O agronegócio brasileiro é um espetáculo de
eficiência digital. Satélites, sensores de solo e drones de última geração
desenham o cenário de um setor que vem se tornando cada vez mais 'tech'. No
entanto, há uma contradição latente nesse avanço: grande parte dessa estrutura
hiper conectada ainda é movida por máquinas altamente dependentes de
combustíveis fósseis - o que vai totalmente contra a demanda global por energias
mais limpas. Como, então, teremos um segmento pujante em termos de
inovação, se a fonte que alimenta essas estratégias não for tão
renovável quanto o solo que cultivamos?
Dados recentes reforçam essa dualidade. No final de
2025, o setor registrou um recorde histórico nas exportações, atingindo a marca
de US$
169 bilhões, segundo o Radar Agtech Brasil 2025, um reflexo
direto da adoção em massa de tecnologias de precisão. Ao mesmo tempo, o
país já conta com mais de 2.075 startups voltadas ao agro, um
crescimento de 5% em relação ao ano anterior, com 83% delas
utilizando inteligência artificial para
otimizar seus processos, da gestão financeira ao monitoramento
de pragas.
O problema, contudo, é que seu "calcanhar de
Aquiles" permanece na fonte que move suas operações. Informações da
FGV Agro de 2025 mostram que 73% da energia usada nas atividades rurais
ainda provém de combustíveis fósseis, como o diesel, liderando essa
dependência nacional. Permanecer nessas fontes apenas abre margem para uma
série de vulnerabilidades ao desempenho deste setor, com destaque para uma
maior volatilidade econômica, falta de cuidado com a manutenção do
nosso ecossistema e, inevitavelmente, riscos cada vez maiores de ineficiência
operacional.
Primeiramente, considerando a constante exposição
internacional que o agro sofre, em termos financeiros e de mercado, depender do
diesel e de derivados de petróleo faz com que o produtor brasileiro se torne
refém de crises geopolíticas e variações cambiais que ele não controla. Os
conflitos no Oriente Médio, por exemplo, ou as oscilações no dólar, refletem,
instantaneamente, em custos de frete e das operações das máquinas,
comprometendo a lucratividade que a tecnologia digital pode trazer ao campo.
Sem a transição para fontes mais limpas, o setor
também corre o risco de assumir um papel de "tecnológico, mas sujo",
perdendo selos de sustentabilidade que são fundamentais para acessar linhas de
crédito mais baratas e mercados globais mais estratégicos. Sem falar que
depender de combustíveis que precisam ser transportados por longas distâncias
até o coração do campo é, por si só, mais um empecilho logístico que impacta a
lucratividade econômica dos produtores. Afinal, em um país
com enormes dimensões como o nosso, a alta queima de
combustível gera um ciclo de ineficiência extremamente prejudicial ao
nosso meio ambiente.
Juntos, esses pontos deixam claro que a importância
da migração para energias mais renováveis vai além da ecologia em si: trata-se,
sobretudo, de uma forma bem mais inteligente de adquirir uma
maior eficiência operacional – criando uma "blindagem
energética" em que os custos de produção se tornam
mais previsíveis e a operação mais resiliente
a eventos externos, permitindo que a inovação digital ganhe cada
vez mais força através de uma base sustentável e economicamente segura.
Para romper esse ciclo de dependência, a inovação
no campo precisa focar na convergência entre a eficiência produtiva e a
autonomia energética. E, dentre as soluções que já vêm se destacando nesse
sentido, estão: a economia circular em escala industrial, com tecnologias que
convertem resíduos em biometano, de forma que grandes propriedades produzam seu
próprio combustível para frotas; e sistemas agro fotovoltaicos,
os quais integram painéis solares sobre as plantações ou áreas
de pastagem como forma de economizar e otimizar os recursos naturais.
Além de proporcionarem um maior retorno sobre os
investimentos feitos (ROI), ter uma produção movida a energia renovável é um
tremendo diferencial competitivo que atrai investidores e facilita o
cumprimento de metas mundiais de descarbonização, como as da ISO 14064 e
diretrizes globais de emissões, andando em concordância com a Agenda ESG.
Diante de tantos avanços que já presenciamos neste setor, não há como negar quanto que o "Agro é Tech". O desafio, agora, é garantir que esse progresso não seja freado por um modelo energético arriscado. Ao alinhar a eficiência digital à sustentabilidade energética, não apenas protegeremos nosso PIB e fronteiras comerciais, como reforçaremos a importância de fazer com que o campo seja um verdadeiro campo fértil em termos de qualidade e manutenção ecológica e inovadora.
Alexandre Pierro - doutorando em energia e mestre em gestão e engenharia da inovação, engenheiro mecânico, bacharel em física e especialista de gestão da PALAS, consultoria pioneira na implementação da ISO de inovação na América Latina.
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