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terça-feira, 11 de agosto de 2026

O “Efeito Tesoura” pressiona mensalidades e rematrículas das Escolas Particulares em 2026 e 2027

Pesquisa nacional mostra que 98,90% das escolas particulares terão reajuste; custos obrigatórios avançam, enquanto atrasos e inadimplência retiram até 5% da receita esperada pelas instituições.

 

 

O dado mais importante sobre as mensalidades escolares de 2027, não está apenas no percentual de reajuste. Está na distância crescente entre o dinheiro que as escolas precisam desembolsar e o valor que efetivamente entra no caixa.

 

De acordo com a nova pesquisa nacional da Meira Fernandes, 98,90% das instituições particulares pretendem reajustar suas mensalidades para 2027, sendo que 80,66% projetam um aumento entre 7% e 11%. Ao mesmo tempo, 46,96% das escolas enfrentam atrasos superiores a 5% nos pagamentos e 42,22% já estimam carregar inadimplência para a virada do ano em até mais de 10%.

 

A combinação cria o que os especialistas da Meira Fernandes classificam como “efeito tesoura”: de um lado, crescem a folha salarial, obrigações legais, investimentos pedagógicos, inclusão, segurança digital e adequações administrativas; do outro, parte da receita mensal chega atrasada ou simplesmente deixa de entrar.

 

O resultado é que as mensalidades de 2027 começam a ser definidas não apenas como um reajuste anual, mas como uma ação real para, minimamente, recompor um orçamento submetido a custos simultâneos e permanentes.

 

A pesquisa foi realizada pela Meira Fernandes, empresa especializada em gestão e soluções para instituições de ensino, que assessora cerca de 1.500 escolas particulares. O levantamento ouviu mantenedores, diretores e gestores financeiros de escolas localizadas em 08 estados: Ceará, Maranhão, Mato Grosso, Minas Gerais, Paraná, Roraima, Santa Catarina e São Paulo - responsáveis conjuntamente por aproximadamente 120.000 matrículas.

 


O NÚMERO QUE MUDA A PAUTA

 

O principal ponto revelado pelo estudo, realizado pelo quinto ano consecutivo, é que 9 em cada 10 escolas devem elevar e tentar recompor suas mensalidades em 2027.

 

Entre as instituições pesquisadas:

 

11,60% projetam reajuste entre 1% a 7%;


36,46% estimam aumento entre 7% a 9%;


44,20% estimam aumento entre 9% e 11%;


7,18% podem ultrapassar a marca de 12%;


Apenas 0,5% afirmam que não haverá reajuste.

 

Mais do que demonstrar uma tendência de preço, os percentuais revelam o nível de pressão enfrentado pelas instituições antes mesmo do início do novo ano letivo – pressão esta, que já é sentida desde o começo de 2026 e que vem se avolumando significativamente nas secretarias e áreas de atendimento das escolas pelo Brasil.

 

“Quando olhamos apenas para o índice final da anuidade, não vemos todo o caminho percorrido até que a escola chegue aquele número. O reajuste é a última linha de uma planilha que começou a ser estudada muitos meses antes, por folha salarial com reajuste médio de 6,95% em junho, obrigações legais, educação especial, tecnologia, segurança com o Eca Digital e receitas que não entram no prazo esperado”, afirma Dra. Mabely Meira Fernandes, Diretora Jurídica da Meira Fernandes.

 


AS ESCOLAS GASTAM SOBRE 100% DO ORÇAMENTO, MAS RECEBEM MENOS 

A pesquisa mostra que o problema não está somente no aumento das despesas, está também na instabilidade dos recebimentos.

 

Durante o primeiro semestre de 2026:

 

51,93% das escolas registraram atrasos entre 2% a 5%;


15,19% tiveram atrasos entre 0,5% a 2%;


17,62% informaram atrasos superiores a 5%;


No total, 100% das escolas pesquisadas convivem com um desfalque mensal considerado relevante.

 

Na prática, a escola precisa pagar 100%: da folha, dos encargos, dos fornecedores e dos custos pedagógicos mesmo quando recebe apenas uma parte da receita prevista para aquele mês.

 

“O atraso não reduz a obrigação da escola. O salário precisa ser pago integralmente, os encargos têm vencimentos, os fornecedores não esperam e o aluno precisa encontrar toda a estrutura funcionando. A instituição assume compromissos sobre 100% do orçamento, mesmo quando uma parcela importante das mensalidades ainda não entrou”, explica Husseine Fernandes, Sócio-Diretor da Meira Fernandes.

 

A situação tende a se intensificar na virada do ano. Segundo a pesquisa, 21,67% das instituições projetam inadimplência acima de 6% entre 2026 e 2027. Destas, 16,67% estimam inadimplência entre 5% a 9% e 5% acreditam que o percentual poderá superar 9,10% ou mais – o que é um número bastante expressivo.

 

CUSTOS INVISÍVEIS QUE NÃO APARECEM NA COMPARAÇÃO COM A INFLAÇÃO 

A pesquisa também investigou quais fatores muitas vezes invisíveis estão ampliando as despesas das instituições, fatores estes que nunca são levados em conta quando a recomposição da mensalidade é comparada diretamente com o índice anual de inflação e entre os principais impactos apontados pelas escolas estão:

 

Folha salarial e convenções coletivas: que teve um aumento direto de 6,95% para professores e auxiliares da educação básica (pelo menos no estado de SP que possui a maior quantidade de escolas particulares do Brasil), foi fechada em março e já aplicada em junho, com um aumento de quase 1% comparado a 2025, que foi de 6,0%.

 

A inclusão e atendimento especializado tem sido foco de investimentos constantes das escolas para atender demandas, exigências legais, o que se agravou com o decreto 12.686/2025, sentenças e também o acolhimento e o direito de crianças/adolescentes a uma educação justa e de qualidade.

 

No total 90,06% das escolas registraram crescimento na demanda de alunos que necessitam de acompanhamento individualizado, formação específica das equipes, adaptação de materiais ou ampliação de profissionais.

 

Segurança e cidadania digital: 6,08% tiveram que investir em revisão de documentos, treinamento, ferramentas, comunicação com as famílias, prevenção ao cyberbullying, proteção de dados e procedimentos relacionados ao ambiente digital e o ECA Digital que passou também a fazer parte do dia a dia das escolas no primeiro semestre. A responsabilidade já existe e a possibilidade de sanções são reais, o cumprimento não é optativo.

 

Contratação de profissionais especializados: 16,57% indicaram novos gastos ou necessidade de planejamento para poder contar com profissionais mais especializados em seus quadros e prover o serviço de educação adequado.

 

Custo Turnover x Mão de obra: 28,18% afirma estar encontrando sérias dificuldade em contratar mão de obra e sofrendo com os custos legais da rotatividade, treinamento, tempo de adaptação e outros.

 

Somados, esses custos invisíveis que não são aferidos na ponta na hora de se analisar o índice de recomposição, transformam despesas que antes eram somente pontuais em custos estruturais, incorporados definitivamente à operação da escola.

 

INCLUSÃO EXIGE ESTRUTURA, NÃO APENAS MATRÍCULA 

Um dos pontos mais sensíveis do levantamento está relacionado ao crescimento das demandas da educação especial.

 

Segundo as escolas pesquisadas, 33,15% registraram aumento de 5% a mais de 10% no número de alunos que demandam acompanhamento ou adaptações específicas. Em 90,06% das instituições, esse crescimento já impacta diretamente a folha salarial ou o custo operacional.

 

Entre as medidas adotadas estão a contratação ou disponibilização de profissionais, capacitação de professores, adaptações pedagógicas, revisão de processos, materiais individualizados e acompanhamento especializado.

 

“Inclusão não pode ser tratada como uma palavra abstrata ou apenas como o ato de aceitar uma matrícula. Para que seja efetiva, exige pessoas, formação, planejamento, estrutura e acompanhamento. Tudo isso tem impacto financeiro, embora muitas vezes esse custo não seja percebido pelas famílias ou pela sociedade, ele é real e precisa ser olhado com a mesma atenção que o atendimento”, destaca Dra. Mabely.


 

EDUCAÇÃO ESPECIAL: MENSALIDADE NÃO COBRE INTEGRALMENTE OS CUSTOS DE 86% DAS ESCOLAS 

A educação especial também é uma pressão financeira que a mensalidade atual não consegue absorver integralmente na grande maioria das instituições pesquisadas.

 

Entre as todas as escolas pesquisadas, 86,19% afirmam que o valor das mensalidades não cobre integralmente os recursos necessários para a educação especial. Desse total, 46,96% dizem que a mensalidade efetivamente não cobre esses custos, enquanto 39,23% avaliam que ela cobre apenas parcialmente despesas como equipe especializada, treinamentos e demais recursos envolvidos no atendimento aos alunos.

 

Apenas 7,18% das instituições afirmam que as mensalidades cobrem totalmente os custos da educação especial. Outras 6,63% nunca realizaram esse cálculo, o que indica que parte das escolas ainda não conhece com precisão o impacto financeiro dessas demandas em sua operação.

 

Os números revelam um desafio que vai além da matrícula: garantir uma educação efetiva exige profissionais, capacitação, planejamento e recursos permanentes. Quando esses custos não estão plenamente contemplados na mensalidade, a escola precisa absorver a diferença, realocar verbas de outras áreas ou incorporar essa pressão ao planejamento financeiro do próximo ano.

 

“O dado mostra que a educação especial não pode ser analisada apenas sob o ponto de vista da matrícula. Em mais de oito a cada dez instituições, a mensalidade não cobre integralmente os recursos necessários para oferecer esse atendimento. Existe uma diferença entre acolher o aluno e possuir estrutura financeira para garantir, de forma contínua, todos os profissionais, treinamentos e adaptações envolvidos”, afirma Husseine Fernandes, Sócio-Diretor da Meira Fernandes.

 

A REMATRÍCULA VIRA DISPUTA PELO EQUILÍBRIO FINANCEIRO 

A pressão não acaba por aí - ela também aparece nas metas de retenção de alunos e na disputa cada vez mais acirrada por alunos, e um dado impactante é que atualmente a quantidade de nascimentos diminui drasticamente – estamos em patamares da década de 70 - enquanto novas escolas continuam a abrir portas e disponibilizar carteiras para serem ocupadas. Consequentemente a captação e rematrícula tem sido citada, informalmente, pelas donas de escolas como um dos principais gargalos de gestão.

 

Como consequência o estudo apontou que até novembro de 2026:

 

71,82% das escolas pretendem alcançar entre 70% e 95% de rematrículas;


16,57% projetam chegar entre 40% e 70%;


Apenas 2,76% acreditam que terão alcançado 100% do quadro para 2027 e;


8,84% poderão chegar ao fim do período com menos de 40% de rematrículas.

 

O calendário das campanhas também vem sendo antecipado. A necessidade de previsibilidade financeira faz com que algumas instituições já iniciem a rematrícula no primeiro semestre ou já nas primeiras semanas de agosto na volta às aulas, mesmo antes das famílias começarem tradicionalmente a planejar o ano seguinte e visualizarem o esperado 13º salário.

 

“Rematrícula deixou de ser apenas uma campanha comercial. Tornou-se uma ferramenta de sobrevivência financeira. Quanto mais tarde a escola conhece sua base de alunos para o próximo ano, menor é sua capacidade de planejar equipes, turmas, investimentos e compromissos”, completa Husseine Fernandes.

 


REAJUSTE NÃO SIGNIFICA SOBRA NO CAIXA 

Para o time de especialistas responsáveis pelo estudo, um dos maiores erros na análise das mensalidades escolares é presumir que o reajuste se transforma automaticamente em aumento de margem ou lucro.

 

Parte relevante do índice é consumida antes mesmo do início do ano letivo pela recomposição salarial, encargos, benefícios, custos regulatórios, investimentos pedagógicos, perdas provocadas pela inadimplência e custos invisíveis ou impostos por novas regulamentações do governo.

 

“A comparação direta entre mensalidade e inflação é incompleta porque a inflação geral não reproduz a estrutura total de custos de uma escola. Educação é uma atividade intensa de pessoas, submetida a convenções coletivas, obrigações legais e exigências pedagógicas próprias. O termo mais correto, em grande parte dos casos, é recomposição como trazemos acima para análise e conversas”, afirma Dra. Mabely.

 

A especialista reforça que o debate não deve ignorar o impacto para as famílias, mas precisa considerar também a sustentabilidade da instituição:

 

“Famílias e escolas estão sempre do mesmo lado. Ambas querem continuidade, segurança, qualidade e desenvolvimento para os alunos. Esse é o DNA e a paixão das Donas de Escolas - a transparência sobre os custos é o caminho para que o reajuste não seja percebido como uma decisão isolada, mas como parte da manutenção do projeto educacional que impacta nosso futuro enquanto nação”, conclui.

 

SOBRE A PESQUISA: 

Este é o 5º ano consecutivo em que a Meira Fernandes realiza sua pesquisa sobre mensalidades, matrículas, rematrículas, atrasos e inadimplência no segmento educacional.

 

O levantamento foi realizado entre 11 de junho e 03 de agosto de 2026, de forma PRESENCIAL/DIGITAL, com escolas de diversos estados brasileiros. As instituições participantes são responsáveis por aproximadamente 120.000 alunos matriculados.

 

O questionário foi direcionado principalmente a mantenedoras, diretoras e profissionais responsáveis pelas áreas administrativa e financeira das escolas particulares. 

 

 
  



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