À medida que o Dia das Mães se aproxima, não é incomum ouvir a frase “mãe de pet também é mãe”. Para algumas pessoas, essa expressão simplesmente traduz como elas se sentem na relação com o seu animal. Para outras, provoca julgamento, já que pode soar como uma comparação com mães de filhos humanos. E, para outras ainda, não passa de uma frase leve ou engraçada.
Mas o que as
pesquisas realmente dizem sobre pessoas que se identificam como pais ou mães de
pet? Será que estão cruzando algum limite ou perdendo a noção das diferenças
entre esses papéis? Por que algumas pessoas usam essa linguagem? E qual o
impacto disso para o animal?
Não é novidade
que, para muita gente, o pet é um membro da família. Em alguns casos, é até
descrito como filho ou filha. As pessoas relatam como seus animais estão
presentes na vida diária, em feriados, aniversários e outros rituais familiares
importantes. Às vezes, quando perguntamos “você tem filhos?”, a resposta vem
como “não, mas tenho pets”, ou “sim, tenho uma filha… e dois cachorros”, ou
ainda “sim, um menino e uma gata”.
Essas definições
de família variam e ajudam a construir um senso de pertencimento e identidade.
Também expressam valores sociais e relacionais. Por exemplo, algumas pessoas
que se identificam como mães de pet apresentam uma identidade de cuidado que,
em certos aspectos, pode se assemelhar ao que vemos em relações humanas, de
acordo com pesquisas de Lawson (2025) e Volsche (2018). Ao mesmo tempo, pessoas
que já têm filhos também podem experimentar sentimentos maternais em relação
aos seus pets (Laurence & Simpson, 2017).
Dito isso, o termo
“mãe de pet” também levanta preocupações e debates. Parte dessas preocupações
está relacionada ao bem-estar do animal. Algumas pessoas questionam se essa
forma de se relacionar pode gerar impactos negativos. Pesquisas de Volsche
(2018) e Barina Silvestre & Videla (2024) sugerem que desafios podem surgir
quando há dificuldade em equilibrar as necessidades do animal com as
necessidades da pessoa.
No entanto, esses
mesmos estudos mostram que pessoas que se identificam como pais ou mães de pet
geralmente têm clareza sobre o papel do animal em suas vidas. Não há,
necessariamente, uma confusão. Como descreve Volsche (2018), o termo “pet
parent” (mãe ou pai de pet) costuma ser usado para expressar proximidade
emocional, e não para ignorar as necessidades do animal ou afirmar que os
papéis de mãe e mãe de pet englobam exatamente as mesmas atividades de cuidado.
Além disso, o termo em si não determina o quanto essas necessidades do animal
são respeitadas. Não se trata de comparar, mas de traduzir um sentimento em
relação ao pet.
Outros autores,
como Paterson Engel (2019), utilizam o termo “peternal” (uma combinação de
“pet” com “maternal”) para descrever mulheres que têm um vínculo muito próximo
com seus animais. Em estudos com mulheres sem filhos, foram encontradas
conexões emocionais profundas, mas também certa ambivalência, especialmente
entre o desejo de cuidar e o desejo de manter a própria liberdade.
Ampliando essa
discussão, alguns pesquisadores também abordam a linguagem utilizada pelas
pessoas. Existe uma nuance importante. Muitas escolhem não usar o termo “mãe de
pet” em determinados contextos sociais, tanto para evitar julgamentos quanto
para não parecer que estão diminuindo ou simplificando a relação. Ao mesmo
tempo, algumas se sentem desconfortáveis com expressões como “filho de quatro
patas”, por entenderem que esses termos podem impactar negativamente a forma
como o animal é percebido.
A verdade é que os
animais têm ocupado um espaço cada vez maior na vida das pessoas. E, para quem
se sente mãe de pet, celebrar o Dia das Mães pode fazer sentido. Muitas vezes,
os sentimentos de cuidado não substituem outras relações, mas se estendem
também ao vínculo com o animal.
Então, se
identificar como “mãe de pet” faz mal para o animal? O que realmente importa é
se as necessidades do animal estão sendo respeitadas. E aqui cabe um ponto
essencial: se a ideia é cuidar, independentemente do termo utilizado, as
necessidades do animal precisam ser a maior prioridade. Nesse sentido, a
humanização do animal a qualquer custo pode ter um preço alto para o seu
bem-estar. Por exemplo, vestir o pet de forma desconfortável, forçar situações
para fotos ou ignorar sinais de estresse pode ser prejudicial. Mas isso não
está diretamente relacionado ao termo, e sim à capacidade de amar o animal por
quem ele é, em vez de tentar encaixá-lo em padrões humanos.
Algumas
perguntas podem ajudar nessa reflexão:
Eu estou
respeitando as necessidades do meu pet?
Estou projetando
nele necessidades minhas?
Estou permitindo que ele seja simplesmente um animal?
Se essas perguntas
trazem algum incômodo, talvez algo precise ser revisto. Ainda assim, isso não
está necessariamente ligado à terminologia.
Seria uma simplificação dizer que se chamar “mãe de pet”, por si só, é prejudicial para a pessoa ou para o animal. A questão é mais complexa do que isso. Como em muitos aspectos das relações entre humanos e animais, o ponto central é o equilíbrio. O animal não substitui relações humanas ou filhos, mas ocupa um lugar único. E, para muitas pessoas, esse lugar envolve respostas emocionais e até fisiológicas, que, em alguns aspectos, podem se aproximar das experiências de cuidado vivenciadas por mães no sentido clássico da palavra.
Com o Dia das Mães
se aproximando, que seja um dia feliz para todos aqueles que vivenciam papéis
de cuidado, seja com animais ou com crianças. Não se trata de comparar ou
competir, mas de reconhecer diferentes formas de cuidar.
Se é assim que
você se sente cuidando do seu pet, ainda que internamente, silenciosamente, que
este também possa ser um feliz Dia das Mães para você.
Renata Roma - psicoterapeuta e pesquisadora na
University of Saskatchewan (Canadá). Ela é especialista na relação entre saúde
emocional, infância e vínculos com animais e desenvolve pesquisas há mais de 10
anos sobre os benefícios (e desafios) das interações entre humanos e animais e
host do podcast Mais que um Pet.
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