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segunda-feira, 11 de maio de 2026

Tabagismo está associado com ao menos 63 mil mortes anuais por câncer no Brasil, alerta SBCO

Levantamento da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) estima que 63.268 mortes registradas no Brasil em 2025 estejam relacionadas ao tabagismo. A projeção considera 12 tipos de câncer associados ao consumo de derivados do tabaco e foi elaborada a partir de dados da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, estimativas do INCA para 2026 e percentuais de fração atribuível ao tabaco obtidos em estudos epidemiológicos do INCA e do Observatório da Saúde


Levantamento realizado pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) aponta que ao menos 63.268 mortes por câncer registradas no Brasil em 2025 estejam associadas ao tabagismo. A estimativa considera 12 tipos de tumores relacionados ao consumo de derivados do tabaco e reforça o impacto persistente do cigarro sobre a mortalidade por câncer no país. 

Os dados utilizados pela SBCO têm como base os registros de mortalidade da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente e as estimativas de incidência do Instituto Nacional de Câncer (INCA) para 2026. Já os percentuais de associação entre tabagismo e cada tipo tumoral foram extraídos de informações epidemiológicas do próprio INCA e do Observatório da Saúde, a partir de estudos de fração atribuível ao tabaco, indicador que estima quantos casos ou mortes podem ser relacionados diretamente ao consumo de cigarros. 

Segundo o levantamento, os 12 tipos de câncer avaliados somaram 132.802 mortes em 2025. Entre eles estão tumores de pulmão, cavidade oral, laringe, esôfago, bexiga, pâncreas, fígado, colo do útero, rim, estômago, colorretal e leucemia mieloide aguda. A partir da aplicação dos percentuais atribuíveis ao tabagismo, a SBCO chegou-se à estimativa de mais de 63 mil óbitos associados ao consumo de tabaco. 

O impacto é particularmente expressivo nos tumores do trato respiratório e digestivo superior. No câncer de pulmão, por exemplo, cerca de 90% dos casos são associados ao tabagismo. Isso significa que, das 31.637 mortes registradas em 2025, aproximadamente 28.473 podem ter relação direta com o consumo de cigarros. Os cânceres de esôfago e laringe também apresentam elevadas proporções atribuíveis ao tabaco, de 90% e 96%, respectivamente. 

Tipo de Câncer

Número de óbitos

Estimativa INCA 2026

Porcentagem Tabagismo*

Estimativa de óbito - SBCO

Pulmão

31.637

35.380

90%

28.473

Cavidade Oral

1.195

17.190

80%

956

Laringe

4.381

8.510

96%

4.205

Esôfago

8.245

11.390

90%

7.420

Bexiga

5.452

13.110

70%

3.816

Pâncreas

14.571

13.240

30%

4.371

Fígado

11.305

12.350

25%

2.826

Colo do Útero

7.270

19.301

20%

1.454

Rim

4.576

Não tem

20%

915

Leucemia Mieloide Aguda

4.108

12.220

20%

821

Estômago

14.363

22.350

20%

2.872

Colorretal

25.699

53.810

20%

5.139

* Percentuais de associação entre tabagismo e câncer baseados em dados epidemiológicos do INCA e do Observatório da Saúde.

Mesmo em tumores com menor percentual de associação, o impacto permanece relevante em razão do elevado número absoluto de casos. É o caso dos cânceres colorretal (intestino grosso e reto), de estômago, fígado, pâncreas e colo do útero, nos quais o tabagismo atua como importante fator de risco adicional, frequentemente associado ao consumo de álcool, sedentarismo e alimentação rica em ultraprocessados.

O cirurgião oncológico e presidente da SBCO, Paulo Henrique de Sousa Fernandes, destaca que o tabagismo permanece como um dos principais fatores evitáveis associados ao câncer e ressalta que seus efeitos se potencializam quando combinados a outros comportamentos de risco. “Mesmo quando não é a causa principal, o cigarro contribui de forma significativa para o desenvolvimento e agravamento da doença, especialmente quando associado ao consumo de álcool, sedentarismo e alimentação inadequada”, afirma.


Queda do tabagismo não elimina impacto acumulado

Estudo publicado em 2025 na Revista Brasileira de Cancerologia, periódico científico editado pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA), intitulado “Evolução do Tabagismo e Incidência de Câncer de Pulmão no Brasil (2000–2020)”, mostra que o tabagismo permanece como o principal fator de risco para o câncer de pulmão no país. 

O trabalho aponta que a prevalência de fumantes caiu de 34,8% em 1989 para cerca de 12,6% em 2019, chegando a aproximadamente 9,3% em 2023. Apesar da redução expressiva, os pesquisadores destacam que os efeitos do tabaco permanecem sendo observados por décadas, em razão do longo intervalo entre a exposição e o desenvolvimento de diversos tipos de câncer.

“O avanço é importante, mas vemos uma movimentação intensa da indústria do tabaco na tentativa de apresentar novos produtos como alternativas supostamente menos nocivas, especialmente os cigarros eletrônicos e dispositivos saborizados. Isso não é verdade. É fundamental reforçar, sobretudo entre os jovens, que nenhuma dessas opções é isenta de riscos. Além disso, as evidências apontam, conforme destacadas pela OMS, que não há consumo seguro de cigarro e de nenhum de seus derivados”, alerta Fernandes. 

O estudo também evidencia mudanças no perfil epidemiológico do câncer de pulmão no Brasil, com redução da incidência entre homens e aumento entre mulheres, fenômeno associado às diferenças históricas no padrão de consumo de tabaco entre os sexos. “O Dia Mundial sem Tabaco é uma oportunidade importante para conscientizar a população sobre os riscos do consumo de cigarros e reforçar a necessidade de prevenção”, acrescenta o especialista. 


Cigarro eletrônico preocupa especialistas

Os cigarros eletrônicos surgiram no mercado com o discurso de serem menos nocivos do que os cigarros convencionais. No entanto, estudos já demonstram que alguns dispositivos podem conter concentrações de nicotina significativamente superiores às do cigarro tradicional, favorecendo rápida dependência química. Em abril de 2025, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) decidiu manter a proibição da comercialização dos cigarros eletrônicos no Brasil, medida em vigor desde 2009. 

O presidente da SBCO reforça que, além do risco direto à saúde, esses dispositivos podem funcionar como porta de entrada para o tabagismo convencional, especialmente entre adolescentes e adultos jovens. “Esses dispositivos liberam substâncias tóxicas que podem causar danos ao sistema respiratório e cardiovascular. Há uma falsa percepção de segurança em relação aos cigarros eletrônicos. Eles não são inofensivos e podem expor o usuário a níveis elevados de nicotina. A única forma de reduzir de fato os riscos é não consumir nenhum produto derivado do tabaco”, afirma. 


OMS aponta para os benefícios de parar de fumar

A Organização Mundial da Saúde (OMS) destaca que nunca é tarde para parar de fumar. Em cerca de 20 minutos após interromper o consumo, a frequência cardíaca e a pressão arterial diminuem. Após 12 horas, os níveis de monóxido de carbono no sangue retornam ao normal. Entre duas e 12 semanas, há melhora da circulação e da função pulmonar. Dez anos após parar de fumar, o risco de morte por câncer de pulmão cai para aproximadamente metade do observado em fumantes ativos, enquanto também diminui o risco de tumores de boca, garganta, esôfago, bexiga, rim e pâncreas. Quinze anos após abandonar o cigarro, o risco de doença coronariana se aproxima daquele observado em pessoas que nunca fumaram.

  

Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica - SBCO

 

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