Material utilizado
como preenchedor pode causar inflamações, deformidade e até insuficiência
renal, alerta especialista
A decisão do Conselho Federal de Medicina (CFM) de
proibir o uso médico do polimetilmetacrilato (PMMA) como preenchedor estético e
reparador em todo o país reforça um alerta que há anos preocupa especialistas
da área da saúde: os riscos associados ao uso de substâncias permanentes para
fins estéticos. A medida foi anunciada após a divulgação de nota técnica pelo
Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), que destacou as
evidências científicas e os registros de complicações relacionados ao produto.
O PMMA é um material sintético, não absorvível pelo
organismo, utilizado há décadas em procedimentos estéticos e reparadores. No
entanto, a experiência acumulada ao longo dos anos revelou que sua permanência
no corpo pode desencadear efeitos adversos graves, muitas vezes imprevisíveis e
de difícil tratamento. Com a nova regulamentação, o uso do produto permanece
autorizado apenas em situações específicas de tratamento da lipodistrofia
facial em pacientes com HIV/aids atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Segundo a médica Caroline Daitx, especialista em Medicina
Legal e Perícia Médica, pós-graduada em gestão da qualidade e segurança do
paciente, a principal justificativa para a proibição está
justamente no comportamento permanente da substância no organismo. “O PMMA é um
material não absorvível e de difícil remoção, que pode provocar complicações
tanto imediatas quanto tardias. Mesmo após anos de utilização, observou-se que
seus efeitos podem ser imprevisíveis, especialmente quando utilizado em
procedimentos estéticos ou em grandes volumes”, explica.
Entre as complicações mais graves associadas ao
PMMA estão inflamações crônicas, formação de granulomas e nódulos, infecções,
necrose dos tecidos, migração do produto para outras regiões do corpo e
deformidades permanentes. Em situações mais severas, os pacientes podem
desenvolver embolia pulmonar, alterações visuais decorrentes de oclusão
vascular, hipercalcemia grave e até insuficiência renal com necessidade de
hemodiálise. “São ocorrências que podem exigir múltiplas cirurgias corretivas,
longos períodos de internação e acompanhamento médico contínuo. Em casos
extremos, existe risco efetivo à vida do paciente”, destaca a perita.
Outro fator que aumenta a preocupação dos
especialistas é a possibilidade de surgimento tardio das complicações.
Diferentemente de outros procedimentos estéticos cujos efeitos adversos
costumam aparecer em curto prazo, o PMMA pode permanecer silencioso por anos
antes de provocar problemas clínicos. “Há relatos documentados de complicações
surgindo entre cinco e dezesseis anos após a aplicação. Por isso, muitas
pessoas acreditam que o procedimento foi bem-sucedido e seguro, quando na
verdade o risco continua existindo”, afirma a médica.
Entre os principais sinais de alerta estão dor
persistente, endurecimento da região tratada, formação de nódulos, vermelhidão,
aumento de temperatura local, inchaço, secreção, deformidades progressivas,
alterações na coloração da pele, febre e outros sintomas sistêmicos.
Diante desse cenário, a recomendação para quem já
realizou procedimentos com PMMA é buscar orientação médica, mesmo na ausência
de sintomas. “Não significa que todos os pacientes precisarão remover o produto
preventivamente, mas é importante que a aplicação seja documentada e
acompanhada. O médico poderá orientar sobre sinais de alerta e definir uma
conduta individualizada conforme cada caso”, orienta Daitx.
A especialista ressalta ainda que qualquer
manifestação de dor, inflamação, infecção, endurecimento ou deformidade deve
motivar avaliação médica imediata. Para ela, a decisão do CFM representa um
importante avanço na proteção dos pacientes e reforça a necessidade de que
procedimentos estéticos sejam realizados com base em critérios rigorosos de
segurança, eficácia e acompanhamento a longo prazo.
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