Segundo superintendente do Instituto Natura Brasil, para além dos avanços legislativos, país precisa superar a fragmentação de serviços, garantir orçamento e investir em proteção à mulher
Apesar da reconhecida evolução da legislação brasileira no combate à violência
contra as mulheres, os índices de violência no país continuam alarmantes. Para
Maria Slemenson, superintendente do Instituto Natura Brasil, instituição que se
dedica à causa, a manutenção desses indicadores não pode ser atribuída apenas
ao aumento do número de denúncias: ela revela uma desproporção histórica entre
a dimensão do problema e a capacidade de resposta do Estado, cujas ações seguem
fragmentadas, subfinanciadas e desigualmente distribuídas pelo território
nacional.
A superintendente
explica que a violência contra as mulheres é um fenômeno social e relacional
sustentado por desigualdades de gênero, raça e renda e intensificado hoje por
novas formas de controle, perseguição e vigilância nos ambientes digitais. Por
isso, informação e a conscientização são ferramentas fundamentais para mudar a
cultura de violência contra as mulheres, mas só se convertem em proteção real
quando encontram serviços públicos e instituições preparadas para responder com
prontidão e eficácia.
Leis
avançaram, mas execução falha na ponta
O Brasil possui
marcos legais estruturantes, com destaque para a Lei Maria da Penha, que
reconhece a necessidade de uma atuação integrada que vai além da resposta
penal. No entanto, nenhuma legislação é autoexecutável, lembra Maria Slemenson,
e o Índice de Conscientização sobre Violência contra as Mulheres do Instituto
Natura aponta que, em 2025, 28% da população ainda apresentava nível de conscientização
"baixo" ou "muito baixo" sobre as leis e formas de denúncia
e quatro em cada dez mulheres não eram capazes de identificar espontaneamente
situações de violência de gênero não físicas.
"Para produzir direitos concretos, precisamos de orçamento, profissionais
qualificados, serviços territorializados, infraestrutura, dados e coordenação
entre as instituições", afirma Maria. "O Estado costuma enxergar
episódios, não trajetórias. Saúde, Segurança Pública, Assistência Social e
Justiça acessam partes diferentes da história de uma mulher, mas raramente
conseguem reconstruí-la em conjunto. Sem essa continuidade, perdemos
oportunidades decisivas de intervir antes que a violência se agrave", diz.
O mesmo desafio se aplica às medidas protetivas de urgência, segundo a
superintendente: para que funcionem, não basta a decisão do juiz; é preciso
avaliação continuada de risco, fiscalização ativa e resposta rápida em caso de
descumprimento.
Prioridades
para a transformação do cenário
Para mudar essa
realidade, o Instituto Natura defende que não há solução única, mas sim a
urgência de um conjunto articulado de políticas públicas pautado por
prioridades claras.
- Integração
segura de dados e sistemas: conectar Saúde, Assistência
Social, Segurança e Justiça para monitorar o risco e a conduta dos
agressores, sem expor a mulher ou obrigá-la a recontar sua história a cada
atendimento;
Fortalecimento da rede de proteção social: garantir acesso à moradia, renda e creche, fatores que ampliam a autonomia socioeconômica das mulheres quando integrados às demais redes de proteção;
Financiamento estável e capilaridade: garantir recursos permanentes para descentralizar e qualificar os serviços de atendimento em todo o país;
Conscientização permanente: desenvolver a capacidade social de reconhecer, nomear e agir contra a violência, unindo a mudança comportamental ao fortalecimento da arquitetura pública.
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