dos 25 a 30 anos, período em que o organismo reduz gradativamente a
síntese endógena de colágeno. O objetivo nessa fase não é modificar feições nem
exagerar em preenchimentos, mas preservar a arquitetura facial original e adiar
o aparecimento de sinais mais profundos do tempo”, explica a médica.
Entre os recursos que podem integrar protocolos
preventivos estão a toxina botulínica, os bioestimuladores de colágeno e
procedimentos voltados à hidratação profunda da pele, como o skinbooster. A
escolha depende das características e necessidades de cada paciente, com foco
na qualidade cutânea.
Aos 40 e 50 anos, a estratégia
muda
A partir dos 40 anos, as transformações passam a
envolver não apenas a pele, mas também estruturas mais profundas, como explica
a Dra. Larissa.
“Aos 40 anos, surgem as primeiras perdas evidentes
de volume em coxins de gordura e leve reabsorção óssea, demandando
procedimentos de sustentação para reposicionar tecidos. Já a partir dos 50
anos, enfrentamos um cenário de reabsorção óssea mais acentuada, flacidez
tissular marcante e rugas estáticas profundas. Nessa fase, a harmonização atua
reestruturando a base da face e devolvendo suporte e volume perdidos,
frequentemente integrada a tratamentos cirúrgicos para obter um resultado
natural e harmônico”.
Essa mudança também altera a lógica da avaliação.
Em vez de analisar apenas a aparência da pele ou a presença de rugas isoladas,
o médico passa a observar o rosto como um conjunto, considerando a relação
entre suas diferentes estruturas e a forma como elas se modificaram ao longo do
tempo.
Isso é particularmente importante porque nem toda
alteração percebida no rosto deve ser tratada com preenchimento ou com
procedimentos injetáveis. Dependendo do grau de flacidez e das mudanças
estruturais, insistir em uma abordagem exclusivamente não cirúrgica pode não
produzir o resultado esperado. A avaliação individualizada permite definir
quando uma intervenção minimamente invasiva é suficiente e quando outras
estratégias podem ser mais adequadas.
A partir daí, a noção de “harmonização” também
deixa de estar associada à simples adição de volume. O objetivo passa a ser
preservar proporções, respeitar as características originais do rosto e
considerar o conjunto de alterações provocado pelo envelhecimento, evitando que
a tentativa de corrigir um sinal isolado produza um resultado artificial.
Prevenir ou corrigir? O rosto
em repouso ajuda a indicar o caminho
Uma das diferenças importantes entre prevenção e
tratamento está na forma como os sinais aparecem. A análise do rosto em
movimento e em repouso ajuda o médico a identificar se determinada alteração
está relacionada principalmente à atividade muscular ou se já existe uma
modificação estrutural.
“Se as linhas aparecem apenas nas expressões, o
foco é a prevenção; se já persistem com o rosto relaxado, acompanhadas por
perda de volume ou sustentação, entramos na fase corretiva”, afirma a
especialista.
A decisão, entretanto, não deve ser determinada
apenas pela presença de um sinal de envelhecimento. O desconforto do próprio paciente
também faz parte da avaliação. Uma alteração anatômica não significa,
necessariamente, que exista indicação para tratá-la.
“A presença de um sinal ou alteração não obriga a
realização de um tratamento se aquilo não afetar o seu bem-estar e a sua autoestima”,
destaca Larissa. “A decisão final surge na consulta, quando alinhamos a
indicação médica àquilo que realmente faz sentido e traz conforto para quem
está sendo atendido.”
Na prática, a presença de um sinal de
envelhecimento não significa que ele precise ser tratado. A decisão depende
também de quanto aquela alteração incomoda o paciente e de quais são suas
expectativas em relação ao procedimento. Por isso, a avaliação médica é
fundamental para definir se existe indicação de intervenção e quais resultados
são, de fato, possíveis em cada caso.
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