Estudo
da Brasscom em parceria com o Instituto PROA revela que interesse pela entrada
no setor convive com barreiras de acesso, dificuldade para conseguir
entrevistas e importância da saúde mental
Divulgação
O estudo “Escuta
Jovem: Juventudes, Trabalho e Tecnologia”, uma parceria inédita entre a
Brasscom (Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação
(TIC) e Tecnologias Digitais) e o Instituto PROA – uma das principais pontes
entre a juventude periférica e o mercado de trabalho formal no Brasil – foi
desenvolvido para compreender como jovens em transição para a vida profissional
ou em início de carreira percebem o setor de tecnologia, quais são os
principais obstáculos para ingressar na área e o que pode favorecer sua
permanência e seu desenvolvimento profissional.
A pesquisa revela
que, ao mesmo tempo em que a Inteligência Artificial é vista como elemento
estratégico por 58% dos jovens, o acesso ao primeiro emprego continua marcado
por barreiras estruturais, como a dificuldade em conseguir entrevistas, a
exigência de experiência prévia e a fragilidade das condições socioemocionais e
materiais de parte significativa dessa população.
O setor de TIC
segue em expansão no Brasil. Em 2024, o segmento registrou produção de R$ 393,3
bilhões, respondendo por 3,3% do PIB brasileiro e crescendo 12,5% no período.
Além de sua relevância econômica, a área se destaca pela geração de empregos
qualificados e salários 2,3 vezes acima da média nacional, o que reforça a
importância de ampliar e qualificar as portas de entrada para novos talentos,
especialmente entre os jovens.
Inteligência
artificial como oportunidade
A Inteligência
Artificial aparece no estudo como um ponto de otimismo e, ao mesmo tempo, de
atenção. Para 58% dos jovens entrevistados, a IA é uma ferramenta estratégica
para o desenvolvimento profissional, elevando o patamar esperado de preparação
técnica, trazendo ganho de efetividade e economia de tempo. Do lado das
empresas, 52% afirmam já estar se preparando para os impactos desta tecnologia.
Ainda assim, 30% dos jovens dizem temer ser substituídos pela IA, o que reforça
a necessidade de alfabetização digital, orientação de carreira e processos
seletivos mais transparentes e justos.
Saúde
mental como condição de permanência
Outro achado
central da pesquisa é o peso da saúde mental na experiência de entrada e
permanência no trabalho. Para 71% dos jovens, respeito, acolhimento e cuidado
com a saúde mental são critérios fundamentais para se sentirem valorizados. O
levantamento mostra que ansiedade, pressão constante e sensação de estar sempre
sendo testado não devem ser lidas como fragilidades individuais, mas como
reflexo de um sistema que, muitas vezes, expõe a juventude, especialmente a
periférica, a altas demandas com pouca proteção emocional. Nesse contexto, o
ambiente de trabalho deixa de ser apenas um espaço de produtividade e passa a
ser um fator decisivo de retenção.
Para Alini
Dal’Magro, CEO e presidente do Instituto PROA, esse debate precisa avançar para
mudanças concretas na forma como os jovens são avaliados e acompanhados ao
longo da jornada profissional. “Mais do que reconhecer sua importância, é
necessário rever práticas, desde os processos seletivos até a gestão no dia a
dia, para que não se tornem fontes adicionais de ansiedade e exclusão. Criar
caminhos de entrada mais transparentes e relações mais consistentes desde o
início é essencial para que esses jovens consigam se desenvolver e permanecer no
trabalho”, afirma.
Barreiras
de acesso ainda travam entrada no setor
A pesquisa também
desmonta a ideia de falta de interesse ou de preparo por parte dos jovens. 59%
demonstram interesse em atuar no setor de tecnologia, e 89% já buscaram algum
curso de preparação para o mercado de trabalho. Ainda assim, 54% apontam a
dificuldade em conseguir uma entrevista como o principal obstáculo para
ingressar em uma vaga.
O problema,
portanto, não está apenas na qualificação individual, mas na forma como a
entrada no mercado é estruturada. Entre os jovens ouvidos, 45% nunca tiveram
carteira assinada e 30% afirmam não ter experiência profissional. Em paralelo,
o mercado segue exigindo histórico formal e priorizando critérios que muitas
vezes desconsideram trajetórias não lineares, aprendizados informais e
potencial de desenvolvimento.
As barreiras
financeiras também têm peso relevante. Segundo o estudo, 69% dos jovens vivem
em famílias com renda de até dois salários mínimos, o que dificulta o acesso a
transporte, computadores e internet de qualidade. Em muitos casos, o celular é
o único meio disponível para acessar a rede, o que restringe a participação em
processos seletivos e reduz as chances de contratação.
A
visão da Brasscom
A Brasscom,
consciente dos desafios e das oportunidades apontadas pelo estudo, atua para
fomentar a formação e a inserção de talentos na área de tecnologia. “Na
Brasscom, compreendemos que para além de ouvir as empresas, temos que abrir
para os talentos, ouvir quem tem interesse em ingressar no setor e nos
provocar. Nosso trabalho, especialmente por meio de parcerias e projetos
educacionais, busca construir pontes efetivas para que esse interesse se
transforme em oportunidades reais. É fundamental que o mercado de TI acolha e
retenha esses novos talentos, superando barreiras como as dificuldades nas
entrevistas e a falta de experiência formal, e garantindo um futuro mais
inclusivo para esses jovens”, afirma Roberta Piozzi, diretora de Parcerias e
Projetos em Educação da associação.
Metodologia
e perfil da amostra
O estudo “Escuta
Jovem: Juventudes, Trabalho e Tecnologia” combinou duas abordagens
complementares. A “Escuta Jovem Brasscom” utilizou uma amostra qualitativa de
46 jovens, predominantemente entre 17 e 25 anos, racializados e em transição
entre a formação e a entrada no mercado de trabalho. Essa etapa aprofundou
narrativas sobre barreiras de entrada, expectativas, vivências no trabalho e
percepções sobre tecnologia e IA. Já o “Horizontes Comuns PROA” ouviu 420
jovens, majoritariamente mulheres, negras, egressas da escola pública e de
baixa renda, além de 23 empregadores do setor de TIC. A combinação entre escuta
qualitativa e análise quantitativa permitiu mapear desencontros e convergências
entre as expectativas dos jovens e as demandas do mercado.
Mais do que um diagnóstico, o estudo é um convite para que
setor privado, governo e instituições de ensino atuem de forma coordenada na
construção de caminhos mais reais de entrada, permanência e desenvolvimento na
tecnologia. Transformar o interesse dos jovens em carreira exige não apenas
formação, mas também processos de seleção mais acessíveis, ambientes mais
acolhedores e trajetórias profissionais mais claras.
Sobre a Brasscom
A Brasscom, Associação das Empresas de Tecnologia da Informação
e Comunicação (TIC) e de Tecnologias Digitais, é uma associação representativa
do setor em toda a sua pluralidade: com associados de vários portes, desde
pequenas startups até grandes empresas do setor; com empresas nacionais e
multinacionais, incluindo multinacionais brasileiras que se expandiram pelo
mundo e multinacionais de outros países instaladas no Brasil. Essa pluralidade
permite à Brasscom contribuir para o debate democrático com uma visão ampla e
diversa sobre cada tema em questão.
Atualmente, a associação conta com mais de 100 empresas
associadas, com diferentes modelos de negócios. Entre as várias
responsabilidades da Brasscom, está a garantia de que informações essenciais
sobre temas pertinentes à TIC, que contribuem para o desenvolvimento
tecnológico econômico e social do Brasil, cheguem de maneira adequada e
abrangente ao público.
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