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segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Desempenho dos estudantes no Enade e Enamed reflete a gestão acadêmica


O pesquisador e especialista em avaliação acadêmica e gestão da educação superior, Alexandre Nicolini, afirmou hoje em São Paulo que “embora os resultados obtidos pelos estudantes em avaliações como o Enade, o Enamed e a Prova Nacional Docente (PND) costumem provocar uma corrida das IES em busca de explicações para notas abaixo do esperado, o foco da análise nem sempre está no lugar certo”. Para Nicolini, “esses indicadores avaliam muito mais do que o desempenho individual dos estudantes: eles refletem a qualidade da formação construída ao longo de todo o curso a partir do modelo de gestão adotado por muitas instituições”. 

Segundo Nicolini, quando um curso apresenta resultados insatisfatórios, a primeira pergunta não deveria ser o que aconteceu com os alunos, mas como a instituição conduziu o processo de formação. “O desempenho do estudante é consequência de um conjunto de decisões acadêmicas tomadas durante toda a graduação", afirma Nicolini. 

O pesquisador afirma que um dos erros mais comuns é acreditar que um bom curso resulta apenas da soma de bons professores e de disciplinas bem planejadas. "Um curso não é um conjunto de componentes curriculares independentes. Ele precisa funcionar como um sistema. Se cada disciplina define seus próprios objetivos, métodos e formas de avaliação sem articulação com as demais, ninguém consegue garantir que as competências previstas para o egresso estejam sendo desenvolvidas de forma consistente", explica. 

Na avaliação de Alexandre Nicolini, um dos principais fatores que compromete os resultados é o modelo de gestão adotado por muitas instituições: “A coordenação de curso frequentemente concentra esforços em atividades administrativas e operacionais, deixando em segundo plano aquilo que realmente impacta a aprendizagem. Gestão acadêmica não é controlar calendário, preencher relatórios ou organizar reuniões. É coordenar decisões, acompanhar evidências, promover integração entre docentes, monitorar o desenvolvimento das competências e agir rapidamente quando os indicadores mostram que a formação não está produzindo os resultados esperados", ressalta. 

O especialista também chama a atenção para a necessidade de transformar o Projeto Pedagógico do Curso (PPC) em um instrumento vivo de gestão. "Muitas instituições elaboram excelentes PPCs, mas eles acabam permanecendo como documentos formais. O projeto pedagógico precisa orientar o planejamento das disciplinas, as metodologias utilizadas em sala de aula, as avaliações e todas as experiências de aprendizagem. Quando existe distância entre o que está escrito e o que realmente acontece, essa diferença aparece nos resultados do Enade e das demais avaliações nacionais." 

Para Nicolini, melhorar os indicadores exige uma mudança de cultura dentro das instituições de ensino superior. “Os cursos que apresentam melhores resultados normalmente têm governança acadêmica, definição clara de responsabilidades, acompanhamento contínuo dos indicadores e integração entre todos os envolvidos no processo formativo. Não se trata de preparar o estudante apenas para uma prova. Trata-se de garantir uma formação consistente, alinhada ao perfil profissional que a sociedade espera", afirma. 

O especialista defende que os resultados do Enade, do Enamed e da PND devem ser utilizados como instrumentos estratégicos para revisão da gestão dos cursos, permitindo identificar fragilidades e promover melhorias contínuas. "Essas avaliações oferecem um diagnóstico valioso. Quando interpretadas corretamente, deixam de ser apenas indicadores de desempenho e passam a orientar decisões capazes de elevar a qualidade da formação e, consequentemente, os resultados dos estudantes", conclui.

 

Alexandre Nicolini - especialista em avaliação, explica o que as notas nesses dois exames revelam sobre as IES: “O problema não está apenas no aluno”.


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