Especialista explica por que agressores
usam filhos como arma contra a mãe e alerta para sinais de risco que precisam
de atenção antes da tragédia
Duas crianças, de 3 e 5 anos, foram encontradas mortas dentro de
um carro na manhã do último domingo (9), Dia dos Pais, na Rua Luiz Supertti, no
Jardim Guanabara, zona sul de São Paulo. O pai das meninas, Breno de Souza
Castro, de 24 anos, se apresentou à polícia no 48º Distrito Policial, na Cidade
Dutra, e indicou o local onde os corpos estavam. Ele foi preso em flagrante sob
acusação de homicídio e violência doméstica; a ocorrência foi registrada no
101º DP, no Jardim das Imbuias.
Segundo relato da mãe das vítimas à polícia, o genitor havia
buscado as filhas no sábado (8) e, a partir daí, passou a fazer ligações com
ameaças a ela. A mulher, que viveu cerca de oito anos com o ex-companheiro,
passou a noite na casa da ex-sogra, acompanhada de familiares, enquanto as
buscas eram feitas. A motivação apurada até o momento seria ciúmes.
Casos como esse são um exemplo do que a psicologia chama de
violência vicária: quando o agressor ataca filhos, familiares ou animais de
estimação como forma de atingir a mulher. Segundo Karen Scavacini, psicóloga,
doutora, pesquisadora e fundadora do Instituto
Vita Alere, trata-se de uma estratégia de
controle: quando o agressor não consegue mais dominar a mulher ou percebe que
ela tenta sair da relação, ele ataca o que é mais precioso para ela. "A
mensagem implícita é: se você não está sob meu controle, eu destruo o que dá
sentido à sua vida", explica.
Não existe um perfil psicológico único para esse tipo de agressor,
mas há fatores que costumam se repetir em casos graves de violência doméstica,
como controle coercitivo, ciúme possessivo, histórico de ameaças e uso dos
filhos como instrumento de chantagem. Para a especialista, nem todo
homem que comete violência doméstica chegará ao vicaricídio, mas relações
marcadas por controle, ameaça e perda de domínio devem sempre ser avaliadas
como situações de risco.
A psicóloga destaca que existem sinais de alerta que exigem
atenção imediata da rede de apoio da mulher, sobretudo no período em que ela
tenta romper a relação como ameaças de morte, perseguição após a separação,
descumprimento de medidas protetivas e uso dos filhos para vigiar ou punir a
mãe. O momento da separação é especialmente sensível e precisa ser tratado como
um período de risco alerta.
O erro mais grave é esperar que a violência vicária culmine em morte para ser levada a sério. "Ela pode aparecer antes, quando o agressor ameaça tirar os filhos, manipula a guarda ou transforma o afeto da mulher em ponto de ataque. Quando a sociedade só reconhece o problema depois da morte, chegamos tarde demais", destaca.
Karen Scavacini - psicóloga e pesquisadora, mestre em Saúde Pública pelo Karolinska Institutet (Suécia) e doutora em Psicologia pela USP. Fundou em 2013 o Instituto Vita Alere, pioneiro em posvenção e saúde mental digital no Brasil. Representa o país na International Association for Suicide Prevention (IASP) e é membro fundadora da ABEPS. Sua atuação combina ambientes digitais, educação emocional e pesquisa aplicada em saúde mental.
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