Formulação tópica une antioxidante natural e silenciamento genético de uma enzima que degrada o tecido cutâneo. Em testes de laboratório, o tratamento promoveu a regeneração celular em apenas 72 horas
Pesquisadores da Universidade
de São Paulo (USP) desenvolveram uma nanopartícula capaz de agir sobre
diferentes fatores que impedem a cicatrização de feridas crônicas, como é o
caso das úlceras associadas ao diabetes e das escaras comuns em pessoas acamadas.
Essas lesões, que podem persistir por meses ou até anos, afetam de 1% a 2% da
população e representam um importante problema de saúde pública, pois aumentam
o risco de infecções e de amputações, além de comprometerem significativamente
a qualidade de vida dos pacientes.
Em testes in vitro,
a tecnologia reduziu a inflamação e protegeu o tecido contra danos causados
pelo estresse oxidativo – uma condição patológica em que o excesso de moléculas
reativas (como os radicais livres de oxigênio) danifica as células e impede a
regeneração. Além disso, a formulação favoreceu a migração de fibroblastos
cutâneos, células que desempenham papel fundamental na cicatrização da pele. Os
resultados foram publicados em maio na revista Colloids and Surfaces B: Biointerfaces.
O tratamento atualmente
disponível é baseado principalmente em curativos, antibióticos e
anti-inflamatórios, que ajudam a controlar a infecção e o quadro inflamatório,
mas nem sempre conseguem eliminar os fatores que mantêm a ferida aberta.
“Essas feridas são difíceis de
tratar porque diversos mecanismos envolvidos na cicatrização deixam de
funcionar adequadamente. Há inflamação persistente, excesso de enzimas que
degradam o tecido, estresse oxidativo e dificuldade de formação de uma nova
pele. Por isso, pensamos em uma estratégia que pudesse atuar sobre vários
desses processos ao mesmo tempo”, explica a farmacêutica Maria Vitória Lopes Badra Bentley, professora da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto
(FCFRP-USP) e orientadora da pesquisa, que contou com financiamento da FAPESP.
Duas
estratégias terapêuticas
Um dos principais alvos da pesquisa
foi a enzima MMP-9, que, em níveis normais, participa do remodelamento dos
tecidos. Nas feridas crônicas, no entanto, sua produção torna-se excessiva,
levando à degradação de proteínas como colágeno, elastina e fatores de
crescimento, fundamentais para a reconstrução da pele. Para reduzir esse
efeito, os pesquisadores utilizaram uma pequena molécula de RNA (siRNA) capaz
de silenciar especificamente o gene responsável pela síntese da enzima.
O grupo também usou o
resveratrol, um composto muito empregado na formulação de cosméticos, escolhido
por reunir propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias e por favorecer a
migração e a proliferação de fibroblastos, responsáveis pela produção de
colágeno e de outros componentes da matriz extracelular, fundamentais para o
fechamento da ferida. “O resveratrol já vinha sendo investigado para aplicações
em feridas. Nossa proposta foi associá-lo ao silenciamento da MMP-9 em uma
única plataforma para atacar simultaneamente diferentes mecanismos responsáveis
pela cronicidade dessas lesões”, explica Milena Finazzi Morais, bolsista de mestrado da FAPESP na FCFRP-USP e primeira autora do artigo.
Para que ambos os compostos
chegassem ao local da lesão de forma eficiente, a equipe desenvolveu uma
nanopartícula lipídica incorporada a um hidrogel. Segundo as pesquisadoras, a
nanopartícula, além de proteger as moléculas, aumenta sua penetração nas
camadas da pele e promove uma liberação gradual dos princípios ativos,
prolongando sua ação no local da aplicação. A professora Bentley explica que
isso é necessário porque o resveratrol é pouco solúvel em água e se degrada
facilmente, enquanto a siRNA é uma molécula instável e rapidamente destruída
por enzimas do organismo.
“O sistema foi incorporado a um
hidrogel, aumentando sua viscosidade e permanência sobre a ferida. Nos
experimentos realizados em culturas celulares e em pele suína [modelo
amplamente utilizado em pesquisas dermatológicas por apresentar características
semelhantes às da pele humana], a formulação apresentou maior retenção dos
compostos no tecido e melhor capacidade de entrega das moléculas ao local da
lesão”, explica Bentley.
Os resultados mostraram que a
estratégia reduziu significativamente a produção da MMP-9, diminuiu os níveis
de espécies reativas de oxigênio e de citocinas inflamatórias, além de restaurar
a capacidade de migração dos fibroblastos. No modelo experimental de
cicatrização in vitro, a combinação completa promoveu praticamente
o fechamento da lesão simulada após 72 horas.
Segundo Bentley, um dos principais
diferenciais do trabalho é justamente reunir diferentes mecanismos de ação em
uma única plataforma terapêutica. “Toda doença crônica não tem um único fator
responsável. Existem vários mecanismos alterados ao mesmo tempo. Por isso, faz
mais sentido desenvolver um produto multifuncional do que tentar resolver o
problema atuando apenas sobre um alvo”, afirma.
Embora os resultados sejam
promissores, a pesquisadora ressalta que a tecnologia ainda está em fase de
estudos. Os próximos passos incluem testes em modelos tridimensionais de pele
e, posteriormente, em animais, para confirmar a eficácia e a segurança da
formulação antes que ela possa avançar para ensaios clínicos.
Plasma
rico em plaquetas
A linha de pesquisa em torno
das feridas crônicas também deu origem a outro projeto desenvolvido pelo grupo.
Em seu mestrado com bolsa da FAPESP também na FCFRP-USP, a pesquisadora Lorena Amorin Tiritan estuda a associação dessas nanopartículas a um gel produzido com
plasma rico em plaquetas obtido a partir de concentrados plaquetários que
seriam descartados por hemocentros. A proposta é aproveitar fatores naturais de
crescimento presentes nesse material para potencializar o processo de
regeneração dos tecidos.
“Além do potencial terapêutico,
nossa proposta também busca dar um destino nobre a um material que normalmente
seria descartado. A expectativa é que os fatores de crescimento presentes nesse
plasma complementem a ação das nanopartículas e favoreçam a cicatrização”, diz
Tiritan.
O artigo Multifunctional
hybrid lipid-polymeric nanoparticle enabling resveratrol and siRNA co-delivery
for enhanced cutaneous wound repair pode ser lido em: sciencedirect.com/science/article/pii/S0927776526004042.
Fernanda Bassette
Agência FAPESP

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