Pressão por um ideal inatingível de “mãe perfeita” amplia culpa, ansiedade e esgotamento emocional, enquanto especialistas defendem uma vivência mais realista e acolhedora da maternidade
Com a proximidade do Dia das Mães, cresce também a
circulação de discursos que reforçam uma imagem idealizada da maternidade: um
lugar de plenitude constante, amor inesgotável e felicidade espontânea. No
entanto, a realidade vivida por muitas mulheres é mais complexa e,
frequentemente, marcada por sentimentos ambivalentes que nem sempre encontram
espaço de acolhimento.
Dados reforçam esse cenário. Segundo a Fiocruz, cerca de 25% das
mulheres apresentam sintomas de depressão no período pós-parto no Brasil. Já a
Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 1 em cada 5 mulheres enfrentará
algum transtorno mental durante a gestação ou no primeiro ano após o parto.
Esses números indicam que a experiência materna está longe de ser homogênea e
que o sofrimento emocional é mais comum do que se costuma admitir socialmente.
Na prática clínica, essa discrepância entre expectativa e realidade
aparece de forma recorrente. “A maternidade costuma ser apresentada,
socialmente, como um lugar de plenitude constante, amor inesgotável e
felicidade espontânea. Mas, na clínica, a realidade costuma aparecer de forma
bem mais complexa: junto do amor, podem surgir cansaço, ambivalência,
irritação, medo, solidão e culpa”, explica a psicóloga Dra. Andrea Beltran.
Segundo a especialista, a psicologia junguiana ajuda a compreender
esse fenômeno ao considerar que toda experiência humana carrega aspectos de luz
e sombra. “Quando a mulher sente que precisa corresponder ao arquétipo da ‘mãe
perfeita’, sempre paciente, disponível, bonita, produtiva e emocionalmente
equilibrada, ela pode acabar se afastando da própria verdade psíquica. E quanto
mais tenta sustentar essa imagem idealizada, maior pode ser o sofrimento
interno”, afirma.
No dia a dia, essa pressão se traduz em situações comuns: mães que
se culpam por perder a paciência após noites mal dormidas, que se sentem
inadequadas por não vivenciar a maternidade com alegria constante ou que se
comparam com padrões irreais das redes sociais. Esse processo cria um parâmetro
simbólico rígido, no qual o valor pessoal passa a ser medido por um modelo inalcançável.
“A idealização social cria um padrão quase impossível de alcançar,
e a mulher passa a medir seu valor não pelo que vive de forma real, mas por um
modelo simbólico rígido. Em vez de acolher seus limites, ela começa a lutar
contra eles, como se sentir exausta ou frustrada fosse sinal de fracasso, e não
parte da experiência humana”, pontua Dra. Andrea.
Do ponto de vista clínico, esse conflito pode ser entendido como
um distanciamento entre o eu real e a imagem de mãe esperada socialmente. Quando
sentimentos difíceis são negados, eles tendem a se intensificar. “Quando não há
espaço para reconhecer a sombra, isto é, os sentimentos difíceis e
contraditórios, eles não desaparecem; apenas se tornam mais pesados, muitas
vezes se manifestando em ansiedade, culpa excessiva, sensação de insuficiência
e até esgotamento emocional”, explica.
Esse cenário também se conecta a um fenômeno crescente: o chamado
burnout materno. Um estudo publicado pela Universidade Católica de Louvain, na
Bélgica, aponta que a exaustão extrema relacionada à parentalidade tem
aumentado, especialmente em contextos de alta cobrança social e falta de rede
de apoio.
Diante disso, especialistas defendem a importância de ampliar o
olhar sobre a maternidade, especialmente em datas simbólicas como o Dia das
Mães. “A maternidade real pede menos perfeição e mais consciência. Reconhecer
que amar um filho não impede momentos de raiva, cansaço ou desejo de estar só é
um passo importante para uma vivência mais íntegra e menos adoecedora”, diz a
psicóloga.
Mais do que sustentar uma imagem idealizada, o caminho passa por construir uma relação mais honesta com a própria experiência. “À medida que o Dia das Mães se aproxima, talvez seja importante ampliar o olhar sobre essa data e lembrar que maternar não é encenar perfeição, mas sustentar vínculos possíveis dentro da realidade. A terapia pode ajudar a mulher a desmontar idealizações cruéis, elaborar culpas e construir uma relação mais humana consigo mesma. Quando a mãe deixa de perseguir uma imagem inalcançável e passa a se escutar com mais honestidade, ela não se torna menos mãe, ela se torna mais inteira”, conclui.
Dra. Andrea Beltran - psicóloga analítica junguiana, formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo. Atua no acompanhamento de processos individuais com foco em autoconhecimento, vínculo e desenvolvimento emocional. Seu trabalho valoriza narrativas pessoais e vínculos profundos, buscando acolhimento genuíno em cada jornada.

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