Pesquisa revela que doenças gengivais e cáries aumentam em até 86% as chances de derrame e outros problemas vasculares
A conexão entre a
saúde bucal e o bem-estar do corpo humano é mais profunda do que se imagina. A
má higiene bucal não causa apenas desconfortos locais, mas pode ser um fator
determinante para a ocorrência de acidentes vasculares cerebrais (AVC). Uma
pesquisa publicada na Neurology Open Access, revista da
Academia Americana de Neurologia, revelou que indivíduos portadores de doença
gengival possuem 86% mais chances de sofrer um AVC isquêmico em comparação
àqueles que mantêm a saúde bucal em dia.
O estudo, que
acompanhou quase seis mil adultos durante duas décadas, demonstrou que, entre
os participantes com idade média de 63 anos, a incidência de AVC foi maior
conforme o agravamento das condições bucais, saltando de 4% entre pessoas com
boca saudável para 7% naquelas com doença gengival e atingindo 10% nos casos em
que havia também a presença de cáries.
O dado mais
alarmante da pesquisa reside na persistência do risco mesmo após o ajuste de
variáveis relacionadas ao estilo de vida como tabagismo, idade e índice de massa
corporal. Nesses cenários, o risco de AVC permaneceu 86% maior entre quem
apresentava o quadro combinado de cáries e gengivite, e 44% superior entre os
que sofriam isoladamente de doenças gengivais.
O neurologista e
professor da Afya Montes Claros, Dr Marcelo José da Silva de Magalhães, comenta
que uma das explicações para essa relação é que as bactérias presentes nessas
condições bucais liberam substâncias inflamatórias, levando a um estado de
inflamação crônica no organismo. “Esse processo contínuo pode favorecer o
desenvolvimento da aterosclerose, caracterizada pelo acúmulo de colesterol nas
paredes das artérias. Esse acúmulo, por sua vez, é um dos principais fatores
que podem levar à obstrução dos vasos e, consequentemente, ao AVC”.
A gravidade da
correlação se estende para outros eventos fatais, como o infarto, na qual as
chances de ocorrência crescem 36% quando problemas bucais são negligenciados.
Dr Marcelo José ressalta que antes de um AVC isquêmico, alguns pacientes podem
apresentar um ataque isquêmico transitório (AIT). “Esse quadro se manifesta por
sintomas neurológicos de curta duração, geralmente de poucos minutos, como
fraqueza ou dormência em braço ou perna, alterações na fala ou diminuição da
visão. Diante de qualquer um desses sinais, é fundamental procurar atendimento
médico imediato para investigação. O AIT, quando não tratado, pode evoluir
posteriormente para um AVC isquêmico, cujo tratamento é mais complexo”,
complementa o neurologista.
Importância
da higienização bucal correta
O cenário torna-se
mais crítico quando analisamos o panorama brasileiro, que aponta para uma falha
estrutural no acesso aos cuidados preventivos desde os primeiros anos de vida.
Segundo dados da Pesquisa Nacional de Saúde Bucal (SB Brasil 2023), divulgados em
2025, 41,2% das crianças brasileiras de apenas cinco anos já possuem dentes com
cáries não tratadas, sendo que 10% desse contingente necessita de intervenções
odontológicas de urgência.
De acordo com a
dentista e professora da Afya Contagem, Dra Paula Lima Bosi, quando falamos em
prevenir complicações maiores, como inflamações sistêmicas, infarto ou AVC
relacionados à saúde bucal, tudo começa com hábitos simples do dia a dia.
“A escovação
correta, pelo menos duas a três vezes ao dia, é fundamental. Não se trata
apenas de escovar, mas de fazer isso de forma adequada. Usar uma escova macia,
limpar todas as superfícies dos dentes e alcançar a região da gengiva ajuda a
remover a placa bacteriana, principal responsável por cáries e doenças
gengivais. O uso diário do fio dental é um dos hábitos mais importantes, e
também um dos mais negligenciados. Ele remove resíduos e placas entre os
dentes, áreas onde a escova não alcança e onde, com frequência, começam a
gengivite e a periodontite”.
O levantamento indica que 43,9% dos jovens entre 15 e 19 anos convivem com cáries, um reflexo direto de hábitos alimentares carregados de açúcares processados somados a uma rotina de higiene insuficiente. A dentista ainda ressalta que a higienização da língua merece atenção, devido ao poder de acumular grande quantidade de bactérias e, quando não é limpa, contribui para o aumento da carga bacteriana na boca.
“O enxaguante bucal pode ser um aliado, quando indicado. Embora não seja necessário para todos, ele pode ajudar especialmente pessoas com maior tendência à gengivite ou ao acúmulo de placa. Por fim, as visitas regulares ao dentista são essenciais. Consultas periódicas permitem identificar problemas ainda no início, acompanhar a saúde da gengiva e evitar que condições simples evoluam para quadros mais grave”, conclui a especialista.

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