Avanços na medicina mostram que alterações cerebrais podem surgir até 20 anos antes dos sintomas e reforçam a importância do diagnóstico precoce
Esquecimentos
frequentes, dificuldade para lembrar nomes ou confusão com tarefas do dia a dia
costumam ser os primeiros sinais que levam muitas pessoas a investigar o
Alzheimer. O que poucos sabem é que, quando esses sintomas aparecem, a doença
pode estar em desenvolvimento desde duas décadas atrás. Hoje, especialistas
defendem uma mudança de paradigma: em vez de esperar os primeiros
esquecimentos, a investigação deve começar muito antes, especialmente em
pessoas com fatores de risco ou comprometimento cognitivo leve.
Segundo a
Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 57 milhões de pessoas vivem com
algum tipo de demência no mundo, sendo o Alzheimer responsável por 60% a 70%
dos casos. A estimativa é de que esse número ultrapasse 150 milhões até 2050,
impulsionado principalmente pelo envelhecimento da população. No Brasil,
aproximadamente 1,8 milhão de pessoas convivem com a doença.
De acordo com o
explica Carlos Aschoff, médico geneticista e assessor médico do DB
Diagnósticos, o entendimento sobre o Alzheimer mudou significativamente nos
últimos anos. Hoje, sabe-se que alterações biológicas no cérebro começam muitos
anos antes dos sintomas clínicos, tornando possível identificar sinais da
doença em uma fase silenciosa.
"O Alzheimer
não começa quando a pessoa passa a esquecer compromissos ou nomes. Nesse
momento, o processo neurodegenerativo já está em curso há muitos anos. O que
mudou foi nossa capacidade de enxergar essa fase pré-clínica por meio de
biomarcadores, permitindo uma investigação muito mais precoce do que era
possível até pouco tempo”, comenta o médico.
As primeiras
alterações envolvem o acúmulo gradual das proteínas beta-amiloide e tau no
cérebro, consideradas características da doença. Durante muitos anos, essas
mudanças só podiam ser identificadas por exames complexos, como a tomografia
por emissão de pósitrons (PET cerebral) ou pela análise do líquido
cefalorraquidiano (LCR), obtido por punção lombar.
Nos últimos anos,
porém, a medicina passou a contar com biomarcadores plasmáticos capazes de
detectar essas alterações por meio de um exame de sangue. A tecnologia
representa um dos principais avanços recentes na investigação do Alzheimer,
tornando o diagnóstico mais acessível e menos invasivo.
"Os
biomarcadores não substituem a avaliação clínica, mas oferecem uma ferramenta
importante para complementar a investigação, principalmente em pacientes com
comprometimento cognitivo leve ou quando existe suspeita diagnóstica. Quanto
mais cedo identificamos as alterações biológicas, maiores são as possibilidades
de acompanhamento individualizado e de planejamento terapêutico”, complementa o
assessor médico do DB Diagnósticos.
Embora o Alzheimer
ainda não tenha cura, especialistas afirmam que identificar a doença
precocemente traz benefícios importantes para pacientes e familiares.
Além de permitir
um diagnóstico mais preciso, a investigação antecipada possibilita o controle
de fatores de risco cardiovasculares, o estímulo à atividade física e
cognitiva, o planejamento familiar e financeiro e o acesso mais rápido a
terapias capazes de retardar a progressão da doença nos pacientes elegíveis.
"O objetivo
não é antecipar uma preocupação, mas antecipar oportunidades de cuidado. Quanto
mais cedo entendemos o que está acontecendo no cérebro, mais cedo conseguimos
orientar o paciente, acompanhar sua evolução e tomar decisões baseadas em
evidências”, diz Carlos Aschoff.
A evolução dos
biomarcadores também começa a transformar a realidade brasileira. Exames de
sangue voltados à investigação do Alzheimer, antes restritos a poucos centros e
frequentemente enviados para processamento no exterior, passam a ser realizados
no país, ampliando o acesso à tecnologia.
Ao identificar
alterações associadas à doença antes do surgimento dos sintomas clínicos, esses
exames representam um importante avanço para a medicina diagnóstica e
acompanham uma tendência internacional de tornar a investigação do Alzheimer
mais precoce, acessível e menos invasiva.
Para o
especialista, a principal mensagem é que o Alzheimer deixou de ser uma doença
investigada apenas quando a perda de memória já interfere na rotina.
"Hoje sabemos
que esperar os primeiros esquecimentos pode significar perder anos importantes
de acompanhamento. A medicina caminha justamente na direção oposta: identificar
a doença cada vez mais cedo para oferecer mais informação, mais planejamento e
melhores perspectivas de cuidado ao paciente", conclui Aschoff.
DB
Diagnósticos
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