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segunda-feira, 11 de maio de 2026

Agro é tech, mas ainda não é totalmente limpo energeticamente


O agronegócio brasileiro é um espetáculo de eficiência digital. Satélites, sensores de solo e drones de última geração desenham o cenário de um setor que vem se tornando cada vez mais 'tech'. No entanto, há uma contradição latente nesse avanço: grande parte dessa estrutura hiper conectada ainda é movida por máquinas altamente dependentes de combustíveis fósseis - o que vai totalmente contra a demanda global por energias mais limpas. Como, então, teremos um segmento pujante em termos de inovação, se a fonte que alimenta essas estratégias não for tão renovável quanto o solo que cultivamos? 

Dados recentes reforçam essa dualidade. No final de 2025, o setor registrou um recorde histórico nas exportações, atingindo a marca de US$ 169 bilhões, segundo o Radar Agtech Brasil 2025, um reflexo direto da adoção em massa de tecnologias de precisão. Ao mesmo tempo, o país já conta com mais de 2.075 startups voltadas ao agro, um crescimento de 5% em relação ao ano anterior, com 83% delas utilizando inteligência artificial para otimizar seus processos, da gestão financeira ao monitoramento de pragas. 

O problema, contudo, é que seu "calcanhar de Aquiles" permanece na fonte que move suas operações. Informações da FGV Agro de 2025 mostram que 73% da energia usada nas atividades rurais ainda provém de combustíveis fósseis, como o diesel, liderando essa dependência nacional. Permanecer nessas fontes apenas abre margem para uma série de vulnerabilidades ao desempenho deste setor, com destaque para uma maior volatilidade econômica, falta de cuidado com a manutenção do nosso ecossistema e, inevitavelmente, riscos cada vez maiores de ineficiência operacional. 

Primeiramente, considerando a constante exposição internacional que o agro sofre, em termos financeiros e de mercado, depender do diesel e de derivados de petróleo faz com que o produtor brasileiro se torne refém de crises geopolíticas e variações cambiais que ele não controla. Os conflitos no Oriente Médio, por exemplo, ou as oscilações no dólar, refletem, instantaneamente, em custos de frete e das operações das máquinas, comprometendo a lucratividade que a tecnologia digital pode trazer ao campo. 

Sem a transição para fontes mais limpas, o setor também corre o risco de assumir um papel de "tecnológico, mas sujo", perdendo selos de sustentabilidade que são fundamentais para acessar linhas de crédito mais baratas e mercados globais mais estratégicos. Sem falar que depender de combustíveis que precisam ser transportados por longas distâncias até o coração do campo é, por si só, mais um empecilho logístico que impacta a lucratividade econômica dos produtores. Afinal, em um país com enormes dimensões como o nosso, a alta queima de combustível gera um ciclo de ineficiência extremamente prejudicial ao nosso meio ambiente. 

Juntos, esses pontos deixam claro que a importância da migração para energias mais renováveis vai além da ecologia em si: trata-se, sobretudo, de uma forma bem mais inteligente de adquirir uma maior eficiência operacional – criando uma "blindagem energética" em que os custos de produção se tornam mais previsíveis e a operação mais resiliente a eventos externos, permitindo que a inovação digital ganhe cada vez mais força através de uma base sustentável e economicamente segura. 

Para romper esse ciclo de dependência, a inovação no campo precisa focar na convergência entre a eficiência produtiva e a autonomia energética. E, dentre as soluções que já vêm se destacando nesse sentido, estão: a economia circular em escala industrial, com tecnologias que convertem resíduos em biometano, de forma que grandes propriedades produzam seu próprio combustível para frotas; e sistemas agro fotovoltaicos, os quais integram painéis solares sobre as plantações ou áreas de pastagem como forma de economizar e otimizar os recursos naturais. 

Além de proporcionarem um maior retorno sobre os investimentos feitos (ROI), ter uma produção movida a energia renovável é um tremendo diferencial competitivo que atrai investidores e facilita o cumprimento de metas mundiais de descarbonização, como as da ISO 14064 e diretrizes globais de emissões, andando em concordância com a Agenda ESG. 

Diante de tantos avanços que já presenciamos neste setor, não há como negar quanto que o "Agro é Tech". O desafio, agora, é garantir que esse progresso não seja freado por um modelo energético arriscado. Ao alinhar a eficiência digital à sustentabilidade energética, não apenas protegeremos nosso PIB e fronteiras comerciais, como reforçaremos a importância de fazer com que o campo seja um verdadeiro campo fértil em termos de qualidade e manutenção ecológica e inovadora. 



Alexandre Pierro - doutorando em energia e mestre em gestão e engenharia da inovação, engenheiro mecânico, bacharel em física e especialista de gestão da PALAS, consultoria pioneira na implementação da ISO de inovação na América Latina.
  


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