O Dia das Mães costuma reforçar imagens
tradicionais de família, cuidado e vínculo. Mas, aos poucos, outras formas de
maternar começam a ganhar espaço, ainda que nem sempre sejam compreendidas.
Entre elas, está a chamada “maternidade pet”. O
termo pode causar desconforto em alguns contextos, justamente por desafiar uma
lógica mais rígida sobre o que define uma mãe. Ainda assim, ele ajuda a nomear
uma experiência vivida por muitas mulheres: a de cuidar, proteger e construir
vínculos profundos com seus animais de estimação.
Na psicanálise, o conceito de maternagem já se
afasta da ideia exclusivamente biológica. O pediatra e psicanalista Donald
Winnicott definiu o cuidado materno como um conjunto de práticas relacionadas à
proteção, ao afeto e à presença constante. Sob essa perspectiva, maternar está
menos ligado à origem biológica e mais à qualidade do vínculo construído no
cotidiano.
Quando esse olhar é ampliado, torna-se possível
compreender por que tantas pessoas, especialmente mulheres, desenvolvem
relações tão intensas com seus pets.
Historicamente, o cuidado foi atribuído ao
feminino. Nutrir, acolher, zelar pelo outro, sobretudo por aqueles que não
verbalizam suas necessidades, são funções que atravessam gerações como
construções sociais. Não é raro, portanto, que esses gestos encontrem
continuidade na relação com os animais de estimação.
São vínculos silenciosos, mas profundos. Feitos de
rotina, presença e afeto. O problema é que, quando a perda acontece, esse mesmo
vínculo costuma ser colocado em dúvida.
O luto por um animal ainda é frequentemente tratado
como exagero. A dor é minimizada, o sofrimento é relativizado e, em muitos
casos, a pessoa enlutada se vê sem espaço legítimo para expressar o que sente.
A socióloga Nickie Charles, referência nos estudos
sobre relações entre humanos e animais, chama atenção justamente para esse
ponto. Em suas pesquisas, ela observa que o luto por pets é atravessado por
questões de gênero. Para muitas mulheres, além da dor da perda, há também o
enfrentamento da deslegitimação desse sofrimento.
Nesse contexto, os rituais de despedida ganham um
papel que vai além da cerimônia.
Eles ajudam a dar forma ao vínculo vivido e a
reconhecer a importância daquela relação. Funcionam como um espaço simbólico de
validação, especialmente quando o entorno social não oferece esse
reconhecimento.
Mais do que marcar um fim, esses rituais afirmam
que houve ali uma história, um cuidado compartilhado e um afeto real.
Empresas especializadas, como a Laika Funeral Pet,
têm observado esse movimento de perto. Ao oferecer despedidas estruturadas e
respeitosas, ajudam tutores a atravessar o processo de luto com mais
acolhimento e dignidade, reconhecendo que a dor da perda não depende da
espécie, mas da intensidade do vínculo.
Em um momento como o Dia das Mães, ampliar o olhar
sobre o que significa maternar talvez seja também reconhecer que o cuidado, em
suas diferentes formas, continua sendo um dos pilares mais profundos das
relações humanas.
E que, quando ele se rompe, o luto merece ser
visto, e respeitado, na mesma medida.
Natália Nigro de Sá - psicóloga, pesquisadora do luto, doutora em
Ciências pela Universidade de São Paulo, membro da Ekôa Vet (Associação Brasileira
em Prol da Saúde Mental na Medicina Veterinária) e cofundadora da Laika
Assistência e Funeral Pet.
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