Nunca tantos
CEOs pediram para sair. As decisões recentes dos CEOs de Walmart, Doug
McMillon; Coca-Cola, James Quincey;Target, Brian Cornell; e Yum! Brands, David
Gibbs, pedindo para sair de corporações globais podem e, talvez, devam ser
interpretadas em uma dimensão mais abrangente.
Em 2025, mais de
2.030 CEOs, segundo a Challenger, Gray & Christmas, deixaram suas posições,
sendo um dos maiores índices de mudanças no primeiro escalão dos Estados
Unidos.
Seria equívoco
tratar esses movimentos como eventos isolados. Temos algo que envolve uma
dimensão muito mais profunda. Quase um fenômeno.
Um fenômeno que
envolve não apenas a predisposição de continuar liderando negócios em tempos de
megainstabilidade, mas também a crescente inadequação entre o modelo
tradicional de liderança e a nova realidade moldada pela combinação de
inteligência artificial, transformações tecnológicas, tensões geopolíticas e
mudanças comportamentais profundas.
O número, por si
só, dá a dimensão desse processo. Enquanto líderes globais como Trump e Xi
Jinping discutem os rumos da crescente polarização política e econômica, com
seus impactos inevitáveis sobre toda a humanidade, líderes do setor privado
também são forçados a revisitar suas próprias decisões.
No primeiro
escalão do setor privado global, essa rotação revela sua face mais visível, mas
não pode ser ignorado que trata-se de um processo sistêmico.
Ele se espalha
pelas organizações, impactando diretamente a atração, seleção, formação e
retenção de lideranças e, principalmente, a capacidade real de liderar diante
da magnitude dos desafios.
Estamos diante
da iminente obsolescência do modelo de liderança que nos trouxe até aqui. Somos
todos aprendizes nessa viagem. E, cada vez mais, muitos pedem para descer.
Dimensão
estrutural
Estamos vivendo
uma nova fase da liderança global e local, em que o cargo de CEO deixou de ser
o topo da hierarquia para se tornar o epicentro de tensões simultâneas
envolvendo dimensões tecnológicas, geopolíticas, sociais, comportamentais e, em
muitos casos, existenciais.
Cresceram as
expectativas em relação aos líderes, dos quais se espera que dominem a
transformação digital, se posicionem frente às agendas ESG, naveguem na
polarização política, liderem em ambientes de ruptura constante e, ainda, de
quebra, entreguem resultados no curto prazo.
Na prática, a
liderança evoluiu para uma operação contínua de múltiplas crises simultâneas.
Com isso,
crescem exponencialmente o estresse cognitivo, o desgaste emocional e o risco
reputacional permanente.
Mais do que
competência, o que está em jogo é a capacidade emocional, cognitiva e até
existencial de sustentar esse papel.
Não surpreende
que muitos, e cada vez mais, escolham sair.
Razões e motivos
Um dos fatores
mais determinantes desse cenário é a ruptura tecnológica precipitada pela
Inteligência Artificial (IA).
Mais do que uma
ferramenta, trata-se de uma redefinição ampla e profunda das cadeias de valor,
dos ciclos estratégicos e da própria lógica de poder, que migra cada vez mais
para os dados e algoritmos.
Mas é preciso
reconhecer que temos um profundo desalinhamento estrutural.
A esmagadora
maioria das lideranças foi formada em modelos lineares de gestão que eram
previsíveis, sequenciais e relativamente estáveis.
E agora,
precisam operar em sistemas de transformações exponenciais, não determinísticos
e em constante, relevante e irreversível reconfiguração.
Outro elemento crítico
envolve o desalinhamento ideológico e geopolítico, tanto no plano domiciliar
quanto global.
A migração de
poder político, econômico e militar, combinada com tensões ambientais,
energéticas e sociais, cria um ambiente de ambiguidade crescente, no qual
posicionar-se deixou de ser opcional e passou a ser arriscado.
Mas talvez o
elemento mais profundo, menos compreendido e menos considerado seja o tempo,
que se tornou um fator de ruptura.
O que antes era
planejado e executado em anos precisa agora ser concebido, implementado e
validado em semanas ou dias.
O conceito de
tempo como o conhecíamos está colapsando.E líderes, como seres humanos, não
estão preparados para sustentar essa compressão contínua e crescente.
O tempo, de
alguma forma, tornou-se um dos maiores fatores de exclusão de lideranças.
As
consequências nos negócios
O resultado é um
ambiente de crescente instabilidade estratégica.
A rotatividade
no topo e nas posições de liderança das organizações pode gerar descontinuidade
de visão, mudanças frequentes de prioridades e aumento do risco de incoerência
organizacional.
E com uma
consequência ainda mais profunda: uma crise silenciosa nos processos de
sucessão.
O modelo
tradicional de formação interna de líderes está muito mais tensionado pela
velocidade das transformações externas.
O que acontece
no ambiente externo muda mais rápido do que aquilo que se consegue desenvolver
dentro das organizações, potencializando os desafios e demandando líderes que
possam ser orquestradores de complexidade e regentes de sistemas em constante
transformação.
Definitivamente
e de forma geral, para esse nível de complexidade não fomos educados, treinados
ou preparados.
Impactos
específicos no varejo, consumo e serviços
Nesses setores,
o impacto é ainda mais intenso, pois o centro de tudo são os omniconsumidores, empoderados
pela IA, voláteis e volúveis em seu comportamento, e que exercem, de forma
plena, a comparação, análise, avaliação e decisão de compra em tempo real, em
escala global e com crescente ambição de satisfação.
Isso redefine
tudo, pois acelera o processo de desintermediação nos negócios, potencializa a
transformação de produtos e serviços em soluções e expande a competição para
níveis antes inimagináveis.
Mais do que
nunca, torna-se essencial pensar de forma integrada, considerando as cadeias de
valor como um sistema dinâmico. Nesse contexto, os ecossistemas de negócios
deixam de ser uma opção estratégica para se tornarem uma evolução estrutural.
Para
refletir
Estamos bem
acompanhados. Lideranças das maiores organizações globais enfrentam exatamente
os mesmos desafios e, definitivamente, de forma amplificada. Mas não se pode
minimizar os desafios em todos os níveis das organizações e em todos os
setores.
Vivemos um
desafio de modelos mentais que se soma aos desafios inerentes à liderança nos
negócios, nas entidades, nas associações e nos grupos empresariais.
E para agravar,
o tempo conspira contra as melhores e mais genuínas intenções de buscar os
melhores caminhos, criando o evidente desconforto que observamos no plano mais
global e local.
Alguns escolhem
sair, e outros seguem testando, pesquisando, aprendendo e desenvolvendo. E
nunca foi tão relevante a troca de experiências, visões e aprendizados em tempo
real.
Definitivamente,
somos todos aprendizes nessa viagem.
Simples assim.
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