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sábado, 9 de maio de 2026

Maternidade idealizada x maternidade real: expectativas irreais impactam a saúde emocional das mulheres

 

Pressão por um ideal inatingível de “mãe perfeita” amplia culpa, ansiedade e esgotamento emocional, enquanto especialistas defendem uma vivência mais realista e acolhedora da maternidade 


Com a proximidade do Dia das Mães, cresce também a circulação de discursos que reforçam uma imagem idealizada da maternidade: um lugar de plenitude constante, amor inesgotável e felicidade espontânea. No entanto, a realidade vivida por muitas mulheres é mais complexa e, frequentemente, marcada por sentimentos ambivalentes que nem sempre encontram espaço de acolhimento. 

Dados reforçam esse cenário. Segundo a Fiocruz, cerca de 25% das mulheres apresentam sintomas de depressão no período pós-parto no Brasil. Já a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 1 em cada 5 mulheres enfrentará algum transtorno mental durante a gestação ou no primeiro ano após o parto. Esses números indicam que a experiência materna está longe de ser homogênea e que o sofrimento emocional é mais comum do que se costuma admitir socialmente. 

Na prática clínica, essa discrepância entre expectativa e realidade aparece de forma recorrente. “A maternidade costuma ser apresentada, socialmente, como um lugar de plenitude constante, amor inesgotável e felicidade espontânea. Mas, na clínica, a realidade costuma aparecer de forma bem mais complexa: junto do amor, podem surgir cansaço, ambivalência, irritação, medo, solidão e culpa”, explica a psicóloga Dra. Andrea Beltran. 

Segundo a especialista, a psicologia junguiana ajuda a compreender esse fenômeno ao considerar que toda experiência humana carrega aspectos de luz e sombra. “Quando a mulher sente que precisa corresponder ao arquétipo da ‘mãe perfeita’, sempre paciente, disponível, bonita, produtiva e emocionalmente equilibrada, ela pode acabar se afastando da própria verdade psíquica. E quanto mais tenta sustentar essa imagem idealizada, maior pode ser o sofrimento interno”, afirma. 

No dia a dia, essa pressão se traduz em situações comuns: mães que se culpam por perder a paciência após noites mal dormidas, que se sentem inadequadas por não vivenciar a maternidade com alegria constante ou que se comparam com padrões irreais das redes sociais. Esse processo cria um parâmetro simbólico rígido, no qual o valor pessoal passa a ser medido por um modelo inalcançável. 

“A idealização social cria um padrão quase impossível de alcançar, e a mulher passa a medir seu valor não pelo que vive de forma real, mas por um modelo simbólico rígido. Em vez de acolher seus limites, ela começa a lutar contra eles, como se sentir exausta ou frustrada fosse sinal de fracasso, e não parte da experiência humana”, pontua Dra. Andrea. 

Do ponto de vista clínico, esse conflito pode ser entendido como um distanciamento entre o eu real e a imagem de mãe esperada socialmente. Quando sentimentos difíceis são negados, eles tendem a se intensificar. “Quando não há espaço para reconhecer a sombra, isto é, os sentimentos difíceis e contraditórios, eles não desaparecem; apenas se tornam mais pesados, muitas vezes se manifestando em ansiedade, culpa excessiva, sensação de insuficiência e até esgotamento emocional”, explica. 

Esse cenário também se conecta a um fenômeno crescente: o chamado burnout materno. Um estudo publicado pela Universidade Católica de Louvain, na Bélgica, aponta que a exaustão extrema relacionada à parentalidade tem aumentado, especialmente em contextos de alta cobrança social e falta de rede de apoio. 

Diante disso, especialistas defendem a importância de ampliar o olhar sobre a maternidade, especialmente em datas simbólicas como o Dia das Mães. “A maternidade real pede menos perfeição e mais consciência. Reconhecer que amar um filho não impede momentos de raiva, cansaço ou desejo de estar só é um passo importante para uma vivência mais íntegra e menos adoecedora”, diz a psicóloga. 

Mais do que sustentar uma imagem idealizada, o caminho passa por construir uma relação mais honesta com a própria experiência. “À medida que o Dia das Mães se aproxima, talvez seja importante ampliar o olhar sobre essa data e lembrar que maternar não é encenar perfeição, mas sustentar vínculos possíveis dentro da realidade. A terapia pode ajudar a mulher a desmontar idealizações cruéis, elaborar culpas e construir uma relação mais humana consigo mesma. Quando a mãe deixa de perseguir uma imagem inalcançável e passa a se escutar com mais honestidade, ela não se torna menos mãe, ela se torna mais inteira”, conclui.

 

Dra. Andrea Beltran - psicóloga analítica junguiana, formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo. Atua no acompanhamento de processos individuais com foco em autoconhecimento, vínculo e desenvolvimento emocional. Seu trabalho valoriza narrativas pessoais e vínculos profundos, buscando acolhimento genuíno em cada jornada.


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