-Pesquisa “A Geografia da Exposição: disparos de arma de fogo, território e escolas afetadas em Salvador”, lançada pelo Instituto Fogo Cruzado e Iniciativa Negra Por Uma Nova Política Sobre Drogas, aponta como eventos de violência armada afetam a rotina de milhares de estudantes.
- 40% dos casos de tiroteios ocorrem nos períodos da manhã e da tarde; apenas oito bairros concentram 20% de todos os disparos.
-Dados do estudo evidenciam que tiroteios afetam majoritariamente áreas negras e empobrecidas.
- Estudo lança o Índice de Risco do Entorno
Escolar (IREE) que mensura os impactos no ambiente escolar de episódios com
violência armada.
Nesta quinta (13), o Instituto Fogo Cruzado e a Iniciativa Negra
Por Uma Nova Política Sobre Drogas, com apoio da Imaginable Futures, lançam o
relatório “A Geografia da Exposição: Disparos de arma de fogo, território e
escolas afetadas em Salvador”. O documento inédito mapeia e
analisa o impacto da violência armada nas escolas públicas da cidade soteropolitana
entre 2023 e 2025.
O estudo, que analisou dados georreferenciados,
mapeou 3.748 disparos de armas de fogo em Salvador, que
resultaram em uma média de 3,4 ocorrências por dia. Desse
total, 59% dos tiros (2.206) foram dados em dias letivos e 40%
aconteceram à luz do dia. Isto prejudica diretamente a
mobilidade e a segurança da população, pois coincide com os momentos de
entrada, saída e recreio dos estudantes e refuta o senso comum de ser a
violência mais intensa apenas nos períodos da noite e madrugada. Além disso, a
pesquisa revela que quase 70% dos incidentes registrados em dias de
aula derivam de intervenções policiais (37,4%) e de homicídios
ou tentativas (32%).
Índice de Risco do Entorno Escolas e Desigualdades
Para dimensionar o impacto da violëncia armada, foi desenvolvido o Índice de Risco de Exposição Escolar (IREE), que avalia a intensidade (proximidade), severidade (letalidade) e a persistência (semanas afetadas) dos tiroteios em um raio de até um quilômetro das escolas. A partir deste marcador, uma forte assimetria na rede de ensino foi identificada: a maioria das cerca de 600 unidades escolares de Salvador, que recebem 275 mil matrículas por ano, enfrenta baixa exposição a eventos armados, mas um grupo restrito de instituições de ensino precisa suportar níveis críticos de violência.
Entre 2023 e 2025, 120 escolas integraram as chamadas áreas críticas
durante pelo menos um ano e
6 unidades permaneceram imersas nesse cenário de altíssimo risco durante
todo o período analisado.
Em 2023, somente 10 escolas não registraram exposição a eventos de tiroteios, enquanto 283 acumularam entre 10 e 40 dias afetados e 81 escolas ultrapassaram 40 dias, chegando a 74 dias afetados. Já em 2024, apenas 11 escolas não tiveram registros, 280 foram afetadas entre 10 e 40 dias letivos e 71 superaram 40 dias, chegando a até 80 dias. Já em 2025, 12 escolas não registraram nenhum dia afetado, 133 instituições tiveram entre 10 e 20 dias letivos interrompidos, 183 registraram entre 21 e 40 dias e 23 escolas ultrapassaram 40 dias de exposição no ano, com casos de até 55 dias afetados.
Considerando que o calendário escolar brasileiro tem
cerca de 200 dias letivos, esses resultados indicam que, para parte
significativa das escolas e dos alunos, a violência armada não representa um
evento esporádico, mas uma condição recorrente do território, com potencial
para afetar o funcionamento escolar, a circulação da comunidade e a
continuidade das atividades educacionais.
Desigualdade urbana: marcadores raciais e sociais
A análise georreferenciada ganha importância para os resultados da pesquisa quando são inseridos os marcadores socioeconômicos e raciais: dos 163 bairros de Salvador, em apenas 8 foi registrado um total de quase 20% de todos os tiroteios no período.
Em todos eles, a proporção da população não-branca
(preta, parda e indígena) é superior a 83%, com pico de quase 93% num deles,
Lobato. Além disso, a renda média per capita em seis desses distritos é
inferior a R$ 900. Os bairros submetidos a maior truculência foram:
Beiru/Tancredo Neves, Pernambués, Fazenda Grande do Retiro, Lobato, Valéria, Federação,
IAPI e Castelo Branco.
Modelos estatísticos elaborados no estudo comprovam
estruturalmente as dinâmicas da desigualdade na capital soteropolitana: escolas
situadas em territórios com menos faixas de renda e maiores proporções de
população não-branca apresentam índices de risco significativamente maiores, segundo
o IREE. Além disso, o estudo constatou que, nas seis escolas em situação
crítica persistente, a renda média do entorno variava entre R$ 594,10 e
R$ 702,59 e a população não-branca estava entre 87,4% e 91,2%.
Apesar da grande maioria da rede de ensino público conviver com baixos níveis de ocorrências, é preciso voltar-se à expressividade dos estudantes matriculados em escolas classificadas em zonas de risco alto e críticas: em 2025, 2.802 estudantes estavam matriculados nas 10 escolas que atingiram a classificação IREE de alto risco, enquanto 20.744 discentes estavam matriculados em áreas críticas.
Esse contingente de mais de 23 mil alunos sob graves
níveis de exposição não fica espalhado aleatoriamente pela capital baiana.
Quase 17,9 mil estudantes estudam em apenas duas regiões:
Liberdade/São Caetano, a região mais crítica onde se concentram 12.643
matrículas, e Cidade Baixa, que reúne 5.242 matrículas.
Matriz de priorização e recomendações para políticas públicas
Com o objetivo de estimular a tomada de decisão do poder
público, o relatório agrupou as escolas nas dez Prefeituras-Bairro de Salvador,
oferecendo dados para orientação das prioridades de ação. As Prefeituras-Bairro
da Liberdade/São Caetano e da Cidade Baixa foram classificadas como de
Prioridade Muito Alta, uma vez que nelas estão 39% das escolas em áreas
críticas e concentram quase duas dezenas de alunos sob severa exposição
territorial à violência. As regiões de Cabula/Tancredo Neves e Cajazeiras vêm
logo a seguir, categorizadas como de Prioridade Alta.
Para garantir o direito fundamental à educação e
mitigar os efeitos cognitivos, psicossociais e pedagógicos da exposição à
violência armada, o relatório conclui que o Estado não pode tratar a rede
escolar de maneira homogênea, visto as desigualdades estruturais e territoriais
da dinâmica urbana soteropolitana. Nesse sentido, recomenda ao poder público a
priorização territorializada, o uso de dados georreferenciados, assim como a
incorporação de indicadores como o IREE, nos processos de planejamento das secretarias
municipais para alocação de equipes e gestão de crises, apoio psicossocial e
pedagógico, sistema de dados integrados e protocolos intersetoriais que visem
instituir fluxos operacionais rápidos envolvendo Educação, Assistência Social,
Segurança Pública e Saúde. A administração municipal deve garantir ação
integrada em territórios prioritários antes, durante e após episódios de
violência.
Metodologia
A metodologia do estudo “A
Geografia da Exposição: Disparos de arma de fogo, território e escolas afetadas
em Salvador” baseia-se na integração de dados de segurança
pública (Instituto Fogo Cruzado), educação (INEP) e características
territoriais e socioeconômicas (Censo Demográfico de 2022 do IBGE), e adota a
escola como unidade central de observação.
Para acessar o relatório completo, clique aqui.
Sobre o Fogo Cruzado
O Fogo Cruzado é uma organização da sociedade civil que produz dados abertos e inéditos sobre a violência armada no Brasil. Desde 2016, mapeia mais de 50 indicadores em 57 municípios das regiões metropolitanas do Rio de Janeiro, Recife, Salvador e Belém, formando o maior banco de dados sobre o tema na América Latina. Por meio da transparência e do acesso livre à informação, a iniciativa fortalece o engajamento cívico, orienta políticas públicas eficientes e impulsiona o debate sobre segurança pública no país.
Sobre a Iniciativa Negra
A Iniciativa Negra é uma organização da sociedade civil que atua
na promoção da
justiça racial, com foco em incidência política, advocacy, fomento
criativo e
produção de conhecimento. Desde 2015, articula ações nas áreas de
política de
drogas, direitos humanos, cultura, educação popular e economia
viva, com
destaque para experiências que partem de territórios negros com
foco no
desenvolvimento da sociedade civil organizada.
Agência Lema
Leandro Matulja
Leticia Zioni
Guilherme Maia





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